Sal da Terra Luz do Mundo 
  corner   



HOME

ARCHIVES


Sal da Terra Luz do Mundo: Espaço de cobertura de eventos de arte- musica, erudita, jazz, teatro, dança, cinema ,artes plásticas , literatura que acontecem na cidade ; entrevistas e perfis com escritores, diretores de teatro, cineastas, artistas plásticos, dramaturgos, musicos, dançarinos, e ainda reflexão sobre temas de cultura, todas as áreas do conhecimento humano, saúde integral, e espiritualidade. Ana Lúcia Vasconcelos, jornalista, atriz, dramaturga. Campinas/SP/Brasil

 
Comentários

Quarta-feira, Dezembro 22, 2004

 
Espiritualidade


É Natal! Nasce a divina criança




¿De tempos em tempos, o Céu nos envia alguém que não é apenas humano, mas
também divino, de modo que, através de seu espírito e da superioridade de inteligência, possamos atingir o Céu¿. Visari (século XVI).




Ana Lúcia Vasconcelos


Os profetas antigos anunciaram a vinda do Messias, Aquele que libertaria o povo, que andava nas trevas do pecado, Aquele que iluminaria o mundo com sua Luz e que diria de si mesmo: ¿Eu sou a Luz do mundo, quem anda comigo não vive nas trevas. Eu sou o Caminho-que leva ao Pai, sou a Verdade e a Vida. Quem me vê, vê meu Pai que me enviou. Quem come da minha carne e bebe do meu sangue viverá eternamente, o que significa que não mais haverá morte para quem se alimentar deste Pão vivo que veio dos céus. Eu sou a Porta, quem por ela entrar sentar-se-á à mesa comigo e cearemos juntos. Eu sou o Amor, quem quiser me seguir renuncie a si mesmo tome a sua cruz e me siga. Quando eu voltar, haverá ainda fé sobre a Terra?¿
O profeta Isaías vai profetizar: ¿O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; sobre aqueles que habitavam uma região tenebrosa, resplandeceu uma luz. Vós suscitais um gande regozijo, provocais uma imensa alegria; rejubilam-se diante de vós como na alegria da colheita. Porque o jugo que pesava sobre ele, a coleira do seu ombro e a vara do feitor, vós os quebrastes como no dia de Madiã. Porque todo calçado que se traz na batalha, e todo manto manchado de sangue, serão lançados ao fogo e tornar-se-ão presas das chamas; porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado; a soberania repousa sobre seus ombros e ele se chama Conselheiro Admirável, Deus forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz. O seu império será grande e a paz sem fim sobre o trono de Davi e em seu reino ele firmará e o manterá pelo direito e pela justiça desde agora e para sempre Eis o que fará o zelo do Senhor dos exércitos¿. (Isaías 9,1-6)


Mas não havia lugar para eles na hospedaria

Mas o que era esperado por muitos, na verdade quando chega não é aceito, não é acolhido, e Maria grávida da divina criança, acompanhada de José, vagam pela cidade de Belém a procura de um lugar para passar a noite e acabam encontrando um simples estábulo, fora dos muros da cidade, e lá, numa mangedoura vai nascer o Messias prometido, anunciado pelos profetas, esperado pelos estudiosos-os reis magos são na verdade estudiosos da espiritualidade e sabiam que a estrela indicava o local onde essa criança divina deveria nascer.
Vejamos como Lucas, um dos quatro evangelistas, vai relatar este fato inaudito, de suma importância para esta humanidade: ¿Naqueles tempos apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda a terra. Este recenseamento foi feito antes do governo de Quirino, na Síria. Todos iam alistar-se, cada um na sua cidade. Também José subiu à Judéia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e da família de Davi, para se alistar com sua esposa Maria, que estava grávida. Estando eles ali, completaram-se os dias dela..¿
¿E deu à luz seu filho primogênito e envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio, porque não havia lugar para eles na hospedaria. Ora, havia nos arredores, uns pastores que vigiavam e guardavam os seus rebanho nos campos durante as vigílias da noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes, e a glória do Senhor refulgiu ao redor deles e tiveram grande temor. O anjo disse:¿ Não temais, eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo o povo: hoje vos nasceu na cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura¿. E subitamente ao anjo se juntou uma multidão do exército celeste que louvava a Deus e dizia: ¿Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens objetos da benevolência divina¿.


ele nasceu numa mangedoura

Segundo os relatos a noite era de calma, de silencio, de paz, de louvor.Era uma noite santa, cheia de cantos de anjos, cheia de encantos onde dizem até a natureza parou em expectativa para receber o Divino Menino, a Doce Criança. Os céus se abriram para o Menino nascer, a criança nascer e os primeiros adoradores foram os pastores, que guardavam seus rebanhos nas proximidades e ainda os Reis magos, estudantes de espiritualidade que vieram de seus longínquos reinos guiados pela estrela, trazendo seus presentes simbólicos: ouro, incenso e mirra, para um Rei, que é Deus.



A estrela anuncia o Meu regresso

Mas vejamos como o próprio Jesus fala em mensagem a JNSR, uma vidente católica francesa, que recebe mensagens de Jesus, no livro Testemunhas da Cruz (volume 5- pág.122), intitulada exatamente: Natal de 1995, sobre este momento: ¿Os pastores e os Reis magos reconheceram a Minha Santa Presença na estrela brilhante de Belém. Em cada homem que me espera, também eu vejo a alegria brilhar como uma estrela: o anuncio do Meu Regresso. Esta noite de Natal será única, para cada um que Me espera. Irei viver o Meu Santo Nascimento em todos os lares em que deus é esperado. Não penseis que Eu estarei só, mas como outrora também hoje muitas portas se fecharão diante de Mim e o Menino-Deus tem necessidade de adoração¿.


adoração dos magos de Rubens

¿Apresento-vos a Santíssima Família, tal como ela mesma foi nesse Dia de Natal, o da Minha Santa Natividade. Eis a Minha Mãe Santíssima, MARIA cheia de graça. Eis o Meu doce pai, São José; ambos andam a procura de um teto, de uma presença afetuosa, de um acolhimento espontâneo. Nesta noite de Natal, continuaremos ainda os tres a mendigar: somos mendigos do Amor. Eu sou JESUS, o Filho de Deus Pai, o Filho de vosso Pai dos Céus. Eu sou JESUS, vosso irmão. Eis a minha Mãe e eis o vosso Pai da Terra. Se Deus confiou a ele Eu, o filho do Pai Eterno, confia-vos a Meu Pai São José. Nós estamos os tres esta noite, naqueles que sofrem pelo frio a dormir no solo gelado de vossas ruas, à porta dos corações tão frios como uma sepultura¿.
Estamos como os que vivem isolados de todos; a lepra das suas doenças é menos repugnante que a vossa indiferença.Estamos em toda essa solidão das prisões, dos hospitais, como os pobres, os rejeitados, os marginalizados.Estamos, esta noite com os mais pobres: sim, com os que se decidem ainda a ignorar a partilha da Minha Santa Eucaristia, o Meu Pão da Vida; o único Pão que sacia todo homem.Os que Me rejeitam, rejeitam a Vida.Aquele que vem a Mim, não mais terá sede, porque Eu sou a Água da Vida.
Sim, esta noite somos Nós, os Três, que batemos à vossa porta; e se uma porta se abre a um dos Meus pobres é a Nós, os Três que vós acolheis; sim, JESUS, MARIA, JOSÉ estão presentes nesse pobre.




Minha filha, se o Mundo aceitasse este Fogo de Amor que arde em Mim, eu mesmo incendiaria a todos os corações com o Meu Amor tres vezes santo; os corações brilhariam como frutos amadurecidos, a abrirem-se todos ao mesmo tempo.Esta explosão de alegria seria ouvida pelo Nosso Pai dos Céus.
Assim libertareis o Amor, há tanto tempo prisioneiro na estreiteza dos corações, há tanto tempo cativo por aqueles que não o tem sabido partilhar; tão ignorado, mas a existir, mesmo nos corações mais rebeldes à Minha Misericórdia Infinita e ao Amor das Minhas almas queridas, inteiramente consagradas a Deus.
Vê, Minha Filha, a intensidade do Meu Amor, contempla este Fogo que Me abrasa, que contém toda a energia do mundo, encarquilhado no meu Sagrado Coração como os filhos prestes a nascer para a vida e a esperar impacientemente, no seio da mãe, a hora da sua própria libertação. O seu grito de Amor, é o seu primeiro vagido. É o seu primeiro agradecimento a Deus.O seu primeiro nascimento está já nesse encontro com Deus que ele conhece e que irá seguir, com toda a liberdade, guiado interiormente.A sua estrela é o seu Deus; e ela brilha em cada recém nascido, como a estrela de Belém.
Sim, Eu aguardo a hora em que vós mesmos Me entregareis aos vossos corações.Eu venho de novo, com o Meu Corpo de Glória receber o vosso grito de entrega: Vem, Senhor Jesus! Com a vossa aceitação total, enfim! Com o vosso próprio nascimento para a Vida em Deus, se cumprirá a Redenção total, final, tão esperada.
Por conseguinte, a Hora da entrega irá cumprir-se num ultimo grito que irá ressoar bem fortemente, como o eco que se repete e se propaga, ate as idades mais remotas, para chegar até esse dia Santo, iluminado pela Glória de Deus Tres Vezes Santo, em que as próprias montanhas gritarão:
¿Maranata Tha, vinde a nós Senhor, vinde depressa!¿
Então a Igreja renovada, Cidade Maravilhosa devidamente preparada como esposa dirá: ¿Vinde, Senhor JESUS!¿ O Senhor ocupará a Nova Jerusalém e dir-vos-á:
¿Sim, Eu venho, eis-Me aqui!
Filhos reinai Comigo em toda a Terra.
Santa para sempre.¿
Diante de Vós, Senhor,
Nós nos prostramos.
A Vós a Honra, a Glória e o Poder
Pelos séculos dos séculos
Amém.¿

E o menino crescia...

¿E o menino crescia em sabedoria e a graça de Deus repousava nele¿.E mais tarde, o Príncipe da Paz vai devolver a visão aos cegos, curar leprosos, fazer os paralíticos andar, os mudos falar, e os surdos ouvir, os mortos voltarem à vida. Andava no meio do povo falando do amor e da paz entre os homens, falava do Reino do Céus com a ternura de um Deus. Mas, Ele que viera para os seus, foi compreendido. E agora Jesus é o Cordeiro Imolado o que vai dar a vida pelas suas ovelhas. Mas como predissera, em tres dias vai reedificar o templo que afinal não é o templo de pedra como os judeus acreditavam, mas o templo do seu corpo, e ressuscitado, mostra-se aos seus discípulos que o vêm ascender aos céus de glória junto do Pai e do Espírito Santo, a Trindade Santíssima.
Mas prometeu que um dia voltaria, para estabelecer seu Reino de Paz. ¿Será que encontraria fé sobre a Terra?¿ Incansável, vendo que as ovelhas se perdem enredadas nas ciladas do seu inimigo mortal, a antiga serpente, ele manda novos profetas. E ao longo desses dois mil anos manda sua Mãe Maria Santíssima, anjos e santos que vão repetir aos modernos apóstolos, sua mensagem de amor ao povo.
Recentemente a partir da década de 70, Ele mesmo começa a aparecer, se revelar a videntes, a quem escolhe como as mensageiras desses últimos tempos: em Dozulé (França) à Madalena Aumont, na mesma cidade àquela que se assina Je Ne Sui Rien, à Vassula Ryden, em Bangladesh , depois na Suíça e atualmente, em Roma onde ela mora.
São mensagens longas, maravilhosas que confirmam os Evangelhos, a sua Boa Nova atualizam-no, revelando seus insondáveis mistérios a todo aquele que abrir o seu coração e se decidir a seguí--lo e ajudá-lo na conversão das almas.
No dia 11 de outubro de 1992 disse o seguinte à Je Ne Sui Rien numa mensagem intitulada: Deus informa-vos, no livro Testemunhas da Cruz, vol. II págs 125 a 132:
¿Todos vós estais disso informados: PRIMEIRO pela Graça de sua Filha Bem amada, a mãe de Seu Filho a Cheia de Graça, a Toda Pura. SEGUIDAMENTE, Deus continua a servir-Se de Almas Portadoras de Suas Mensagens, como os Antigos receberam a Mensagem da Chegada do Messias, o filho de Deus Altíssimo, à vossa Terra: o Seu Nascimento terrestre. As Almas escolhidas do Pai têm, também elas, a Missão de informar o Povo de Deus a respeito daquilo que Deus VOS prepara para receber BREVEMENTE: A VINDA DE Seu Cristo em Glória¿.

Como as noticias num jornal

¿Deus informa-vos tal como se escrevem as noticias num Jornal, Deus escreve NAS vossas Almas o que o Povo de Deus deve aprender sobre o que deve acontecer brevemente. JESUS é o REI dos Reis e o SENHOR dos Senhores. É o Filho do Altíssimo, o Salvador Legítimo, a quem Deus Pai deu TODOS os Poderes, tanto no Céu como na Terra. Deste modo, Deus pede que se anuncie ao mundo a Próxima Vinda em Glória de JESUS de Nazaré, Senhor e Rei do Céu e da Terra e de todo o Universo Visível e Invisível. JESUS VEM de novo para cumprir o que, desde todos os Tempos, os Profetas antigos e MARIA Mãe de Deus e Rainha dos Apóstolos anunciaram¿:

¿O Céu e a Terra estão cheios da Glória de Deus¿.

¿O PAI vai entronizar o FILHO nesta Terra que Jesus conquistou por tão alto preço e que Lhe pertence desde a Fundação do MUNDO. Ele é Rei e Senhor, sentado no céu, à Direita do Pai. É Justo que Se sente no Trono que Deus Pai lhe reservou dede a Origem dos Tempos, para reinar como Mestre de Amor sobre todo o Mundo Visível que a Ele regressa¿.
CONCEDO a Meus Servidores a AUTORIZAÇÃO de anunciar isto mesmo ¿sem lhe conhecer nem o Dia nem a Hora¿, pois também isto deverá ser escondido. O Deus de vossos pais instrui pouco a pouco, a afim de não deixar NINGUÉM na IGNORÂNCIA do que deverá chegar ¿NA AURORA DE AMANHÿ.
É grande DOM de Deus que vos irá chegar. Uma PURIFICAÇÃO das mais oportunas de todos os Tempos, pois é NECESSÁRIO receber o REI dos Reis numa Terra PURA não manchada por todos os pecado dos de todos os séculos que separam o Mundo em dois, desde a Origem dos Tempos.
Por isso a Purificação reunirá as duas extremidades desse círculo que se despedaçou, que foi aberto pela LOUCURA destruidora dos Homens, LOUCURA dos costumes, LOUCURA de desobediência a Deus... que continua COMO UMA CHAGA incurável.
Eu venho reunir o que foi separado no decurso dos séculos: o Amor das Criaturas de Deus como o Amor Imenso, Infinito, Inesgotável de Deus Criador, Redentor e Consolador, em toda a Sua Majestade.
Concederei Graças inumeráveis aos que seguiram os Meus Mandamentos e derem a importância necessária ao seu cumprimento. Um Lugar Santo e Abençoado pela Mão do Pai NÃO PODE receber SENÃO Seres cheios de Amor e da Santidade de Deus. POR ISSO Deus limpará ¿o Ar em que se malhar a Semente¿.
e a própria Semente¿.

Purificação por atos de amor gratuitos

Na seqüência Jesus fala que toda a Terra deverá ser santificada e que todos vão receber a benção de Deus Tres Vezes Santo e que isso vai acontecer nas nossas almas limpas de todas as manchas. E que Deus vai purificar, santificar, recompensar todos os justos que já chegaram a esta santificação.
¿Jesus pede-vos já que vos purifiqueis por atos de Amor gratuitos, necessários na vida cotidiana: Amar os outros até o limite das forças. Deus deu a SUA VIDA por Amor de vós.¿
E mais adiante: ¿Deus serve-se de todas as Suas Almas oferecidas a este Tempo TÃO DURO sobretudo a favor daqueles que rejeitam o Amor de Deus. Deus ama-vos a TODOS e o Pecador continua a ser AQUELE que faz TANTA pena a Seu Sagrado Coração: é o objeto de Sua tristeza e a Chaga do Seu Sagrado Coração ESCANCARA-SE para lhe perdoar: ¿Ó Homem, que passas ao lado do teu Deus, sem sequer sentires a Sua Tristeza, virás agora lançar-te nos Meus braços inteiramente abertos, a fim de receberes o Meu PERDÃO?¿



Comentários

Segunda-feira, Dezembro 20, 2004

 
Ensaio/ Reportagem

I love Rio ou
Ai de ti Copacabana


Ana Lúcia Vasconcelos

Eu estava lendo Para Sair do Século XX, do Edgar Morin, filosofo francês, ex-militante do Partido Comunista Francês, ex-combatente da Resistência Francesa e ferrenho contestador do estalinismo, intelectual lúcido e vivendo na época, acredito que continue, em Paris onde nasceu em 1921 onde era (também na ocasião) diretor do Centre National de la Recherche Scientifique, para escrever uma matéria sobre o livro, quando, no final da noite de segunda feira de um dia de 1994, vi o programa Roda Viva da TV Cultura-infelizmente não consegui a informação sobre o dia exato porque a emissora não fornece este tipo de informação por telefone e via email eles não respondem.


Edgar Morin jovem


Fiquei estarrecida com o que ocorreu ali e decidi escrever sobre o Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, cheia de encantos mil, coração do meu Brasil e sobre - na época a atualíssima, intervenção do Exército, não exatamente para ajudar a policia carioca na luta contra o crime organizado, mas para tirá-la de cena, já que contaminada, amalgamada, cúmplice dos criminosos.
Este era o tema da entrevista com o cientista político Hélio Jaguaribe militante das esquerdas mais esclarecidas brasileiras, filho de pais exilados pela ditadura Vargas e, portanto com experiência de luta política na família desde os cinco anos, quando os pais foram para o exterior. Carioca Jaguaribe viveu 14 anos fora do Brasil e cinqüenta no Rio, (até aquela época) autor de vários livros importantes, e um dos mais atuantes intelectuais naqueles anos de chumbo pós 64, de terror e tortura. Na época Hélio Jaguaribe estava na crista da onda da imprensa nacional, patrulhado por seus pares, quase trucidado por ter aceitado um ministério no governo Collor.


Hélio Jaguaribe


Aliás, esta história ele contou, já no final do programa, quando os jornalistas aproveitaram o gancho da pergunta sobre a aceitação de possíveis cargos no governo de Fernando Henrique Cardoso. Jaguaribe disse que não ia aceitar cargos por estar comprometido com uma pesquisa importante que ia realizar nos próximos anos, mais exatamente um estudo crítico sobre a História do Brasil. E sobre o ministério Collor a história foi a seguinte: foi chamado pelo então presidente para ser notificado que as pessoas que ele criticara (em artigos na imprensa carioca) haviam sido retiradas e ele (Jaguaribe) devia auxiliá-lo (Collor) no seu governo.Ele aceitou, mas assim que o barco começou a fazer água, saiu. Ficou arrependido, patrulhou um jornalista? Não, respondeu Jaguaribe, mas deixou registrado, não exatamente na seqüência, que considerava o Brasil ingovernável sem uma reforma do Legislativo.

Ver? veremos...

Voltando a Morin, mais exatamente para o primeiro capítulo deste livro que é um balanço dos últimos 70 anos do século XX e que tem este título: Ver? Veremos... onde ele faz um breve relato de um acontecimento banal de sua vida cotidiana, para provar como podemos ver e não ver, de como nossos olhos, nossa percepção pode nos enganar.
Um dia, atravessando uma rua de Paris, viu um carro pequeno avançar o sinal e atropelar um motociclista que atravessava tranqüilamente o sinal verde. Quando se aproximou para dar testemunho em favor da vítima ficou sabendo que na verdade fora o motoqueiro que avançara o sinal e batera na traseira do carro, chegando a ver o amassado. Ou seja, comprovou um fato conhecido seu e que já demonstrara em obra anterior: o componente alucinatório da percepção que pode ser provocado ou orientado por nossa afetividade, mas pode resultar simultânea ou principalmente das estratégias ou das estruturas de racionalização que utilizamos em toda a percepção.
Por isso ele acredita que ¿o risco da ilusão¿ não provëm apenas das perturbações afetivas ou/ e das estruturas mágicas/arcaicas do espírito humano, mas da racionalidade própria de toda a operação de conhecimento. Isso significa que devemos desconfiar do testemunho dos ¿nossos olhos¿ pois não são eles que vêm, mas é o nosso espírito, por intermédio dos nossos olhos.
Daí Morin dizer que é preciso ser prudente não apenas em relação ao depoimento de outrem, mas daquele que parece mais digno de confiança: o nosso próprio. Por isso ele propõe uma estratégia de conhecimento, onde ¿como sabem os historiadores e policiais, nada tem valor absoluto isoladamente, nem mesmo a mais sincera das percepções¿. E Morin reflete sobre a necessidade de se saber ver e explica como se fazer.




Morin

Para saber ver, ele diz, é preciso saber pensar o que se vê. Saber ver implica, pois, saber pensar, como saber pensar implica saber ver. Mas saber pensar não é alguma coisa que se obtém pela técnica, receita, método. Saber pensar não é só aplicar a lógica e a verificação aos dados da experiência.
É preciso, segundo ele, ¿compreender as regras, os princípios que regem o pensamento e que nos faz organizar o real, isto é selecionar, privilegiar certos dados e eliminar, subalternizar outros. Precisamos adivinhar a que impulsos obscuros, a que necessidades de nosso ser, a que idiossincrasias de nosso espírito obedece ou responde aquilo que consideramos como verdade.¿
Numa palavra, precisamos saber pensar o nosso próprio pensamento. ¿Precisamos pensar-nos ao pensar, conhecer-nos ao conhecer. E essa a exigência fundamental que não é apenas do filósofo profissional e não deve estender-se só aos homens de ciência, mas deve ser a de cada um e de todos.¿

Verdades e mentiras

Muito bem e o que isso tem a ver com a entrevista do Hélio Jaguaribe sobre a intervenção do Exército no Rio de Janeiro, para combater os traficantes que tomaram os morros e mantém a população como reféns, enquanto lhe oferece guloseimas sob a forma de proteção que é afinal opressão, domínio?
Pois pasmem: o Roda Viva de 1994 foi exemplar no sentido de demonstrar o conteúdo alucinatório das percepções das pessoas ali presentes, a ponto do âncora do programa, o jornalista Heródoto Barbeiro, a certa altura perguntar aos jornalistas cariocas que eram maioria ( Eduardo da Silva, coordenador da reportagem da sucursal do jornal O Estado de São Paulo, Ricardo Boechat, editor de O Globo, outro que lamentavelmente não anotei o nome, de O Dia e Luis Weiss, paulistano sem especificação de veículo, se eles estavam falando da mesma cidade.
Ou seja, parece que eles estavam vendo uma cidade diferente da descrita pela mídia em geral e pelo cientista político Hélio Jaguaribe em particular. Aliás, uma das primeiras perguntas do Boechat foi esta: o senhor mora no Rio de Janeiro? A que Jaguaribe respondeu contando aquela historinha que narrei no inicio, ou seja, fora os 14 anos que passou exilado com os pais, ou exilado por ele mesmo, vivia ha exatos cinqüenta anos no Rio.
Digamos que cinqüenta é um bom número para uma pessoa medianamente inteligente saber ¿duas ou tres coisas¿ a respeito de qualquer coisa. Mas no caso especial do entrevistado-pessoa culta, inteligente, civilizada, um intelectual no verdadeiro sentido do termo, engajado com as causas mais justas da Nação, um estudioso das ciências políticas e sociais, com livros publicados e uma vida dedicada ao país, é suficiente para ter idéias claras sobre qualquer coisa, especialmente sobre sua, digamos, cidade natal.
Pois o Eduardo da Silva chegou insinuar se ¿tudo que estava sendo veiculado sobre o Rio de Janeiro não era um pouco coisa da mídia, manobra das elites (elites) porque veja só: o Rio de Janeiro era o único Estado que tinha prendido todos (todos? quais?) os bicheiros que tinha prendido um juiz que tinha detectado fraude nas eleições,etc. Enfim , se esta coisa de crime organizado que se dizia não seria exagero da oposição?Afinal porque só o Rio estava sendo escolhido se havia corrupção em todo o Brasil?
O jornalista de O Dia, na mesma linha dizia que sinceramente ele que também era carioca não sentia isso que o professor Jaguaribe sentia (daí ter perguntado se ele morava no Rio) essa coisa opressiva, com assaltos e coisa e tal, na cidade do Rio de Janeiro que ele que não considerava que lá houvesse ¿crime organizado¿.
Perplexa, não acreditando no que estava acontecendo ouvi o fleumático Jaguaribe responder, dizendo não conhecer uma única pessoa que não tivesse sido assaltada pelo menos uma vez no Rio, e que sua mulher escapara da morte por milagre, já que estivera sob a mira de um revolver durante duas horas na casa dos pais. E quanto à ¿organização¿ do crime no Rio, ele também não acreditava que fosse nos moldes da organização do Exercito, por exemplo, ou da Igreja Católica, pois afinal neste particular os chefões do tráfico se matam com tanta eficiência que não dá para manter uma hierarquia, ou seja, a hierarquia até existe, mas com alta rotatividade dos mandantes.
E a coisa foi nesta linha, à exceção das perguntas dos jornalistas paulistas que tentavam uma reflexão mais profunda sobre a problemática. Os cariocas do começo ao fim do programa insistiam que as coisas não eram bem assim, como se fosse um complô armado pelo resto do país contra o rio e eles como advogados do diabo-aqui o sentido é literal-defendiam sua cidadela com unhas e dentes.
No começo fiquei irritada, mas na seqüência entrei na onda da condescendência do cordial Jaguaribe e viajei no passado me lembrando da minha estadia (morei alguns meses no Rio em 86), quando a cidade ainda era nas palavras do escritor e jornalista carioca Eduardo Novaes ¿um inferno relativo¿ e de como eu quase enlouqueci com a mistificação dos cariocas¿, com o conteúdo alucinatório das suas percepções onde verdades viram mentiras e mentiras, verdade

Inferno ou paraíso?

Até então o Rio para mim, como turista, eram bons hotéis, maravilhoso astral, leveza para contrastar com o peso de São Paulo, praias, Cabo Frio, Búzios, Angra dos Reis, Paraty, enfim era o paraíso. Bem diferente é morar no Rio, trabalhar lá. Começa que ninguém entende como, porque, se troca o Eldorado (São Paulo) por aquele balneário (é assim que os cariocas chamam o Rio). Era isso que os jornalistas da Bloch me perguntavam. Eu dizia apontando para a paisagem deslumbrante que se tem do prédio da Manchete no Flamengo defronte ao mar: para olhar isso aí.


cidade maravilhosa

Eldorado, a palavra, confesso ter lido nos relatos dos viajantes estrangeiros quando se referiam ao Brasil, a terra onde se plantando tudo dá. Aqui eles se referiam a São Paulo, terra onde você tropeça em pepitas de ouro e onde todos são magnatas. Esta, aliás, foi outra palavra que ouví, ressuscitada pelos cariocas. Paulista para carioca é magnata.
Então ficava no ar a pergunta: o que uma magnata paulista está fazendo aqui perdida no Rio de Janeiro? E eu que só queria descansar um pouco da selva de pedra, tinha que ficar justificando. Porque, item dois: a paisagem é deles, o balneário é deles.
O diretor de uma editora de livros de arte quando soube que eu era paulista nem disfarçou, recostou na poltrona do seu gabinete refrigerado, respirou fundo e disse: paulista, eu já confio mais. Em seguida me expôs o plano: eu devia fazer um texto sobre Paraty - como, aliás, todos os redatores que ali estavam-de graça, tipo teste, porque eles pretendiam lançar um livro de arte sobre a bela cidadezinha colonial. Certo? Um teste de redação para pessoas de experiência de mais de vinte anos de jornalismo e centenas de matérias publicadas até internacionalmente. Enquanto eu me levantava da poltrona pensava: é carioca, não confio nada, com as devidas desculpas aos cariocas que não tem exatamente este perfil.
Mas iso era apenas o começo da quebra da imagem paradisíaca que eu tinha do Rio. Fiquei muito abalada com a miséria que grassa naquelas bandas, especialmente em Copacabana e adjacências que era onde eu estava morando. E o mais terrível é que a miséria convivendo com o luxo mais acintoso dos hotéis e prédios e lojas, etc. É a democracia brasileira. Mas fiquei especialmente tocada com um rapaz negro que andava com uma turma de homens feitos que viviam bêbados dia e noite. Na seqüência praticamente adotei o menino (ele tinha 19, mas um leve retardo o que devia dar uma idade mental de 14) dando comida, dinheiro, ele tinha uma ferida na perna, e vivia com uma faixa. Cheguei a levá-lo a um hospital para fazer curativo até que resolvi fazer uma coisa mais definitiva e liguei para a família dele (não acreditava que ele tivesse uma) que veio buscá-lo de carro. Pasmem, os primos, com quem ele morava, tinham uma joalheria de objetos de prata no morro não sei das quantas, já não me lembro apesar de ter ido visitá-lo conforme prometera.
Vocês sabem o que é subir um morro carioca naquele calor infernal: é o calvário. No Rio você não desce aos infernos, você sobe. Mas o eu quero contar é o seguinte: a avó do garoto-Marcelo-perguntou lá pelas tantas se nós-eu branca, magnata paulista, 42, ele negro, com 19, mas idade mental de 14, eu morando em Copacabana, bem vestida, com dois perfumes franceses - inventei isso no Rio para suportar o cheiro das calçadas, ele vestido de molambos, (caído na sarjeta) nos tínhamos conhecido na praia.
Sabe que apesar do problema mental o garoto olhou para a avó com uma cara de ¿meu Deus o que eu tenho que suportar¿, e eu pensei: na praia? Bom se você quiser foi na praia de Copacabana-eu na calçada e ele na sarjeta.Ai de ti Copacabana, ai de ti Rio de Janeiro, ai de nós Brasil com este contingente de negros, outra cultura, convivendo com brancos inteligentes e cultos ou ignorantes e canalhas e/ou inteligentes e canalhas, negros ignorantes ou cultos idem, ou ignorantes, mas maravilhosamente afetivos, vivendo alucinados (será o sol na cabeça?), seria preciso um estudo sério sobre essa miscigenação para entender o que se passa.
Só para resumir (a história é longa) o problema do garoto era mais embaixo-fora bem sucedido - daí a classe na sarjeta-mas a mammy o rejeitava (vi com meus próprios olhos) e o papy era viciado em drogas (que droga, hein!). Só restava o auto exílio nas sarjetas de Copacabana, um inferno relativo. Ou seja, uma ovelha branca no meio das ovelhas negras, mas todo mundo dizendo o contrário.


Continua abaixo...

Comentários

 
Não vi e não gostei

E finalmente vou encerrar (tem muito mais) com o último episódio desta matéria que se poderia chamar: Subsídios para se entender a alma carioca. Fiz uma matéria para a revista Manchete, sobre a ópera O Navio Fantasma, de Richard Wagner dirigida pelo Gerald Thomas com elenco internacional que foi um refresco no meio de tanta loucura. Depois de várias peripécias - o fotógrafo não foi no dia marcado para a imprensa fotografar (que o Gerald também não é fácil, aliás, acho que tem razão porque senão fica uma balbúrdia com fotógrafos invadindo a cena e atrapalhando o ensaio, etc) do chefe de reportagem (numa crise alucinatória) ter cogitado de um possível romance entre eu e o protagonista da ópera (o maravilhoso barítono Carmo Barbosa) digamos, se fosse ele não tinha nada com isso, mas não era, eu estava just fazendo uma matéria e ele estava confundindo alhos com bugalhos, a minha matéria, séria, não foi publicada.
Em seu lugar saiu uma debochada, bem ao gosto dos cariocas com este título: Senta que o Gerald é manso. Para quem não sabe, Senta é o nome da protagonista feminino da ópera. E a minha cara com o elenco, com o Gerald, comigo mesma no espelho?Sentiram o drama? Mas o pior foi o título da matéria (uma das) que saiu no jornal O Dia, aquele cujo editor agora no Roda Viva dissera que ¿as coisas no Rio não eram bem assim (essa violência, este crime organizado, alguém viu isso por aí?): Não vi e não gostei. Digamos, parafraseando De Gaulle: não é um jornalismo sério¿.
Ouví gente repetindo a frase nos elevadores, porque de fato o Rio é uma província, um balneário como eles dizem, e aqui não falo como pejorativo apenas constatando o fato, todo mundo fica sabendo de tudo na mesma hora. Assim, quando saí do Rio, de volta para São Paulo, sem olhar o mar, estava com uma conjuntivite que não cedia apesar dos remédios. Na verdade, até uma criança de cinco anos sabe disso, era apenas a minha vontade de não ver mais aquela loucura, aquela mistificação, aquela miséria do Rio de Janeiro, ao lado da riqueza, e da beleza indescritível da cidade,
Mas foi sair do estado, entrar em São Paulo e a conjuntivite milagrosamente desapareceu. Caí doente tres dias delirando sem febre. Foi o balanço trágico a minha estadia na cidade, na maravilhosa São Sebastião do Rio de Janeiro, aquela que nos seduz. Não queria por um bom tempo, ver o Rio pintado de ouro, numa gravura na parede.
Mas olha como é a vida: em maio de 92 tive que voltar lá para fazer uma entrevista com o Leandro Konder, filósofo e professor de filosofia da educação de duas universidades cariocas, especialista em marxismo, para minha tese de mestrado. Preparei-me durante dois meses para voltar ao Rio. Finalmente comprei e fui. Já na Rodoviária de Mogi Mirim, onde morava na época, encontrei uma jornalista da sucursal carioca da Veja e fomos juntas já enturmadas. Detalhe importante: morando há cinco anos em Mogi Mirim nunca encontrara um ou uma jornalista na Rodoviária, nem mesmo colegas da cidade, quanto menos uma que trabalhava no Rio. Lá, ela me fez esperar com ela, carona do namorado, contatado pelo celular. E eu estava novamente naquele Rio com pessoas afáveis, maravilhosas, amigas, e aquela antiga sensação de leveza e solidariedade dos cariocas. Eles me deixaram na porta do prédio onde eu fiquei hospedada.
No dia seguinte, desci para tomar café e entrei ao acaso no primeiro café que encontrei. Estava novamente em Copacabana e com vontade de curtir o Rio como nos velhos tempos. Dois minutos depois eu estava conversando com a moça que tomava café ao meu lado, amiga do português, dono do bar. Ela era gerente de um restaurante que ficava ali perto, onde fui almoçar depois.Enfim, foram tres dias maravilhosos, era o Rio que eu amava, com pessoas solidárias, afetivas, comunicativas, como só la eu vi. No dia em que fui embora, desta vez querendo ficar-parada no semáforo da avenida Nossa Senhora de Copacabana esperando o táxi, ou aqueles famosos ônibus cariocas com ar condicionado, para ir para a Rodoviária, não me lembro, enquanto fazia o movimento de colocar a mala no chão para esperar o sinal verde, ouví uma voz de mulher me dizer: adorei suas unhas.


Fernando Pessoa


Nesta fração de segundos, em que endireitei o corpo, o que fiz olhando para as minhas unhas que diga-se estavam realmente bonitas, ¿ a realidade plausível¿ como disse Fernando Pessoa no seu poema A Tabacaria, ¿caiu de repente em cima de mim¿. Imagina-te na multidão, em plena avenida, ser escolhida por alguém que diz que adorou suas unhas. Primeiro quem quer que fosse, não poderia ter visto minhas unhas. Este movimento que durou uma eternidade me deixou chocada, emocionada, reconciliada com o gênero humano. Era Rio puro, era o Brasil dos velhos tempos, que maravilha!
Só então me voltei para olhar, esperando o quê? Era uma voz bonita, forte, esperei ver uma mulher bem vestida, carioca típica, cheia de bijuterias, não sei porque me veio esta imagem. Surpresa: era uma mulher mulata, simpática, pobremente vestida, mas com grande classe. Perguntou se eu era médica (eu estava de azul e branco) porque ela tinha sido enfermeira. Sinceramente não me lembro mais o que ela disse na seqüência porque eu viajei no lance, mas me recordo de algumas frases desconexas, e o sinal abriu. Nos despedimos, ela me desejou boa viagem-a mala não deixava dúvidas-e eu saí do Rio de Janeiro em estado de graça, desta vez olhando o mar.
Vocês podem perguntar: em estado de graça só porque alguém falou com você na rua? Não, porque em várias cidades daqui e do exterior isso me aconteceu e acontece. Apenas no Rio eu tenho a sensação-tinha porque faz tempo que não vou lá-de estar no lugar que tem as pessoas mais comunicativas e simpáticas do mundo. Daí que dá para entender as perturbações de percepção dos jornalistas cariocas, no caso especifico que estou relatando-quando eles insinuam que ¿não era bem aquilo que acontecia lá¿. Acontece que acontecem coisas terríveis ao lado de coisas maravilhosas-é um povo muito aberto o que às vezes dá samba. Merece um estudo sério.
De qualquer forma dá para perceber que o morro é só a ponta do iceberg: a parte submersa que é 90% está na planície e não apenas no Rio, está no Brasil todo, como Medellín é a parte visível do iceberg do narcotráfico boliviano. Enfim a pergunta é: por que o Rio, mais exatamente os morros cariocas foram os escolhidos, ou melhor, por que eles se deixaram escolher?


Pensando, como pede Edgar Morin, eu tenho algumas hipóteses: primeiro o Rio, ao contrário de São Paulo-que tem uma tradição de trabalho-tem uma tradição de lazer e isso por vários motivos. Por ser a cidade maravilhosa-é difícil tirar os olhos dela.Depois por ter sido sede, desde os seus inícios do governo federal-primeiro da Corte de Dom João VI, depois capital federal, terra onde grassava fácil a corrupção, os favores, as propinas. Terceiro, é um dos mais famosos balneários do mundo, com turismo internacional correndo o ano todo, com gente em trânsito, em viagem e você sabe como é estar em trânsito? É estar descompromissado, é estar desligado da realidade, é estar curtindo uma, é estar em transe. Daí as perturbações de percepção dos cariocas e a impressão ¿que as coisas não são bem assim¿. A abertura do Rio é o seu calcanhar de Aquiles, seu ponto fraco, a brecha por onde entram todas as coisas-boas e ruins.
Mas aguardemos os próximos capítulos da novela. Enquanto isso fico com a frase, citada por Edgar Morin sobre esta problemática toda de saber ver e saber pensar o que se vê de Ortega y Gasset: ¿No sabemos lo que nos pasa, y eso es lo que pasa¿.

Comentários

 
Psicanálise Integral

Estar em contato com a vida em nosso interior
eis o principio da sanidade


Joseph Ghougassian

Neste artigo Joseph Ghougassian, professor de Psicologia da Universidade de San Diego, (USA), analisa a obra de Norberto Keppe psicanalista e fundador da Sociedade Internacional de Trilogia Analítica (leia mais sobre o assunto em artigo na seqüência) e autor de diversos livros como: A Libertação; A Nova Física da Metafísica Desinvertida; Metafísica I-A Libertação do Ser; Metafísica II-Fenômenos Sensoriais Transcendentais; Metafísica III-Cura Através das Forças Energéticas; A Libertação da Vontade (A Libertação do Livre Arbítrio); A Libertação pelo Conhecimento (A Idade da Razão); Sociopatologia (Bases para a Civilização do 3o. Milênio);Trabalho & Capital;A Libertação dos Povos- A Patologia do Poder; A Decadência do Povo Americano ( e dos EUA);O Reino do Homem -Volumes 1 e 2; Contemplação e Ação; A Glorificação;Trilogia; A Consciência; Auto Sentimento ; Psicanálise da Sociedade entre outros.

Em minhas prerrogativas como fundador e primeiro presidente do Congresso Mundial de Logoterapia que teve lugar em San Diego, Califórnia em novembro de l980, convidei o Doutor Keppe para apresentar seus pensamentos para os congressistas.Desde então Keppe tem vindo várias vezes aos Estados Unidos e feito inúmeras conferencias nas universidades americanas. É muito difícil fazer justiça a um pensador de grande peso em um simples artigo considerando a profundidade, complexidade e vastidão dos pensamentos do autor. Ainda assim, é igualmente uma honra apresentar as idéias de um respeitado e genuíno colaborador do tesouro intelectual da civilização.A tarefa é um desafio.


A busca da própria identidade


As bases do pensamento de Keppe estão dispostas em tres ordens: filosófica, religiosa e científica. De certa maneira, essas tres dimensões do pensamento podem ser citadas para descrever a "Weltanschauung" de Keppe, isto é, sua visão de mundo.Como filósofo Keppe está definitivamente dentro da tradição socrática.Como Sócrates, Keppe acha que o começo da atividade filosófica consiste nessa citação: Conhece-te a ti mesmo, ou seja, a busca pela própria identidade. No entanto essa identidade não é algo exterior, estranho ou transcendente ao âmago do Eu. Imanência e interiorização são as características do individuo e a base da transcendência.

Se a filosofia de Keppe fosse classificada dentro de um período histórico, tendo-se em mente que essa classificação é limitada, eu iria compará-la a Aristóteles. Por exemplo, a teoria de Keppe sobre o conhecimento coincide com a de Aristóteles, que considera que o processo intelectual começa nos sentidos, com a percepção, e finalmente vai para a razão, onde encontra a vontade.


Aristóteles e Platão

Novamente Keppe chama o interior uma PSIQUÊ como Aristóteles. A teoria da psique denota a metafísica da alma, como uma doadora da vida ou agente animador. Alma no contexto de Keppe designa a força motriz que suporta a própria vida. Além disso, Keppe vê a psique do homem como um microcosmo e subscreve a teoria de Santo Tomás de Aquino, onde anima humana est quodammodo omnia-a alma humana é uma réplica do Universo em suas formas e vida, ainda que em miniatura.

Keppe dá um lugar proeminente à religião na vida do Homem. Religião não tem uma origem "cultural". O homem é em seu íntimo, uma criatura "religiosa". Se há várias cerimônias litúrgicas praticadas no mundo, isto é possível porque, em primeiro lugar, a religião é uma dimensão metafísica da realidade humana. Conseqüentemente existe uma maneira primordial de adoração, natural para a alma. Orar, reverenciar e arrepender-se são impulsos naturais. Assim Keppe escreve: "Religião é algo inerente ao ser humano, não algo social".

É um desfavor negar ao paciente o direito de trazer suas experiências religiosas no consultório do psicoterapeuta. Freud não teve sensibilidade quando ridicularizou a religião, considerando-a uma fonte da neurose. Ainda assim, nós somos uma civilização que foi construída na presença de Deus e nos seus preceitos.Nesse aspecto, o sentimento religioso de Keppe caminha lado a lado com a análise do mundialmente renomado psicólogo de Harvard, Gordon W. Allport, sobre as crenças religiosas.
Como um cientista que tem pesquisado o âmago da personalidade humana, Keppe tem uma personalidade sensível do mundo em todos os aspectos.


Boa, bonita e verdadeira


Para se compreender melhor a ciência de Keppe é bom analisá-la nas suas tres formas: l. Ele desenvolve uma visão científica do homem como uma entidade saudável e madura. Seguindo sua crença de que a existência humana é basicamente Boa, Bonita e Verdadeira, a antropologia cientifica de Keppe é otimista e positiva, diferentemente da psicanálise freudiana, que descreve a realidade humana em previsões derrotistas.

Freud nunca nos definiu essa realidade objetiva, nem nunca propôs algum modelo para sua realização.Em contraste, Keppe vê a realidade humana como genuinamente BOA VERDADEIRA e BONITA em sua essência. Imaturidade ou problemas de conduta ocorrem quando um individuo se desvia do seu interior, e começa a procurar a si mesmo externamente, em uma realidade diferente dela própria. Acredito que Keppe deve sua visão sobre a bondade humana , à influencia intelectual de Santo Tomás de Aquino.
O professor Keppe desenvolveu uma impressionante e cientifica explanação da etiologia das disfunções comportamentais. Novamente segundo a metafísica de Aquino, onde ens est verum, significando que a realidade, a realidade humana é verdadeira e a verdade é a realidade-veritas est quid est, Keppe desenvolve sua teoria sobre a patologia em termos de: 1. negação 2. omissão ou 3. deturpação da verdade e da realidade .Assim, ele escreve: "Doença é uma atitude de ataque à vida, é uma luta contra a realidade, é o desejo de acabar com toda a verdade. A doença psíquica orgânica é sempre conseqüência de uma oposição ao que é real".

Desta maneira, a sanidade consiste em estar em contato com a vida em nosso interior, e a doença surge quando a pessoa procura a razão de sua vida e de si mesmo no mundo dos objetos ou dos outros. Keppe afirma que a negação da sanidade causa ansiedade e sentimento de impotência, porque o individuo imerge num mundo que se revela como uma massa de força colossal, poderosa o bastante para aniquilá-lo.

A doença nos leva ao anonimato, um número na multidão, porque justamente é o resultado de um desejo consciente de negar omitir ou deturpar a verdade/realidade, id quid est-aquilo que é. A verdade/realidade é bondade, beleza, verdade da realidade humana, magnificente porque feita à imagem do seu Criador, Deus, o Onipotente e Perfeito Designer.

Semelhante ao filosofo existencialista Gabriel Marcel e ao fundador da Logoterapia, o vienense, Viktor E. Frankl, Keppe afirma que o homem contemporâneo sofre de uma enorme obsessão com o antropocentrismo e a teomania, que é o desejo de ser deus. Na verdade, esta é a posição intelectual de muitos seguidores da Escola do Estruturalismo. Por exemplo, Michel Foucault, indo um passo além da declaração da morte de Deus de Nietzche, declarou a morte do homem. Em resumo, Keppe reafirma sua crença no teocentrismo e na bondade do homem.

Para lidar com os problemas mentais e emocionais que atormentam o homem moderno, Keppe desenvolveu várias técnicas psicoterapêuticas. Suas idéias e técnicas preventivas são conhecidas como Psicanálise Integral. Ele assim a denominou para chamar atenção para o fato de que, mesmo tendo utilizado alguns conceitos da psicanálise tradicional, complementou as teorias técnicas de Freud com outras, inovadoras. As técnicas psicanalíticas de Freud são, até certo ponto, inadequadas para responder às necessidades do homem moderno, e não são consoantes com a nova e emergente imagem do Homem. As circunstancias históricas mudaram desde Freud. Assim, na base do mal estar do homem e da sua inabilidade para se ajustar à Realidade Verdadeira, está contraposta a emoção da INVEJA.

Keppe está em total acordo com Schopenhauer de que a origo et fons, ou seja a base da infelicidade, manifestada em forma de neurose, é a VONTADE. Há um sentimento insaciado no homem, causado pelo desejo insatisfeito e invejoso de tornar-se Deus. Mas isto é impossível. O homem é finito e Deus é infinito e perfeito. Será possível que Nietzche seja o responsável pelo mal -estar que perturba nossa civilização? Querer tornar-se Deus causa uma reação em cadeia de desintegração da personalidade: o individuo perde o contato com seu próprio interior e se torna alienado. A alienação psicológica aparece em tres formas: total/parcial negação da realidade e do interior, total/ parcial omissão e deturpação.


A verdade vem da boca
do paciente: é a dialética real



Para curar o paciente, Keppe tem o mérito de ter desenvolvido a técnica terapêutica da Análise Dialética, por vezes referida como Dialética Real. Basicamente o médico, no estilo de Sócrates, trava um diálogo dialético com o paciente, e através do questionamento socrático solicita respostas que estão contidas no inconsciente do paciente, mas que são, entretanto conscientemente negadas, omitidas e/ou deturpadas. A verdade finalmente vem da boca do paciente. Nesse aspecto o método de Keppe da relação médico-paciente é antifreudiana, pois não é autoritária.

Da mesma forma, seu método difere consideravelmente da terapia centrada no paciente de Carl Rogers e dos psicólogos humanistas. Ao contrário dessa abordagem, que consiste em conversar casualmente com o paciente para sentir seus antecedentes e seu contexto, Keppe, baseado em sua visão sobre as raízes da má adaptação comportamental, trava um diálogo socrático por meio do qual o paciente é levado a refletir sobre sua conduta e descobrir a verdade sobre suas disfunções.
Keppe chama esta técnica de INTERIORIZAÇÃO. Enquanto aceita a forma do diálogo socrático que acreditava ser a vida na Terra, uma sombra de um outro mundo, vivendo, portanto o homem em uma fantasia, Keppe chama de INVERSÃO e falsa dialética.
Para levar o paciente a efetuar a interiorização, através da conscientização da falsa dialética (ou dialética platônica) que ele usa, Keppe trabalha com a inversão do paciente. Por exemplo, o médico requer do paciente que reflita, isto é, que interiorize sobre a idéia de que há um grande valor na fantasia que é causa do seu estado de sofrimento mental e emocional e um grande valor negativo na realidade.

A reflexão leva definitivamente o paciente a perceber a ironia da situação e de sua livre e espontânea vontade, ele irá preferir a realidade à fantasia. A realidade nesse estágio vai apresentar-se com o relacionamento com o Criador. Santo Agostinho estava correto quando exclamou: fecisti nos at et cor nostrum inquietum requiestat inte, - "tu nos fizeste a Tua Imagem e nossos corações serão infelizes até que repousemos em Ti."

Um dos méritos da terapia psicanalítica do Professor Keppe é reconhecer os méritos, benefícios e conquistas da sabedoria religiosa. Muito antes que psiquiatras, psicólogos e terapeutas viessem à civilização, a religião estava curando a angústia emocional e mental das pessoas.

Eu dou as boas vindas às renovadoras opiniões do professor Keppe, e não tenho dúvidas que os psicólogos e filósofos americanos vão mergulhar em sua riquesa de percepção e sabedoria.

Comentários

 
Memória/Literatura



Alceu Amoroso Lima: o Tristão de Athayde
Um otimista incurável

(parte 1)

Entrevista inédita obtida do pensador, um dos grandes humanistas
que o Brasil produziu - considerado um dos brasileiros do século
em recente pesquisa realizada pela Revista Isto é - um ano antes da sua morte


Ana Lúcia Vasconcelos

Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, pseudônimo que adotou a certa altura de sua carreira de critico para justamente resguardar sua independência, um dos mais brilhantes humanistas que o Brasil já produziu, nasceu no Rio de Janeiro, em Petrópolis no dia 11 de dezembro de 1898. Em 1913 terminou o Curso de Direito e em 1919 começou sua vida de crítico literário em O Jornal onde ficou até 1945. Quando se converteu ao catolicismo e entrou para uma "arena mais participante da vida, não exclusivamente literária", pensou em abandonar o pseudônimo, mas sentia-se de tal forma solidário com o Tristão que se conformou em ter dois nomes, que, aliás, ele mesmo dizia, "nunca conflitaram um com o outro".

Escreveu dezenas de livros, alguns traduzidos para outros idiomas como o francês e o espanhol,tendo ainda traduzido importantes livros politico-religiosos como Noite de Agonia em França, Cristianismo e Democracia, O Homem e o Estado, os tres de Jacques Maritain, O Cristo de George Guyau e O Cura D' Ars de Henry Ghèon.

Entre as inúmeras atividades que exerceu durante sua vida-morreu em 14 de agosto de 1983, foi diretor da revista A Época, adido ao Ministério das Relações Exteriores, presidente da Cia de Fiação de Tecidos Cometa, crítico de vários jornais entre eles a Folha de São Paulo, jornal para o qual ainda colaborava, à época desta entrevista, presidente do Centro Dom Vital, diretor da revista A Ordem , presidente da Junta Nacional de Ação Católica Brasileira, membro do Conselho Nacional de Educação, membro da Academia Brasileira de Letras , presidente da Associação de Educação Familiar e Social, professor da Escola de Serviço Social dessa Associação e professor de Sociologia da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro onde foi reitor.


Com o fardão da Academia

Lecionou ainda Literatura na Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil e na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, co-fundador em Montevidéu, do Movimento Democrata Cristão na América Latina. Lecionou na Universidade de Paris (Sorbonne), foi diretor de Departamento da União Pan Americana (Washington) tendo realizado conferencias em várias universidades católicas americanas. Recebeu em 1953 o titulo de doutor Honoris Causa pela Universidade Católica de Washington e o Sierra Awards, prêmio anual conferido pela Franciscan Academy of American History.

Foi delegado do Brasil, na X Conferencia Comemorativa do Segundo Centenário da Universidade de Columbia tendo ministrado curso de Civilização Brasileira na Universidade de Nova York. Em 67 foi nomeado pelo papa Paulo VI, membro da Comissão Pontifícia Justiça e Paz, com sede em Roma tendo ainda sido Membro Associado Estrangeiro da Academia de Ciências Morais e Políticas do Instituto de França em Paris.

Em 1969 juntamente com dois outros jornalistas da América Latina e dois dos Estados Unidos, foi distinguido com o Mary Moors Cabot, o mais antigo dos prêmios de jornalismo internacional conferido aos profissionais de imprensa que se salientaram por sua contribuição a comprensão continental. Comendador da Legião de Honra (França) Alceu Amoroso Lima foi ainda distinguido com a Ordem de Santiago (Portugal) e a Ordem de São Gregório (Santa Sé).

Casou-se com Maria Tereza de Faria com quem teve sete filhos: Maria Helena, Lia (hoje irmã Maria Tereza O.S.B.), Alceu, Luis Alceu, Jorge Alceu, Silvia e Paulo Alceu . Teve netos e bisnetos. Colaborou no Jornal do Brasil e Folha de São Paulo. Autor de vasta obra começou a publicar em 1922: Afonso Arinos, biografia do autor dos famosos contos regionalistas Pelo Sertão.

No mesmo ano Alceu lançou um livro que classificou de "a crítica expressionista" para marcar reação contra, ou pelo menos uma superação da crítica meramente impressionista então dominante. Sua simpatia pelo Movimento Modernista de 1922 não vai vinculá-lo a nenhum dos grupos que logo se digladiaram, principalmente a partir da famosa conferencia de Graça Aranha em 1924 na Academia Brasileira de Letras.

Mantendo-se fora de qualquer capelinha literária procurou ressaltar a autonomia do fenômeno literário e a primazia do valor individual sobre qualquer dogmatismo ou antidogmatismo de escola ou de grupo.

Em 27 publica o 1o. volume de estudos contendo críticas de O Jornal em cinco séries, e em 28 lança o primeiro volume de Estudos Literários Em 29 publica Tentativa de Itinerário de Pio VI a Pio XI e Freud. Em 30 publica sua tese: Esboço de Uma Introdução à Economia Moderna.

Em 1931 vem à luz Preparação à Sociologia e Debates Pedagógicos. Em 1933 publica os livros Política; Contra Revolução Espiritual; Problema da Burguesia; Economia Pré-Politica e As Repercussões do Catolicismo. Em 33 lança Pela Reforma Social e Introdução ao Direito Moderno. Em 35 sai Da Tribuna e Da Imprensa; No Limiar da Idade Nova e Pela Ação Católica.

Em 36 lança O Espírito e o Mundo e Indicações Políticas. Em 38 publica a obra Elementos de Ação Católica e em 39, Contribuição à História do Modernismo. No ano de 1941 Alceu Amoroso Lima publica Tres Ensaios sobre Machado de Assis e em 42 lança tres livros: Poesia Brasileira Contemporânea, Meditação sobre o Mundo Moderno e Pela União Nacional. Em publica O Cardeal Leme e em 44: Humanismo Pedagógico.

Neste mesmo ano funda com outros a Livraria Agir Editora. E em 45 edita A Voz de Minas e Estética Literária. Em 46 publica O Critico Literário e em 47: Cristianização da Idade Nova e O Problema do Trabalho. Em 1950 publica Mensagem de Roma e em 51 o livro Existencialismo e A Europa de Hoje. Em 1954 lança dois livros: A Realidade Americana e Meditação sobre o Mundo Interior. Em 55 publica Pela América do Norte e em 56 mais tres: Introdução à Literatura Brasileira, Quadro Sintético da Literatura; A Vida Sobrenatural e O Mundo Moderno.

Em 64 publica Revolução Reação e Reforma e em 65 lança Pelo Humanismo Ameaçado (1o. volume de 1919 a 1926). Em 67 sai seu Discurso de Posse da Academia de Ciências Morais e Políticas do Instituto de França: L' Influence de La Pensée Française au Brèsil. Em 68 publica A Experiência Reacionária, e em 69 publica Adeus a Disponiblidade e Outros Adeuses; Violência ou Não; Meio Século de Presença Literária; Comentários a Populorum Progressio e Manuel Bandeira.



Em 71 sai Companheiros de Viagem e na seqüência muitos outros. Para saber mais sobre a sua vasta bibliografia, sua vida e legado há dezenas de sites na Google. Mas se voce quiser especificamente ter acesso a suas obras acesse este:

CentroBiblioteca "Alceu Amoroso Lima"

Há ainda o Centro Alceu Amoroso Lima, com sede em Petrópolis (RJ) criado com o objetivo de divulgar a vida e a mensagem de Alceu, que durante toda a sua vida teve um compromisso intenso com a liberdade, a justiça e os valores da pessoa humana, que voce pode conferir neste site:

Alceu Amoroso Lima para a Liberdade
E ainda, para saber detalhes da pesquisa realizada pela Isto É onde Alceu foi escolhido, entre outros, o Brasileiro do Século na área de religião, pode-se acessar este, entre outros.

Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde
ISTOÉ - O Brasileiro do Século

O primeiro encontro de
uma das últimas entrevistas



Esta entrevista realizada pouco depois de sua participação no programa Vox Populi (produzido pela RTC durante anos, uma espécie de embrião do atual Roda Viva) em 1981, foi com certeza uma das últimas que Alceu Amoroso Lima concedeu em sua vida. Vale contar como foi que ela aconteceu e porque permanece inédito até hoje, agosto de 2004. Acontece que Tristão de Athayde estava na minha lista de entrevistados para um livro de perfis de escritores, pensadores, poetas, dramaturgos que projeto publicar a algum tempo (na verdade republicar entrevistas e perfis meus publicados nos vários veículos em que trabalhei, em São Paulo e Campinas).

A chance surgiu quando soube que ele estava na casa de sua filha em Campinas, descansando, se recuperando da morte da mulher. Consegui, depois de vários dias de conversações com a filha, a promessa de duas entrevistas. Em geral faço de duas a tres entrevistas para fazer um perfil, com intervalos entre elas. Assim, me encontrei com Alceu Amoroso Lima pela primeira vez no dia 10 de novembro de 1981 e a nossa conversa (não gravada) durou cerca de hora e meia.

Ele me recebeu na casa de sua filha Silvia Afonso Ferreira, próxima à Hípica de Campinas, no jardim interno. Ficamos sentados num sofá de vime de dois lugares defronte a um imenso gramado, uns chorões ao fundo. A segunda entrevista aconteceu no dia 12 de dezembro do mesmo ano na mesma casa e desta vez gravei a conversa que durou mais de duas horas.

Não consegui articular mais que um terço das perguntas que havia preparado: ele estava com quase 88 anos e queixava-se de estar cansado. Triste ele me disse: "a minha infelicidade agora é ter perdido minha mulher". Mas apesar de tudo confessou-se um otimista incurável e citou a frase de uma mística inglesa com quem ele concordava plenamente: "não me permito deixar de ser otimista. As coisas estão bem sempre, apesar de tudo".


Tristão de Athayde

Acho que de certa forma pressenti sua morte próxima. Interessante notar que a entrevista trata basicamente de sua conversão ao catolicismo. Diga-se que não houve qualquer premeditação de minha parte-apenas foram as primeiras perguntas que formulei, sobre sua vida. E incrível coincidência: sua conversão ocorreu no dia 15 de agosto de 1928 e sua morte exatamente no dia 14 de agosto de 1983. Não sei por que estranhas razões esta entrevista foi sucessivamente recusada por diversos editores de vários jornais e revistas de São Paulo. Agora, 21 anos depois de sua morte, ela finalmente está sendo publicada. Foi uma das mais belas experiências que tive na vida: conversar com este homem maravilhoso, culto, inteligente, que sempre teve um vida privilegiada em termos econômico-financeiros, mas de uma humildade, e de uma simplicidade realmente marcantes.


Suicídio em Veneza?
era a Belle Épòque



Comecei perguntando sobre o seu quase suicídio em Veneza, fato absolutamente estranho-voce leitor que conheceu, por leitura, esta figura maravilhosa, imaginaria o Tristão de Athayde pensando em se matar?- a que ele se referira no programa Vox Populi já citado. (Infelizmente não consegui saber a data exata porque não obtive resposta da TV Cultura sobre isso). Abundante, fértil, se expressando com uma fluidez maravilhosa, Alceu me contou nada menos que sua vida até aquela data, quando uma noite em Veneza teve uma visão da cidade em toda sua duplicidade: metade sombra, metade luz. Aquelas águas paradas, cheias de história-dizem, ele me conta, que ali eram jogados os inimigos do Doge - e ele estava no hotel que fica defronte ao palácio. E de repente a história, a vida tudo pesou nos ombros de Alceu ainda muito jovem, cheio de energia, de cultura, de amor da família, da mãe, das irmãs, do pai (comerciante muitíssimo bem sucedido no Rio de Janeiro) e afinal, ele que tinha tudo, se perguntava sobre o sentido da vida.

E pensou: por que não se atirar na água e morrer? Mas hoje, recordando aquele pensamento louco, sorri e justifica: afinal era a Belle Épòque, havia uma quase moda de suicídio por amor e ele lia muitos romances também. Daí que esta idéia tinha muito de romanesco, de aventura e ele a abandonou rapidamente. Mas deste questionamento profundo surgiu pelo menos uma mudança na sua vida que ele considera fundamental.

Àquela altura estava a ponto de ir para a Alemanha onde estudaria na Universidade de Heildelberg. Era recém formado bacharel em Direito, depois de ter feito o secundário num dos colégios mais rigorosos da época: o Ginásio Nacional, atual Colégio Dom Pedro II. E foi exatamente sua formação demasiado positivista, resultado de duas escolas onde se cultuava acima de tudo a ciência, não a arte, ou as letras, que ocasionou esta dúvida: para que viver?Afinal qual o sentido disso tudo, da vida? E optou não mais por Heildelberg, mas por cursos de Letras na Sorbonne. E rumou para Paris, onde sem saber, veria o rebentar da Primeira Guerra Mundial.


Viu nascer um século
e morrer uma civilização



É preciso explicar que era 1914 e Alceu estava, como fazia todos os anos juntamente com a mãe e as irmãs passando uma temporada na Europa. "Naquele tempo ir para a Europa era um bom negócio. O cruzeiro valia mais que o dólar. Eu digo sempre que vi nascer um século e morrer uma civilização", diz referindo-se a um fato engraçado que ficou para sempre marcado na sua memória. Na virada do século - XIX para o XX, seu pai disse, mostrando um crucifixo: olha, está nascendo um século. E Alceu virou-se ingenuamente para procurar este tal século que seu pai dizia estar nascendo. Afinal a frase soou algo estranha para um menino de cinco anos.

Já o fim de uma época, uma Belle Épòque, que ele viu morrer não foi tão tranqüila e inocente. Até hoje ele guarda frases e pessoas que viu naquela Paris em pânico que fugia da guerra para o interior do país. Mulheres e homens estarrecidos com o que viam. Recordando aquele trágico ano, portanto, de 1914, Alceu Amoroso Lima vê uma semelhança com os dias em que vivemos quando estamos também na iminência de uma Terceira Guerra (olha só o que a gente falava em 81 e ele nem viveu o que estamos vivendo, de fato coisas bem mais terríveis, que fazem aqueles, ficarem até bons tempos) e há segundo ele uma quase euforia no ar, uma irresponsabilidade, as pessoas se referem com absoluta naturalidade às armas mais terrificantes.
Recorda a frase de um jornalista da época que poderia ser dita hoje com total propriedade: "Esta guerra há de ser necessariamente muito rápida, tal é o poder das armas que serão usadas". Nos dias, meses que precederam a guerra, ele conta, que havia uma grande euforia e ele especialmente vivia a felicidade de ter vinte anos e estar apaixonado (namorava uma jovem argentina que como ele, passava as férias em Paris) .E as manchetes mais assustadoras dos jornais parisienses não afetavam os jovens que todas as noites se reuniam para conversar e dançar tango.

"Mesmo depois da mobilização", ele conta, "nós continuávamos a nos divertir. Era como se nada estivesse acontecendo. Até me lembro de uma noite em que a concièrge reclamou das nossas reuniões. Provavelmente tinha algum parente no front e a nossa alegria incomodava".Mas esta alegria não duraria muito. Os acontecimentos se precipitaram e a família Amoroso Lima teve que se mudar rapidamente do hotel onde estava hospedada: o Majestic, que seria depois, na Segunda Guerra Mundial , a sede da Gestapo em Paris.

Alceu seguiu de trem, um dia depois da mãe e das irmãs, em direção a Bordeaux. Com ele, na cabine, iam duas jovens e um senhor, o pai delas. Ao cruzarem um trem de feridos as moças começaram a chorar. Alceu deitado no chão do trem que ia lotado, nunca esqueceu a frase que o senhor articulou pálido: "ce sera comme 1870". Era o fim de uma civilização e o jovem Alceu Amoroso Lima sentia seu impacto na carne. Quem sabe a vontade do suicídio não teria sido uma premonição do que viria?


A conversão lenta


P. - Para começar, gostaria que o senhor contasse como se deu a sua conversão ao catolicismo?
Alceu Amoroso Lima - São Paulo diz que há dois tipos de conversão, para simplificar: a conversão lenta e a conversão violenta. Há uma conversão como a de São Paulo: violenta que passa de uma pessoa que é conscientemente perseguidora do Cristo, negadora de todas as verdades judeu-cristãs e que os gregos chamam de metanoia. E há uma conversão lenta, a transformação de um estilo de vida, de uma concepção, para outro estilo de vida, outra forma de concepção. A minha conversão foi evidentemente lenta. Eu nunca tive uma educação relogiosa muito profunda, a minha família era religiosa, mas de uma religiosidade bastante superficial. Posso dizer que até vinte anos o problema religioso não me interessou. Por isso costumo dividir minha vida em tres etapas: a etapa literária, a etapa de idéias e a etapa de fatos, acontecimentos. A etapa literária vai até os vinte e poucos anos: só a literatura e a estética me interessavam. Aí a Guerra de 14 foi um problema mundial que afetou profundamente a mim e a minha geração de um modo muito radical, porque a gente vivia mesmo a Belle Épòque no sentido de gozar a vida, gozar a vida esteticamente, ideologicamente, filosoficamente, no sentido de preocupação de idéias, não no sentido de ir fundo dos problemas. A guerra provocou realmente uma ruptura. Eu estava em Paris e diante daqueles fatos trágicos, de vida ou de morte, da morte de uma civilização de um país, de uma geração, da minha geração que eu julgava isenta de ter que fazer opções tão dramáticas. Voltei pra o Brasil, fui me ajustando até encontrar uma pessoa que foi o Jackson de Figueiredo, que promoveu a minha conversão. Neste sentido a verdade contida na essência do cristianismo de que a Verdade é uma pessoa: Eu sou o Caminho, a Verdade, a Vida, diz o Cristo, ou seja, este sentido personalista de que há na Terra alguém que representa o Caminho e a Verdade na sua integridade, para mim começou a se apresentar.


Precisamos nos abrir
para a hora da graça



P. - E como o senhor conheceu o Jackson de Figueiredo, enfim, eram amigos? Conte tudo.
Alceu - Ele chegou no Rio em 1918 precisamente com este fato: a guerra. O mundo tinha passado por quatro anos em que havia ocorrido uma transformação e a cada dia se revelavam para nós brasileiros duas coisas: de um lado a necessidade de encarar a morte como sendo um elemento capital da vida. E de outro a urgência de olhar o nosso tempo, o nosso país. O problema universal de atender ou não o apelo de Deus, de saber de Deus e da verdade, e por outro lado a Pátria. E Jackson de Figueiredo de certo modo representava tudo, por que ele foi nacionalista integrado, violento e ao mesmo tempo convertido igualmente violento. Ele era de tal modo anarquista, rebelde que, quando menino, os seminaristas não podiam passar em frente da sua casa em Aracajú que ele atirava pedras, fazia o diabo. Ele era terrível. Então, sendo essa pessoa que representava para mim realmente como que a encarnação da transmissão da graça de Deus, porque só se converte pela graça de Deus-não é uma formação individual. Este é realmente o grande mistério: a graça é gratuita, ela vem ou não vem e a gente não pode se queixar. Agora é preciso fazer um estudo para nos abrirmos para a hora da graça, que ninguém sabe quando é. Não sabemos a hora da morte, a hora de Deus, nem a hora da graça. A hora de Deus é aquela em que os fenômenos da nossa ação se equivalem com a Providencia Divina. A hora da graça é aquela em que o nosso eu, nossa disponibilidade se coloca abertamente para o olhar de Deus, para o apelo de Deus...

Continua abaixo...

Comentários

 
Memória/Literatura



Alceu Amoroso Lima: o Tristão de Athayde
Um otimista incurável

(parte 2 - final)

Ana Lúcia Vasconcelos

P. - Foi então que o senhor se encontrou com o Jackson...
Alceu - Pois é, aí me encontrei diante deste rapaz, deste Jackson, recém chegado ao Rio e parece que tinha um pouco a influencia de um filósofo espiritualista: Farias de Brito, quer era seu concunhado. Imediatamente nós divergimos: ele era um autoritário e eu um liberal. Ele começou a me atacar através de artigos, ele antimodernista, eu modernista. Ele pela autoridade, eu pela liberdade, eu defendendo e ele atacando o João Ribeiro que era um grande humanista sergipano. Depois de vários ataques pelos jornais, um dia ele me escreveu uma carta que eu respondi. Na segunda carta nós verificamos o seguinte: vamos deixar a política de lado e passar a discutir coisas mais sérias, vamos ao cerne dos problemas. Então, durante cinco anos, de 24 a 28 trocamos cartas-as deles estão publicadas com atenuações, porque ele era muito violento. E ele tem um livro sobre este problema religioso que, mesmo as pessoas não religiosas deveriam ler porque é um livro patético. Ele expõe a sua visão, dos fins últimos do homem e que é uma visão de uma pessoa que passa do anarquismo para o cristianismo. Então tivemos este longo debate: eu dizendo que achava que a verdade estava justamente no máximo, na procura da verdade. E ele, defendendo a existência de uma verdade e a nossa incapacidade de penetrar nesta verdade e então esgotando os limites da razão, para nos entregarmos voluntariamente à revelação da fé.

P. - E qual foi a campainha de disparo para esta mudança de visão de mundo?
Alceu - Em primeiro lugar havia este fato: eu ter visto como se operou a mudança numa pessoa da minha geração. E ao mesmo tempo, eu vinha sentindo um esgotamento da razão. Sentia que a razão não esgotava a lógica, a matemática, muito menos a quantidade, muito menos a pura evolução dos acontecimentos. Então eu senti que havia dentro de mim uma descrença na razão. Tanto que passei um período que me interessei enormemente pela loucura, considerei a loucura um caminho para se chegar ao conhecimento da verdade. E reuni uma biblioteca inteira sobre a loucura e sobre os povos primitivos, os índios. Escrevi até um livro sobre isso: uma tese A Economia Pré-Politica. Então esta decepção com a razão me preparou de certa forma para esgotar os caminhos lógicos para articular a verdade, para aceitar a existência do mistério. Através da sombra da razão chegar à luz da fé. Através da complicação da inteligência, chegar à simplicidade da humildade, à sabedoria do povo que intui a verdade. Então foi o encontro do homem que tinha passado pela experiência da metanoia, a transmutação violenta. Eu, de temperamento completamente diverso, um temperamento puramente estético, calmo, com horror à violência, educado na ironia francesa, no ceticismo e que um dia, me senti capaz de aceitar com humildade uma revelação como sendo a luz que vem no fim do túnel. Foi então que no dia 15 de agosto de 1928- meses antes, ele sentiu a minha preparação e me encaminhou para o padre Leonel Franca com quem eu tive tres meses de conversa de caráter teológico, eu passei da descrença da Verdade para a crença da Verdade. E a crença na Verdade, não através da razão, da inteligência, mas através da intuição, do sentimento. Por exclusão eu cheguei a uma coisa mais simples, que inclusive, une o sábio ao ignorante, o homem rico, poderoso, ao pobre, que diante disso se curva à bondade, à caridade, à fraternidade, ao equilíbrio que eu considero a essência do cristianismo.


A Verdade é
uma responsabilidade



P. - O senhor afirma em artigo do livro A Experiência Reacionária que se preocupa mais com as eras futuras. Poderia explicar, por que isso?
Alceu - Exatamente, me preocupo mais com o futuro do que com o passado. É interessante que quando me converti, me preocupava mais com a estabilidade das coisas, porque tinha passado minha mocidade na remanescencia das coisas, o movimento das classes sociais, o movimento do próprio diálogo dos homens que nos leva realmente ao futuro da humanidade, no sentido da vida. Cada acontecimento da vida vai em relação a uma definição final que é o que a Igreja Católica chama de Juízo Final, parusia, que é a volta do Cristo, a revelação total da Verdade. Sinto que a procura de Deus e de todas as lutas humanas, o debate entre o Bem e o Mal, entre o ódio e o amor, tudo isso é uma convergência que vai no sentido do futuro. Para mim, a minha conversão não foi um descanso num porto seguro. Ao contrário, foi uma partida para um debate com as águas do oceano, um debate com as tempestades, um debate comigo mesmo, uma entrada na ação, para uma pessoa como eu, que tinha sido até então um sibarita, no sentido de gozar a vida, sobretudo no sentido das idéias. Enfim, foi a descoberta da responsabilidade das idéias. A Igreja realmente é alguma coisa em marcha, este é o sentido da Fé. A fé não é um descanso, a Verdade não é um prêmio de loteria que o sujeito ganha e pronto, passa a viver em água fresca e sombra. Não, a Verdade é uma responsabilidade. Então o futuro me pareceu muito mais interessante. E isso não quer dizer um desligamento do passado. O passado passa a ser presença no futuro.O futuro é uma antecipação que nós temos que viver numa utopia. Veja, os dois mais sutis teólogos brasileiros que são os irmãos Boff. Um deles passa seis meses ensinando teologia na Universidade do Rio de Janeiro e seis meses entre os índios. Ou seja, procurando o sentido da verdade mais elaborada e a verdade do homem primitivo. Este contato com o que há de mais avançado, e o que há de mais primitivo é que eu acho apaixonante dentro da Igreja. O cristianismo é uma passagem de uma promessa do Messias para a realização dessa promessa através da vivencia no tempo e uma revelação do que é realmente o sentido da vida e que o Cristo é o sentido do amor, da amizade, da fraternidade. Então o cristianismo é o sentido de que se encontrou alguma coisa, mas que este encontro não é um descanso, mas uma responsabilidade nova.

P. - Gostaria que o senhor dissesse sua posição em relação a este problema tão discutido que é a castidade. O Fernando Gabeira, por exemplo, que tem sido uma pessoa que tem assumido publicamente como uma pessoa religiosa, disse recentemente que discordava da postura da Igreja no que concerne a esta questão do sexo. Como o senhor vê esta problemática toda da castidade, do confinamento em conventos, sendo que o sexo é uma coisa natural?
Alceu - Acho esta vocação a coisa mais pura do mundo. A vocação de que se realmente possa haver santificação através da renuncia daquilo que é a coisa mais natural do mundo que é o sexo. O sexo é ao mesmo tempo a base da vida, e sendo ele o mais importante dos sentidos humanos, é também a possibilidade de desencadeamento de dois caminhos: o caminho do Bem e o caminho do Mal. O poder, por exemplo-é muito justo que haja uma autoridade, mas o poder é uma coisa perigosa. Pois bem, o sexo é mais perigoso ainda. Ainda outro dia recebi uma carta de um rapaz católico que me perguntava sobre a indissolubilidade do casamento. Veja bem: quando a Igreja diz que a monogamia é um bem, ela diz também que quando não há amor numa família, não pode haver paz, felicidade.Quando faltam, no sacramento do matrimônio algumas condições para este sacramento ele pode ser anulado, abolido. Portanto a indissolubilidade é relativa. Não quer dizer que não possa haver separação, quando por motivos os mais diversos, houver mudanças das circunstâncias que levaram à coabitação. Falando agora de conventos, eu, por exemplo, tenho uma filha que é abadessa de uma ordem de religiosas aqui de São Paulo, que é a pessoa mais alegre do mundo. Ela é beneditina, foi ela quem falou ao Papa quando ele esteve aqui no Brasil. (Esclareça-se que foi a primeira vez que o Papa João Paulo II veio ao Brasil.) Realmente é uma opção muito séria, muito grave.

P. - Além da crítica literária o senhor se aprofundou no estudo da economia, sociologia, filosofia. Fale um pouco das suas tendências profissionais.
Alceu - Eu realmente nunca cheguei a compreender a profissionalização. Sou um individuo que tende ao amadorismo e não ao profissionalismo.Eu tinha até um amigo meu americano que me dizia: doutor Alceu, porque o senhor em vez de publicar tantos livros, não faz como eu. Ele de cinco em cinco anos publicava uma nova edição de um Tratado de Direito Internacional. Eu dizia: cada um com sua vocação. Como não sou poeta, comecei com a crítica literária onde procurava a beleza nos textos dos outros. E da literatura tive que passar para a economia, a sociologia. Dava aulas, um tempo fui advogado, tentei a diplomacia e durante algum tempo fiquei na direção de uma companhia que meu pai tinha fundado. Mas a maior parte do tempo em dediquei ao ensino do qual gostava muito. Lecionei na Universidade Católica, na Universidade Federal e no Centro dom Vidal. No Centro Dom Vidal eu fundei a Coligação Catolica Brasileira, composta do Instituto Católico de Estudos Superiores, que foi o gérmen da Universidade Católica, de uma Associação Operária e de uma Associação das Bibliotecas Católicas, uma série de coisas que saíram do Centro dom Vidal. O Instituto Católico de Estudos Superiores foi criado em 1932 justamente com o desdobramento do Centro Dom Vidal. Aliás, este Centro, fundado pelo Jackson Figueiredo era dedicado a conferencias de cunho amadorístico. Quando assumi, depois da morte dele, criei todos estes desdobramentos. Eu sentia a necessidade de formalizar certas especializações. Uma associação para os juristas, outra para médicos, etc., e uma Escola Católica de Estudos Superiores. Em 1941 nasceram as primeiras faculdades católicas. Em 41 nasceu a Faculdade Católica do Rio de Janeiro e depois vieram as de Porto Alegre, de Belo Horizonte, de São Paulo. Todas nasceram do Centro Dom Vidal. Até então não havia cursos superiores. Havia uma cadeira de Literatura que eu assumi, uma de Sociologia, uma de Matemática, uma de Biologia. Os dominicanos estavam presentes Centro Dom Vidal. Foi com eles que conseguimos fundar este Instituto Católico de Estudos Superiores. Os dominicanos franceses ensinavam Filosofia e Teologia, e os brasileiros ensinavam Literatura, Sociologia e Biologia.


A santidade é um mosaico
de pequenas virtudes



P. - A história comprova que a Igreja sempre esteve atrelada ao poder. Atualmente e desde o golpe de 64 a Igreja brasileira tem sido oposição ao sistema, ao estado totalitário. A que o senhor atribui isso?
Alceu - Sim esteve sempre atrelada ao poder. Agora está desatrelada. Agora, não tenhamos a ilusão de que vamos modificar o mundo de um momento para outro. Estamos diante de pessoas que querem modificar o mundo violentamente e através do poder. Não devemos ter ilusão, inda mais num país como o nosso que vive realmente no Terceiro Mundo, não vamos viver com o desejo de ser uma grande potencia, inda mais num país como o nosso que vive realmente no Terceiro Mundo. Não vamos viver com o desejo de ser uma grande potencia que fica mínimo diante da onipotência de potencias como os Estados Unidos e a Rússia. É preciso ter consciência que conseguiremos alguma coisa pedra a pedra, sem a ilusão de mudanças rápidas. É viver no presente com a experiência do passado, mas focando no futuro. Esta visão do futuro representa uma tentativa de melhoria. Há os pessimistas, aliás, o terrorismo é a expressão do pessimismo máximo. Nós estamos realmente num momento dramático, passional em que temos de arrancar de todo o nosso sofrimento, a capacidade de reagir dentro das nossas possibilidades.Conhecer nossos limites, ser limitado sem ser medíocre ser equilibrado sem ser conformista, sem ser morno. Deus vomita os mornos. É prova maior de liberdade sofrer uma derrota que alcançar uma vitória através de compromissos Devemos ter o amor da dignidade, da honra, para saber que vivemos num mundo em que o bem e o mal estão confundidos em nossas próprias almas. Ficarmos convencidos que nós não somos deuses, não somos anjos, somos seres humanos. Nós temos a responsabilidade de saber discernir o que é bom e o que é mal, sem chegar ao farisaísmo. Saber que vivemos sempre situações mistas. O que é a democracia? É a confiança no povo. Mas quando o povo ama as ditaduras? Veja as fotografias do Irã (Isso era manchete no mundo inteiro, naquele ano de 81), o Komeini julga que é santo e as pessoas tem um olhar de ódio. Cada um de nós deve ter dentro de si o amor à perfeição. É neste sentido que a Igreja representa realmente um equilíbrio entre a ciência e a ignorância, que é a sabedoria. A sabedoria que está para lá da ignorância e para lá da ciência. Cada um de nós deve ter o amor da perfeição. Saber que devemos querer o máximo, mas saber que o máximo nunca atingiremos. A santidade é um mosaico de pequenas virtudes. Os grandes gestos são raros. No mais, a vida é feita de pequenos gestos anônimos.Temos que adquirir o sentido de sermos o menos imperfeito possível. Isto já é uma grande conquista.

Comentários

 
Espiritualidade/Manifestações da Virgem


Nesta semana esteve em Campinas para divulgar os dois livros que escreveu sobre os prodígios e milagres realizados pela imagem de Nossa Senhora sob o titulo de Rosa Mística, que foi como a Virgem se revelou a uma enfermeira-Pierina Gilli, em Montichiari-Itália, na primavera de 1947, com algumas interrupções até o ano de 1976, onde se apresentou com tres rosas no peito que segundo ela significavam: a branca-o valor e a necessidade de um espírito de oração; a vermelha -o valor e a necessidade de sacrifício e despojamento e a amarela-o valor e a necessidade de penitência e jejum-o José Maria Medina, de Belo Horizonte.

O primeiro chama-se Maravilhas e Lágrimas da "Rosa Mística" e o segundo As Maravilhas da "Rosa Mística", onde ele relata os prodígios e milagres, curas e libertações ocorridas na peregrinação que faz com uma imagem de Nossa Senhora há oito anos, justamente depois de ter recebido uma graça extraordinária da Virgem. Proximamente vou escrever sobre os dois livros em detalhes-com fotos ilustrando os prodígios: marejamento e mudança de cores nas rosas durante a reza do terço, figuras que se formam nas velas, nas rosas, entre outros.

Agora vou apenas publicar uma matéria que fiz sobre um desses prodígios com uma imagem da Rosa Mística em Campinas, e que foi publicada num jornal da região - O Município de São João da Boa Vista, como parte de uma série que escrevi sobre revelações, depois do 11 de setembro (a queda das torres gêmeas em Nova York), mais exatamente no dia 17 de novembro de 2001, porque exatamente este texto é um capítulo deste segundo livro do José Medina e por ele tem, como vocês verão na seqüência ligações com o casal Joel e Maria Inês Salotti de Almeida -onde a imagem da Rosa Mística chorou. Ele ganhou a imagem deles e daí sua grande admiração pelo casal.



Imagem da Rosa Mística
chorou em Campinas



Ana Lúcia Vasconcelos

Prodígios e milagres acontecem na capela que Maria Inês Salotti de Almeida construiu em sua casa no Jardim Chapadão, em Campinas, em homenagem a Nossa Senhora Rosa Mística. Tudo começou com a imagem da Virgem vertendo lágrimas de agosto de 92 a setembro de 93. Recentemente, em novembro de 2003 o quadro onde está a foto da Virgem chorando, feita na ocasião voltou a ver água e em junho de 2004, o mesmo fenômeno voltou a ocorrer. A história, desde o inicio está narrada nesta matéria, onde começo contando da religiosidade de Maria Inês, sua convivência com o padre Donizete até chegar a essa sua experiência maravilhosa com a Virgem Maria sob a denominação de Rosa Mística.


De família religiosa foi
batizada pelo padre Donizete



Maria Inês nasceu em Tambaú (SP) em 1941. De família religiosa, pais muito católicos foi batizada, crismada e tomou a primeira comunhão do famoso padre Donizete que já em vida atraía grandes multidões para a cidade por sua fama de santidade. Inês teve, portanto esse privilégio como admite: "conviver com uma pessoa muito simples, muito humilde, mas muito dotada espiritualmente, que já dizia que não era ele, mas Jesus que realizava as curas. E ainda: que ele era simples instrumento de Jesus e para haver a cura era preciso fé. Segundo Inês, o padre Donizete tinha grande devoção por Nossa Senhora Aparecida e ela mesma também, desde criança, tinha grande intimidade com a Virgem: gostava de participar dos atos da Igreja, da coroação nos dias consagrados a ela, enfim, como diz - "gostava de estar na igreja".

Quando veio para Campinas, já casada, começou a freqüentar a igreja de Nossa Senhora do Carmo, no centro, onde morava e onde foi ministra da Eucaristia por vinte anos. Foi então que chegou na igreja do Carmo, vinda da Alemanha, uma imagem da Rosa Mística (aquela com tres rosas no peito-vermelha, amarela e branca e que ela não conhecia).

"A imagem ficava no altar mor", conta, "e sempre que eu entrava na igreja, depois de ter ido ao Santíssimo, me dirigia à imagem da Rosa Mística onde rezava e ficava admirando sua beleza".E como ela e o marido participavam da última missa do domingo, como ministros, ela um dia, teve a idéia de pedir permissão ao Monsenhor Geraldo (antigo pároco da igreja, já falecido), para levar a imagem para sua casa, já que a igreja ficava fechada na segunda feira, para lindeza. "Aí que eu já vejo o plano de Nossa Senhora na minha vida. Você imagina alguém pedir para o padre para levar uma imagem da igreja para casa?"


A imagem da Virgem
peregrinava



E não foi isso que aconteceu? O padre permitiu, com o aval do coordenador do Grupo de Oração, e Maria Inês passou então a levar a imagem da Rosa Mística no domingo à noite e trazia de volta para o Carmo na terça feira. Ocorre que ela não ficava com a imagem em casa: "ela peregrinava pelas casas dos amigos, vizinhos, enfim de quem precisasse, porque ela é uma imagem peregrina", explica Maria Inês. E a minha missão: levá-la onde for preciso." Mas na terça feira, quando levava a imagem de volta para o Carmo, ela pensava: "um dia vou ter uma imagem como essa".

Foto: Priscila Iász de Miranda

A imagem da esquerda, mais desgastada, foi a que verteu lágrimas

A esta altura, o marido por razões profissionais foi para Roma e quando voltou disse: "não vou me perdoar por não ter trazido para você uma imagem da Rosa Mística apesar de ter estado com várias perto de mim". E sem ela saber, ele providenciou com uns amigos a vinda de uma imagem da Rosa Mística da Alemanha. E um belo dia, eis que chega na sua casa, já no Jardim Chapadão, onde mora desde 74, uma imagem da Rosa Mística igual àquela do Carmo que Maria Inês tanto gostava. "Foi uma emoção tão grande, não dá para falar. Indescritível".


O nicho reservado

Tão importante foi o fato que Maria Inês não esquece a data: 20 de março de 1992. E ainda um outro detalhe que ela gosta de recordar: há em sua casa um nicho onde eles colocavam enfeites, souvernirs de viagens. A esta altura-antes da imagem chegar-ela reformou a casa e pensou em tirar o nicho, mas o marido discordou da idéia e o nicho ficou. "Estava reservado para ela", diz Maria Inês que conta que passou a fazer orações diante da imagem até que um dia, 17 de agosto de 92, percebeu que a imagem estava vertendo lágrimas.

Ela não queria acreditar no que via chamou os vizinhos para testemunhar e todos viram. Nesse dia foram poucas lágrimas, segundo conta, mas no dia 13 de março de 93 a imagem voltou a chorar e chorou sem parar e então Maria Inês decidiu abrir a casa para as pessoas. E das oito da manhã à meia noite não parava de chegar gente, de todas as partes da cidade, os jornais e televisão foram fazer matérias. "Eu afastei os móveis da sala e disse: Nossa Senhora a casa é sua, faça o que a senhora quiser. Entendi que um sinal tão grande não era só para mim e para minha família".

Apesar de ter documentado tudo, tirado fotos da imagem chorando e os jornais terem feito isso largamente, no dia 19 de abril de 93 ela chorava tanto que Maria Inês decidiu chamar o Laerte Zago, conhecido fotógrafo da cidade, profissional competente e pediu que ele documentasse o fato. Pois bem: o fotógrafo tarimbado começou a chorar vendo o que ocorria e tremia tanto que não conseguia fazer a foto. Finalmente fotografou e as fotos são essas que vocês podem ver, onde Nossa Senhora da Rosa Mística chora copiosamente.


A Virgem chorando

Prodígios e milagres


Maria Inês calcula que pelo menos 10 mil pessoas passaram pela sua casa nesse tempo: nunca havia menos de vinte pessoas na sala, a casa ficava lotada diariamente, chegavam ônibus de vários lugares e foram muitos os milagres."As pessoas faziam lencinhos rendados com os quais enxugavam as lágrimas da imagem e levavam para os doentes e eles ficavam curados".

Há inclusive, um prodígio que ela relata com a permissão da pessoa envolvida: Maria Paula Otranto, tinha dado à luz seu primeiro filho e por causa de uma infecção hospitalar não podia amamentar a criança já que seus seios estavam feridos. A mãe da moça ligou desesperada e Maria Inês foi até o hospital levar o lencinho com as lágrimas da Virgem e a Eucaristia. No dia seguinte a infecção havia cedido e Maria Paula, apesar de ter ainda os seios machucados já podia amamentar o filho: não sentia dor.

Houve ainda neste tempo, muitos milagres, prodígios e curas e ainda hoje se pode ver várias manifestações como mudança de cor nas faces de Nossa Senhora, mudança na expressão, fenômenos que eu mesma notei várias vezes, e ainda: como costuma acontecer em outros locais de aparições ou manifestações da Virgem Maria, a imagem exala um perfume de rosas que as pessoas sentem fortemente.

Pois houve uma cura através do perfume exalado pela imagem que passo a relatar. Uma senhora mãe de um garoto epilético, que mora nas redondezas pediu a imagem para levar para a sua casa e a colocou no seu quarto. Quando o garoto que aquela altura tinha 18 anos (hoje tem perto de 28) chegou em casa perguntou se a mãe tinha colocado algum perfume porque ele estava sentindo um forte perfume de rosas. A mãe disse que não e o convidou a ver quem estava no seu quarto. Quando o garoto se aproximou da imagem disse: é dela, da imagem da Virgem que vem este perfume que estou sentindo. E desde esse dia ele ficou curado da doença. Maria Inês conta que ele esteve na capela com a mãe para agradecer a Nossa Senhora, mas a família não é católica, e depois disso não mais aparecerem. Mas é importante registrar o que o garoto disse à época: que ele tinha muitos sonhos com Nossa Senhora e que continuava sentindo o perfume e que desde aquele dia sua vida melhorou muito. Ou seja: reconheceu a mudança radical em sua vida.

Muito outros testemunhos de curas, conversões e libertações ocorreram e continuam a acontecer, porque então Maria Inês resolveu fazer da sua casa um santuário.


Capela em
Homenagem



A imagem da Nossa Senhora Rosa Mística continou chorando o ano todo, sendo que no dia 22 de setembro de 93 foi último dia que ela verteu lágrimas: foi quando Maria Inês decidiu construir uma capela em sua honra que foi inaugurada em 11 de novembro de 94.

Projetada por um arquiteto amigo, a capela é linda, é toda feita em granito e mármore, e sobre um enorme globo feito de anéis de mármore, pesadíssimo, está uma grande imagem da Virgem da Rosa Mística, que Maria Inês ganhou do Horst Mehring, coordenador mundial do Opus Rosa Mística, para quem narrou todos esses fatos e por causa disso o nome de Campinas e da família de Maria Inês estão na lista que o Movimento distribui para o mundo todo e onde estão registrados os prodígios e milagres de Nossa Senhora Rosa Mística ocorridos nos diversos países.

Foto: Priscila Iász de Miranda

Maria Inês na capela

"As imagens são feitas em Essen, na Alemanha, levadas para Montichiari-Fontanelle, Itália, (onde houve a aparição da Virgem da Rosa Mística à vidente Pierina Gilli em 1947), são abençoadas a pedido de Nossa Senhora, voltam para Essen de onde são enviadas para o mundo", explica Maria Inês. Segundo ela hoje há perto de 90 mil imagens no mundo todo. "Elas vão muito para a Rússia. Eu relatei tudo para o Horst e ele então me mandou uma imagem grande".

E desde que a Rosa Mística se manifestou chorando, se reza o terço todos os dias sempre as 20. 30hs, de inicio na casa e depois na capela e formou-se ali uma pequena comunidade. Além do terço o grupo, que nunca é fixo porque é aberto a quem quiser, faz a Via Sacra, a Novena de Natal nas épocas litúrgicas apropriadas e ainda uma oração muito poderosa, pedida pela Virgem em várias aparições, especialmente a de Medjugorje: As Mil Aves Marias.

Foto: Priscila Iász de Miranda

As Mil Ave Marias no dia 13 de agosto

Enquanto em algumas comunidades se faz esta oração todo o mês, na capela da Rosa Mística ela acontece apenas duas vezes ao ano: no dia 25 de março - Festa da Anunciação e no dia 15 de Agosto, Festa da Assunção de Nossa Senhora, ocasiões onde ela se manifesta através da palavra proferida por pessoas que tem o dom da profecia, com muitas curas e libertações.

Quando Maria Inês viaja, a vizinha do lado fica encarregada de coordenar as orações. "Faço isso com a maior alegria e peço que ela me ajude a cumprir até o final esta missão".Enquanto isso a imagem menor, a que chorou, peregrina pelas casas. Quem quiser participar é só ir à capela que fica na Rua Rafael Luporini, 49 Jd. Chapadão, Campinas-cep. 13.066-670.


A Virgem Maria
volta a se manifestar


Recentemente em novembro de 2003 Nossa Senhora voltou a se manifestar na capela da Maria Inês Sallotti de Almeida: o quadro onde está a foto já referida, feito pelo Laerte Zago, onde ela está chorando, começou a verter água e Maria Inês lembra que isso acontecia justamente no ano em que a Campanha da Fraternidade tinha por tema :Água como Fonte de Vida. Muitas pessoas presenciaram o fato, e novamente embebiam lenços e algodão na água que o quadro vertia e levavam para abençoar e curar pessoas. Novamente muitas curas foram registradas e os sinais deste fenômeno podem ser vistos claramente no quadro.


O quadro manchado

Maria Inês diz que desta vez ela não anunciou publicamente o fato para evitar a ida de curiosos: as pessoas que freqüentam a capela ficaram sabendo e foram divulgando. "A gente não sabe o que isso significa", ela diz, "são coisas do Alto, nós não temos condições de dar nossa opinião". Mas lembra que Nossa Senhora falou através de uma pessoa que tem o dom de locução interior que "isso que estava ocorrendo era um sinal de benção para todos que fossem a capela".E Maria Inês completa: "quem veio aqui foi privilegiado, porque agraciado com as bênçãos de Nossa Senhora".

Quando a Campanha da Fraternidade terminou, o fenômeno também cessou, mas agora, em junho de 2004, o quadro começou a verter água novamente, ou seja, a Virgem Rosa Mística está novamente chorando. Por que a Virgem chora? É a pergunta que voce pode estar se fazendo agora. Pelos pecados da humanidade. E ela chora não apenas aqui, mas em diversos outros lugares do mundo e estou dedicando um capítulo do livro que estou escrevendo sobre as aparições da Virgem e que logo mais vou veicular, as lágrimas de Nossa Senhora.

E por que ela aparece ou emite sinais em ícones ou imagens? Para lembrar à humanidade que é preciso voltar para Deus, como por exemplo, nesta mensagem da Rainha da Paz, nome com que a Virgem se identifica em Medjugorje: "Vim dizer ao mundo: Deus é a verdade. Ele existe, n' Ele está a verdadeira felicidade e a plenitude da vida. Apresento-me aqui como Rainha da Paz para dizer ao mundo que a paz é necessária para a salvação do mundo. Em Deus se encontra a verdadeira alegria , da qual flui a verdadeira paz."


Nossa Senhora Rainha da Paz

E para terminar, um testemunho pessoal: quando voltei a morar em Campinas, depois da minha conversão e já pesquisando sobre aparições e já tendo traduzido o livro Eu Vejo a Virgem - Vicka narra as aparições de Medjugorje (uma longa entrevista do padre Yanko Bubalo, já falecido com a Vicka Ivankovic, um das cinco videntes que vêm a Virgem naquela localidade da ex Iugoslávia, atual Bósnia-Herzegovina), editado pela Loyola em 90 e atualmente esgotado, vim morar há seis quadras deste Santuário da Rosa Mística, que por sua vez fica perto da Comunidade Jesus Te Ama, que também freqüento. Vocês diriam que isso é obra do acaso ou da Providência Divina?

Eu já estive nesta capela várias vezes, para rezar o terço, para as Mil Ave Marias e algumas vezes para rezar simplesmente, sozinha porque a capela tem o Santíssimo, por consentimento do arcebispo de Campinas. É uma maravilha, um local de grande paz e a Maria Inês é uma pessoa maravilhosa, sempre sorridente, feliz. Às vezes eu chego precisando falar com ela e está querendo falar comigo: e ficamos ali conferindo as nossas tribulações e alegrias e agradecendo a presença de Nossa Senhora em nossas vidas.


Comentários

 
Entrevista/Literatura


Leo Gilson Ribeiro - Apostando na literatura Brasileira
(Parte 1)


Ana Lúcia Vasconcelos

Considerado um dos maiores críticos de literatura brasileiros, Léo Gilson Ribeiro, 75 anos, nascido em Pindamonhangaba e residindo em São Paulo há exatos 46 anos, é doutor em Literatura Comparada pela Universidade de Heidelberg da Alemanha, lecionou Literatura Brasileira na Universidade de Hamburgo e foi o primeiro brasileiro a colaborar com a fechadíssima revista americana The Kennyon Review.

Prêmio Esso de Jornalismo em 69 com a matéria A Noite dos Balões, Léo escreveu durante anos no Jornal da Tarde e na revista Veja obtendo em 76 o Prêmio de Melhor Crítico Jornalístico/ Literário do Brasil instituído pela Editora Nórdica, com direito a uma viagem a Europa e mais cinco mil dólares que foi para ele uma oportunidade de rever o continente, especialmente algumas cidades da Alemanha onde viveu, ver muita arte, enfim curtir a liberdade de Amsterdã, por exemplo, onde há segundo ele um maravilhoso museu com a obra de Van Gogh.

Em 76 foi a vez do sindicato dos Jornalistas premiá-lo pela matéria A Noite dos Balões que narra a trágica histórica de um casal de idosos mortos por pivetes, e isso era apenas o começo da violência no Brasil. Em 1988 recebeu o Prêmio de Melhor Ensaio da Associação Paulista de Críticos de Arte com o livro O Continente Submerso (Best Seller, 1988, SP).

Por acaso mineiro: a família inteira é de Pindamonhagaba, Léo conviveu desde cedo com os grandes autores da literatura mundial. O pai lia Shakespeare aos cinco anos, a avó Mariana Marcondes foi uma mulher de cultura extraordinária que se correspondia em francês com os maiores músicos da época. Foi uma das maiores discipulas de Carlos Gomes e a primeira mulher a levar um piano de cauda num carro de boi para o norte do Paraná.

Fiz duas entrevistas com o Léo Gilson Ribeiro que, diga-se, conheci na Veja em 68 e a quem apresentei a Hilda Hilst de quem já era amiga e de quem ele ficou um dos grandes amigos, publicada em 80 no Jornal de Hoje de Campinas, onde fui editora de Cultura e que proximamente vou republicar e que considero uma das melhores entrevistas da minha vida: não por mim, mas por ele, que é genial. E a segunda é esta, realizada em sua casa em São Paulo em 1987, para a Revista Artes (como não tive noticias da sua publicação a considero inédita), e que, portanto é datada, ou seja, depois disso muita água rolou debaixo da ponte, muitos novos escritores surgiram e daí que preciso fazer uma nova entrevista com ele, para conferir o que ele acha bom na literatura brasileira atualmente.

Mas para atualizar minimamente esta entrevista -onde ele fala sobre sua atividade de crítico, seus livros, suas idéias sobre literatura brasileira e universal, de uma forma irreverente e maravilhosamente bem humorada que é sua marca registrada, liguei para ele para conferir alguns dados.

Fiquei sabendo que ele continua com sua máquina elétrica não tem endereço eletrônico, quer dizer ainda não entrou na era da informática, e lendo full time, mas agora só o que gosta, pode se dar a este luxo.Conferindo suas atividades atuais ele escreve como todos sabemos para revista Caros Amigos e está preparando a convite do Sesc-uma seleção do que considera melhor na sua obra ainda não impressa a nível mundial.

E ainda está preparando para a Editora Casa Amarela (SP) um livro contendo suas Melhores Entrevistas publicadas no Jornal da Tarde e na Veja que deve sair nos próximos meses.No mais diz que leva uma vida simples, e que agora que está mais maduro está relendo o que gosta e só lendo coisas de qualidade.

Quando eu cumprir a promessa de visitá-lo vou colocar a conversa em dia, porque somos muitos amigos e lógico vou entrevistá-lo novamente porque ele é uma pessoa de uma cultura vastíssima e de uma capacidade de humor maravilhosos, o que resulta sempre em muita risada, e lógico entrevistas memoráveis. Mas se voce quiser saber mais sobre ele pode pesquisar na Google que vai encontrar mais de dez sites contendo material sobre seus textos. Pena que não haja um siquer falando da sua vida, datas, que, aliás, sugeri a ele que fizesse. Boa viagem.

P. - Léo você é crítico literário há quantos anos? Começou na Veja?
Léo Gilson Ribeiro - Olha, desde 1960. Comecei no Rio de Janeiro, no Diário de Notícias, um jornal que não existe mais e o Correio da Manhã. Então o Mino Carta inventou que eu devia ser jornalista, tinha gostado muito do meu livro Cronistas do Absurdo e aí ele me colocou inicialmente no Jornal da Tarde e depois para a Veja onde fiquei como um dos primeiros fundadores há oito anos.

P. - Cronistas do Absurdo (José Álvaro, editor, 1964-RJ) sobre literatura hispano americana foi seu primeiro livro?
Léo - Foi meu primeiro livro. Ele falava de Ionesco, talvez pela primeira vez no Brasil, falava de Brecht, falava de Buchner, de Kafka, um livro que surpreendentemente, apesar de ser um livro de ensaios chegou à quarta edição.

P. - Eu adorei este livro, aliás, para quem gosta de teatro do absurdo e esses outros autores é um prato cheio. Você escreve muito, não é Leo? Você escreve ainda em máquinas ou já tem um micro?
Léo - Infelizmente minha vida é em cima de uma máquina de escrever. Não, não tenho um micro, sacrifiquei as férias para poder comprar uma máquina elétrica porque a minha coluna vertebral não rimava com meu salário (risos). Então uma vez fiz um artigo sobre a Revolução Russa, sobre um brilhante interprete norte-americano que teve acesso a muitos arquivos secretos do tempo de Kruschev e era um livro de mil e tantas páginas sobre o qual escrevi um artigo de três páginas para o Jornal da Tarde sobre a verdadeira história bolchevista...

P. - O que deu... quantas laudas?
Léo - Quase cinquenta laudas.

P. - Quantas laudas você escrevia por dia no Jornal da Tarde?
Léo - Variava, às vezes quando o livro exigia eu escrevia 22,27 laudas. Quando era uma matéria menor escrevia 120 linhas. Mas raramente escrevia menos de 200 linhas para o Caderno de Sábado. As segundas eu escrevia mais umas 80 linhas para aquela seção chamada Biblioteca onde enfocava principalmente livros estrangeiros que não chegaram ao Brasil.

P. - E a propósito quantas linguas você lê?
Léo - Ah. Eu leio só meia duzia. Quatro latinas, o alemão e o inglês.

P. - E o russo que eu sei que está estudando?
Léo - Arranho o russo, que é uma das paixões da minha vida.

P. - E lê muito? Quantas páginas por dia?
Léo - Todos os anos tenho que mudar as lentes dos óculos, porque além de serem livros grandes e eu faço o confronto com a edição original, vejo se a tradução está bem feita, depois procuro datas, dados sobre o autor, tenho que me manter atualizado. Então eu leio, por exemplo, aquela revista alemã, Der Spiegel, leio L' Express, leio Time, leio News Week, leio do New York Time o The Book Review e quando consigo leio o Lire. Ou seja, fora o material que tenho que ler há toda uma constelação de livros que é preciso ler, que preciso ler profissionalmente. E, além disso, há os livros que tenho que lançar pioneiramente no Brasil.

P. - Você escreve ainda naquela revista da Goodyear?
Léo - E a coisa mais importante free lance que fiz nos últimos anos é da Goodyear na qual escrevia sobre escritores brasileiros, de maneira acessível.Você sabe que de house organ ela virou uma revista de muito prestígio no Brasil? Começou a ser vendida em banca. E de vez em quando, quando o tempo dá eu escrevo para algumas revistas da Alemanha e dos Estados Unidos.

P. - Quais?
Léo - Eu escrevi para aquela The Kennyon Review sobre literatura americana e difusão no Brasil, já escrevi sobre Maria Carolina de Jesus numa revista alemã chamada Christ und Welt (O Cristão e o Mundo) e também já fiz um perfil para as revistas Lever da Inglaterra. Traduzo muito teatro: já traduzi Abelardo e Heloisa, o Peer Gynt, do Ibsen para o Antunes Filho, já traduzi Caixa de Sombras e Filhos do Silencio para o Odilon Wagner e a Valéria. E tudo isso não deixa de ser pequenos free lances. Então você vê, que nós da classe média-isso são dados estatísticos do DIESE, perdemos 80% do nosso poder aquisitivo. Então eu tenho que me disciplinar muito, tenho que usar tudo que eu aprendi de disciplina na Alemanha...

P. - E por falar nisso você viveu na Alemanha em que época?
Léo - De 53 a 58.

P. - Foi lá que você escreveu Os Cronistas do Absurdo?
Léo - Não, escrevi no Brasil. Na Alemanha você é forçado, você tem sua alma mater, há uma lei não escrita que é o seguinte: se você vai se laurear por determinada universidade você tem que visitar outras. E daí eu fui para Heildelberg e lecionei literatura brasileira na Universidade de Hamburgo. Isso porque, na Alemanha há o que eles chamam um Weck Student, quer dizer um aluno que paga seus próprios estudos. Assim eu falava em Hamburgo sobre Cecília Meirelles, Jorge de Lima, grandes poetas brasileiros, Carlos Drummond de Andrade. Eles traduziam para o alemão, traduziram, por exemplo: Morte no Avião que foi publicado no mais importante Suplemente Literário da Alemanha que é o do Jornal Frankfurter Algemeine Zeitung.

P. - Afinal você fez universidade aqui ou lá?
Léo - No Brasil fiz até o que se chamava o clássico. Com 18 anos fui embora e fiquei onze anos entre Estados Unidos, Alemanha e Itália. Nos Estados Unidos fiz o (M.E.) e na Alemanha o PhD para o qual você precisa escrever uma tese complicadíssima.

P. - E você escreveu sobre...
Léo - A saudade como permanencia de raízes plotinianas na poesia de Teixeira de Pascoaes que era uma coisa que me animava muito por eu estar muito enfronhado em Plotino naquela época. Eu via naquele movimento da presença da saudade na poesia de Teixeira de Pascoaes uma profunda afinidade com aquela noção do passado, do vivido anteriormente e consignado pela memória. Foi uma preparação para depois ler Proust.

P. - Você gosta de Proust?
Léo - Adoro Proust. Já li nove vezes, quer dizer, são 38 mil páginas - À la Recherche du temps perdue.

P. - Você escreveu um livro sobre Literatura Hispano Americana, O Continente Submerso que foi premiado. Por que Continente Submerso?
Léo - Foi premiado unânimente pela APCA como o Melhor Ensaio publicado no Brasil em 1988 e eu fiquei muito contente. É Continente Submerso porque nós somos um continente submerso. Quer dizer a Europa já está rescendendo a alfazema e procurando no baú sua memória perdida, debruçada sobre sua própria esclerose. Lá não tem nada comparado ao que o Brasil e a América Latina apresentam no plano literário. Ela tem tecnologia, riquezas econômicas. Aliás, nem os Estados Unidos está numa fase muito boa. O Canadá, você sabe é um deserto literário. Então a América Latina é a coisa mais avançada do mundo ocidental porque ela engloba a reinvidicação política, ela exalta o que o Alejo Carpientier e Lesama Lima-cubanos chamaram de ¿realismo mágico maravilhoso da flora e da fauna, da história trágica da América Latina¿. Além disso, a América Latina tem uma enorme riqueza de vocabulário apoiada não só na tradição literária espanhola, sólida-já que eles têm universidades duzentos anos mais antigas que as nossas enriquecidas pela cor local dos vocábulos quichuas ou astecas ou de outros locais que eles aproveitam. Então você vê a América Latina, com Borges, na Argentina, com Juan Rulfo, no México, com Guimarães Rosa no Brasil e com Mário Vargas Lhosa no Peru, revolucionou todo o conceito de literatura porque ao mesmo tempo em que está presa àquela matriz européia de Flaubert para cá, ela tem uma outra vivência dos problemas políticos sociais e ecológicos que se forma agora com todo seu atraso econômico, sua miséria, sua fome, sua plutocracia. É uma literatura de imaginação transcendente com Guimarães Rosa, Cortázar e não precisa dizer com a nossa querida Hilda Hilst também. De maneira que eu acho que é uma literatura apesar do boom que houve e que não inclui o Brasil, ainda insuficientemente conhecida.

P. - Mesmo na Europa?
Léo - Mesmo na Europa. Na Europa eu acho que foi um fenômeno de coisas óticas, de preencher uma lacuna que a Europa não preenche mais e também porque era uma literatura em grande parte traduzível, pelo menos nos países latinos. Agora, nos países que não são de língua latina-Alemanha, Inglaterra, países nórdicos, este boom já houve de uma maneira amortecida. Agora, os alemães têm o mau gosto de pensar que literatura hispano americana são os horrores de romances de Isabel Allende.

P. - Você atribui isso a que? A falta de divulgação da literatura brasileira no exterior? Que mais?
Léo - Ah. evidente. O Brasil não divulga nada, não tem institutos culturais brasileiros de divulgação da literatura, arte, traduções, conferenciais. Para cocktails existe, mas para cultura séria, não.

P. - E por falar nisso, a quantas andam a literatura brasileira? Você diria que estamos vivendo uma fase rica de novos autores?
Léo - A literatura vai muito bem. Uma das poucas coisas, aliás, que anda bem no Brasil. Dentro de um país falimentar, nós temos uma literatura que nunca deixou de apresentar em cada geração, dois, três, quatro e cinco importantes nomes.

P. - E quem seriam esses autores novos bons, que surgiram recentemente?
Léo - Eu acho que apareceram no Brasil, jovens ou iniciantes como o Vicente Cecin que é um paraense que escreve literatura surrealista muito boa, muito bem escrita, não exatamente influenciado por ninguém, ele é apenas levemente surrealista, mas um surrealismo que está presente em Dona Flor e Seus Dois Maridos, em Macondo, de Cem Anos de Solidão, é a atmosfera latino americana...

P. - Mas nós somos surrealistas...(risos)
Léo - Pois é, nós estamos falando aqui e o dinheiro brasileiro está se desvalorizando 1% a cada dia que passa... é a América Latina. Depois, eu tenho a impressão que o Ricardo Guilherme Dicke, um grande escritor que está começando a aparecer agora em Mato Grosso e que tem toda uma temática de busca de Deus, de culpa do homem, de reinvindicações, de exorcismo, de diabos que se apoderam, da ganância, do egoísmo do ser humano. Ele escreve com muita força, com uma renovação vocabular... Depois eu gostei muito também do Wilson Bueno, do Paraná que é um rapaz muito jovem e que está dirigindo uma revista brilhante chamada Nicolau, especializada em literatura. Escreveu um livro muito bonito que é mais ou menos uma crônica do que uma juventude absolutamente desorientada sente hoje no Brasil. Está entre a droga e Lênin (risos). Depois há o Benito Barreto que escreveu Os Guaianás, em dois enormes volumes em que ele, ainda que eu não possa dizer de uma maneira leviana- mas é novamente toda uma temática regionalista que deve abranger a Bahia, Goiás, Minas Gerais e que funde certas intenções do Guimarães Rosa, com certas apreensões do Mário Palmério quer dizer o poder político, os cangaceiros, se é que há cangaceiro em Minas, os preconceitos, a situação da mulher, as transformações sociais, enfim.

P. - Ele faz uma panorâmica, é épico?
Léo - Exatamente, é um grande painel. E, além disso, eu gosto muito do João Ubaldo Ribeiro, aquele livro O Povo Brasileiro eu acho muito engraçado aquilo que ele escreve que o brasileiro é um povo que macaqueia todo mundo, que aqui é o país da bagunça mesmo, que não adianta você botar métodos europeus que não adianta. Agora falando de coisas de qualidade eu constato que a Hilda Hilst mantém uma qualidade assombrosa no seu texto, como o Amavisse e também constato que mantém uma grande uniformidade de qualidade, a Marly de Oliveira nas suas poesias com exceção do seu último livro que foi dos melhores que ela escreveu e também do próprio João Cabral de Mello Neto que continua na mesma linha sem quebrar a qualidade. Ou seja, não estamos mal. Naturalmente o que está acontecendo é que a nossa profunda crise econômica, como ela tem consequências psicológicas, ela influi sobre o que o artista vai escrever.

P. - A sobrevivência fica mais difícil?
Léo - Não aí não, porque as editoras estão oferecendo quase que contratos americanos, eles gostam do rascunho que você escreveu e te dão uma soma grande em dólares para você escrever o livro. Isso é bom. Eu por exemplo já tive quatro editoras querendo lançar meu livro. Isso é bom porque há uma concorrência. Então esta situação está realmente mudando. Agora, o calcanhar de Aquiles eterno é a tradução que é péssima.

P. - Por quê, eles pagam mal os tradutores?
Léo - Possivelmente porque não pagam bem e também porque são pessoas afoitas que dizem que sabem espanhol, inglês, francês, alemão e não sabem. Então você na realidade tem no Brasil, uma meia dúzia de ótimos tradutores e no mínimo dois não são brasileiros. Aprenderam português como Herbert Caro que traduziu Thomas Mann e que é alemão e que traduziu Herman Broch e mora no Rio Grande do Sul. Você tem a Tatiana Belink que é russa e traduz magnificamente para o português. Depois você tem a Lya Luft que é bí-lingue que fala ótimamente alemão e português e traduziu Gunther Grass maravilhosamente bem. Depois temos o Jaime Cristaldi que traduziu o Ernesto Sábato muito bem e tem o Milton Pessoa que traduz Hemingway e o Remy Borba Filho que traduz muito bem os livros do Mário Vargas Lhosa e a Martha Calderaro que demorou dezoito anos traduzindo a Yourcenar e o José Paulo Paes que traduz os gregos, o que é muito pouco. Fora os livros muito importantes que não são siquer mencionados. Tenho mais de cem.

P. - Mas isso é problema dos editores que não investem fundo em cultura?
Léo - Sim porque eles não têm a audácia de saber que vão perder dinheiro num livro que vai vender pouco, mas que é importantíssimo. Há um sábio, um estudioso norteamericano, Boswow que passou anos da vida dele, estudando hebraico, aramaico, latim, persa, grego antigo, inglês, francês, provençal, português espanhol e que escreveu um livro fundamental sobre história e que foi o melhor livro de história daquele ano e inclusive ganhou o Pullitzer e que era um livro chamado A Cristandade, a Homossexualidade e a Tolerância Social onde ele mostrava que até santos, bispos e papas haviam sido homossexuais e, portanto esta atitude de absoluto preconceito da Igreja Católica era uma coisa da Renascença para cá, mas que na Idade Média era de certo modo abafado, tolerado. E no Brasil ficamos privados desse livro, Depois também um livro importantíssimo daquele matemático russo Leonid Plyushen, ele escreveu Carnaval da História, onde relata o que foi o seu julgamento sumário, como dissidente e sua prisão numa clínica psiquiatrica na qual lhe aplicavam alucinógenos na jugular e na carótida. E ele sobreviveu e está na França. Outro livro que foi pouquíssimo divulgado no Brasil numa edição quase clandestina é Contra Toda a Esperança daquele poeta cubano que esteva em cadeiras de rodas. Enfim, são livros que por motivos ideológicos ou eclesiáticos não chegam ao Brasil.

P. - Isso significa que ainda existe censura?
Léo - Existe uma forte censura. Existe aquele livro importantíssimo de três volumes do Kolakoski que é talvez a maior autoridade mundial do marxismo e ele estuda as origens, o auge e a decadência do marxismo. Porque os vários Pcs que o existem no Brasil impedem que debatamos, por exemplo, o problema do Gorbatchev. Foi preciso uma editora de bastante peito, chamada Best Seller para lançar no Brasil, porque parece que havia uma certa dúvida: quanto tempo ele vai durar no governo. E também porque Fidel Castro não aprova o Gorbatchev e isso brecava um pouco. Porque o comunismo brasileiro de modo geral é estalinista, nós estamos quase setenta anos atrasados até no comunismo...

Continua abaixo...

Comentários

 
Entrevista/Literatura


Leo Gilson Ribeiro - Apostando na literatura Brasileira
(Parte 2 - Final)

Ana Lúcia Vasconcelos

P. - Até no comunismo?
Léo - Em tudo. Veja, no Japão você tem uma máquina pequenina para controlar o televisor. Agora na parede você pode tomar a parede inteira se você quiser com a tela. E mais uma coisa ali na tela tem um bocal que tem um disco, igual ao do telefone e quando acaba, o programa, o filme, o musical seja o que for, sai um número e você anota o telefone e liga para a emissora diz o número de cópias que quer daquilo, diz o número da sua conta telefônica e daí a vinte minutos a fita cai nas suas mãos. (gargalhadas)

P. - Quer dizer que estamos anos luz atrasados?
Léo - É como eu digo, não estamos com reserva de informática, estamos com reserva de burrice. O Brasil é uma burrice que vai do Oiapoque ao Chuí (risos).

P. - Somos Premios Nobel?
Léo - Somos. Existem capitanias de bur