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Sal da Terra Luz do Mundo: Espaço de cobertura de eventos de arte- musica, erudita, jazz, teatro, dança, cinema ,artes plásticas , literatura que acontecem na cidade ; entrevistas e perfis com escritores, diretores de teatro, cineastas, artistas plásticos, dramaturgos, musicos, dançarinos, e ainda reflexão sobre temas de cultura, todas as áreas do conhecimento humano, saúde integral, e espiritualidade. Ana Lúcia Vasconcelos, jornalista, atriz, dramaturga. Campinas/SP/Brasil

 
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Quarta-feira, Dezembro 22, 2004

 
Espiritualidade


É Natal! Nasce a divina criança




¿De tempos em tempos, o Céu nos envia alguém que não é apenas humano, mas
também divino, de modo que, através de seu espírito e da superioridade de inteligência, possamos atingir o Céu¿. Visari (século XVI).




Ana Lúcia Vasconcelos


Os profetas antigos anunciaram a vinda do Messias, Aquele que libertaria o povo, que andava nas trevas do pecado, Aquele que iluminaria o mundo com sua Luz e que diria de si mesmo: ¿Eu sou a Luz do mundo, quem anda comigo não vive nas trevas. Eu sou o Caminho-que leva ao Pai, sou a Verdade e a Vida. Quem me vê, vê meu Pai que me enviou. Quem come da minha carne e bebe do meu sangue viverá eternamente, o que significa que não mais haverá morte para quem se alimentar deste Pão vivo que veio dos céus. Eu sou a Porta, quem por ela entrar sentar-se-á à mesa comigo e cearemos juntos. Eu sou o Amor, quem quiser me seguir renuncie a si mesmo tome a sua cruz e me siga. Quando eu voltar, haverá ainda fé sobre a Terra?¿
O profeta Isaías vai profetizar: ¿O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; sobre aqueles que habitavam uma região tenebrosa, resplandeceu uma luz. Vós suscitais um gande regozijo, provocais uma imensa alegria; rejubilam-se diante de vós como na alegria da colheita. Porque o jugo que pesava sobre ele, a coleira do seu ombro e a vara do feitor, vós os quebrastes como no dia de Madiã. Porque todo calçado que se traz na batalha, e todo manto manchado de sangue, serão lançados ao fogo e tornar-se-ão presas das chamas; porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado; a soberania repousa sobre seus ombros e ele se chama Conselheiro Admirável, Deus forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz. O seu império será grande e a paz sem fim sobre o trono de Davi e em seu reino ele firmará e o manterá pelo direito e pela justiça desde agora e para sempre Eis o que fará o zelo do Senhor dos exércitos¿. (Isaías 9,1-6)


Mas não havia lugar para eles na hospedaria

Mas o que era esperado por muitos, na verdade quando chega não é aceito, não é acolhido, e Maria grávida da divina criança, acompanhada de José, vagam pela cidade de Belém a procura de um lugar para passar a noite e acabam encontrando um simples estábulo, fora dos muros da cidade, e lá, numa mangedoura vai nascer o Messias prometido, anunciado pelos profetas, esperado pelos estudiosos-os reis magos são na verdade estudiosos da espiritualidade e sabiam que a estrela indicava o local onde essa criança divina deveria nascer.
Vejamos como Lucas, um dos quatro evangelistas, vai relatar este fato inaudito, de suma importância para esta humanidade: ¿Naqueles tempos apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda a terra. Este recenseamento foi feito antes do governo de Quirino, na Síria. Todos iam alistar-se, cada um na sua cidade. Também José subiu à Judéia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e da família de Davi, para se alistar com sua esposa Maria, que estava grávida. Estando eles ali, completaram-se os dias dela..¿
¿E deu à luz seu filho primogênito e envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio, porque não havia lugar para eles na hospedaria. Ora, havia nos arredores, uns pastores que vigiavam e guardavam os seus rebanho nos campos durante as vigílias da noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes, e a glória do Senhor refulgiu ao redor deles e tiveram grande temor. O anjo disse:¿ Não temais, eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo o povo: hoje vos nasceu na cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura¿. E subitamente ao anjo se juntou uma multidão do exército celeste que louvava a Deus e dizia: ¿Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens objetos da benevolência divina¿.


ele nasceu numa mangedoura

Segundo os relatos a noite era de calma, de silencio, de paz, de louvor.Era uma noite santa, cheia de cantos de anjos, cheia de encantos onde dizem até a natureza parou em expectativa para receber o Divino Menino, a Doce Criança. Os céus se abriram para o Menino nascer, a criança nascer e os primeiros adoradores foram os pastores, que guardavam seus rebanhos nas proximidades e ainda os Reis magos, estudantes de espiritualidade que vieram de seus longínquos reinos guiados pela estrela, trazendo seus presentes simbólicos: ouro, incenso e mirra, para um Rei, que é Deus.



A estrela anuncia o Meu regresso

Mas vejamos como o próprio Jesus fala em mensagem a JNSR, uma vidente católica francesa, que recebe mensagens de Jesus, no livro Testemunhas da Cruz (volume 5- pág.122), intitulada exatamente: Natal de 1995, sobre este momento: ¿Os pastores e os Reis magos reconheceram a Minha Santa Presença na estrela brilhante de Belém. Em cada homem que me espera, também eu vejo a alegria brilhar como uma estrela: o anuncio do Meu Regresso. Esta noite de Natal será única, para cada um que Me espera. Irei viver o Meu Santo Nascimento em todos os lares em que deus é esperado. Não penseis que Eu estarei só, mas como outrora também hoje muitas portas se fecharão diante de Mim e o Menino-Deus tem necessidade de adoração¿.


adoração dos magos de Rubens

¿Apresento-vos a Santíssima Família, tal como ela mesma foi nesse Dia de Natal, o da Minha Santa Natividade. Eis a Minha Mãe Santíssima, MARIA cheia de graça. Eis o Meu doce pai, São José; ambos andam a procura de um teto, de uma presença afetuosa, de um acolhimento espontâneo. Nesta noite de Natal, continuaremos ainda os tres a mendigar: somos mendigos do Amor. Eu sou JESUS, o Filho de Deus Pai, o Filho de vosso Pai dos Céus. Eu sou JESUS, vosso irmão. Eis a minha Mãe e eis o vosso Pai da Terra. Se Deus confiou a ele Eu, o filho do Pai Eterno, confia-vos a Meu Pai São José. Nós estamos os tres esta noite, naqueles que sofrem pelo frio a dormir no solo gelado de vossas ruas, à porta dos corações tão frios como uma sepultura¿.
Estamos como os que vivem isolados de todos; a lepra das suas doenças é menos repugnante que a vossa indiferença.Estamos em toda essa solidão das prisões, dos hospitais, como os pobres, os rejeitados, os marginalizados.Estamos, esta noite com os mais pobres: sim, com os que se decidem ainda a ignorar a partilha da Minha Santa Eucaristia, o Meu Pão da Vida; o único Pão que sacia todo homem.Os que Me rejeitam, rejeitam a Vida.Aquele que vem a Mim, não mais terá sede, porque Eu sou a Água da Vida.
Sim, esta noite somos Nós, os Três, que batemos à vossa porta; e se uma porta se abre a um dos Meus pobres é a Nós, os Três que vós acolheis; sim, JESUS, MARIA, JOSÉ estão presentes nesse pobre.




Minha filha, se o Mundo aceitasse este Fogo de Amor que arde em Mim, eu mesmo incendiaria a todos os corações com o Meu Amor tres vezes santo; os corações brilhariam como frutos amadurecidos, a abrirem-se todos ao mesmo tempo.Esta explosão de alegria seria ouvida pelo Nosso Pai dos Céus.
Assim libertareis o Amor, há tanto tempo prisioneiro na estreiteza dos corações, há tanto tempo cativo por aqueles que não o tem sabido partilhar; tão ignorado, mas a existir, mesmo nos corações mais rebeldes à Minha Misericórdia Infinita e ao Amor das Minhas almas queridas, inteiramente consagradas a Deus.
Vê, Minha Filha, a intensidade do Meu Amor, contempla este Fogo que Me abrasa, que contém toda a energia do mundo, encarquilhado no meu Sagrado Coração como os filhos prestes a nascer para a vida e a esperar impacientemente, no seio da mãe, a hora da sua própria libertação. O seu grito de Amor, é o seu primeiro vagido. É o seu primeiro agradecimento a Deus.O seu primeiro nascimento está já nesse encontro com Deus que ele conhece e que irá seguir, com toda a liberdade, guiado interiormente.A sua estrela é o seu Deus; e ela brilha em cada recém nascido, como a estrela de Belém.
Sim, Eu aguardo a hora em que vós mesmos Me entregareis aos vossos corações.Eu venho de novo, com o Meu Corpo de Glória receber o vosso grito de entrega: Vem, Senhor Jesus! Com a vossa aceitação total, enfim! Com o vosso próprio nascimento para a Vida em Deus, se cumprirá a Redenção total, final, tão esperada.
Por conseguinte, a Hora da entrega irá cumprir-se num ultimo grito que irá ressoar bem fortemente, como o eco que se repete e se propaga, ate as idades mais remotas, para chegar até esse dia Santo, iluminado pela Glória de Deus Tres Vezes Santo, em que as próprias montanhas gritarão:
¿Maranata Tha, vinde a nós Senhor, vinde depressa!¿
Então a Igreja renovada, Cidade Maravilhosa devidamente preparada como esposa dirá: ¿Vinde, Senhor JESUS!¿ O Senhor ocupará a Nova Jerusalém e dir-vos-á:
¿Sim, Eu venho, eis-Me aqui!
Filhos reinai Comigo em toda a Terra.
Santa para sempre.¿
Diante de Vós, Senhor,
Nós nos prostramos.
A Vós a Honra, a Glória e o Poder
Pelos séculos dos séculos
Amém.¿

E o menino crescia...

¿E o menino crescia em sabedoria e a graça de Deus repousava nele¿.E mais tarde, o Príncipe da Paz vai devolver a visão aos cegos, curar leprosos, fazer os paralíticos andar, os mudos falar, e os surdos ouvir, os mortos voltarem à vida. Andava no meio do povo falando do amor e da paz entre os homens, falava do Reino do Céus com a ternura de um Deus. Mas, Ele que viera para os seus, foi compreendido. E agora Jesus é o Cordeiro Imolado o que vai dar a vida pelas suas ovelhas. Mas como predissera, em tres dias vai reedificar o templo que afinal não é o templo de pedra como os judeus acreditavam, mas o templo do seu corpo, e ressuscitado, mostra-se aos seus discípulos que o vêm ascender aos céus de glória junto do Pai e do Espírito Santo, a Trindade Santíssima.
Mas prometeu que um dia voltaria, para estabelecer seu Reino de Paz. ¿Será que encontraria fé sobre a Terra?¿ Incansável, vendo que as ovelhas se perdem enredadas nas ciladas do seu inimigo mortal, a antiga serpente, ele manda novos profetas. E ao longo desses dois mil anos manda sua Mãe Maria Santíssima, anjos e santos que vão repetir aos modernos apóstolos, sua mensagem de amor ao povo.
Recentemente a partir da década de 70, Ele mesmo começa a aparecer, se revelar a videntes, a quem escolhe como as mensageiras desses últimos tempos: em Dozulé (França) à Madalena Aumont, na mesma cidade àquela que se assina Je Ne Sui Rien, à Vassula Ryden, em Bangladesh , depois na Suíça e atualmente, em Roma onde ela mora.
São mensagens longas, maravilhosas que confirmam os Evangelhos, a sua Boa Nova atualizam-no, revelando seus insondáveis mistérios a todo aquele que abrir o seu coração e se decidir a seguí--lo e ajudá-lo na conversão das almas.
No dia 11 de outubro de 1992 disse o seguinte à Je Ne Sui Rien numa mensagem intitulada: Deus informa-vos, no livro Testemunhas da Cruz, vol. II págs 125 a 132:
¿Todos vós estais disso informados: PRIMEIRO pela Graça de sua Filha Bem amada, a mãe de Seu Filho a Cheia de Graça, a Toda Pura. SEGUIDAMENTE, Deus continua a servir-Se de Almas Portadoras de Suas Mensagens, como os Antigos receberam a Mensagem da Chegada do Messias, o filho de Deus Altíssimo, à vossa Terra: o Seu Nascimento terrestre. As Almas escolhidas do Pai têm, também elas, a Missão de informar o Povo de Deus a respeito daquilo que Deus VOS prepara para receber BREVEMENTE: A VINDA DE Seu Cristo em Glória¿.

Como as noticias num jornal

¿Deus informa-vos tal como se escrevem as noticias num Jornal, Deus escreve NAS vossas Almas o que o Povo de Deus deve aprender sobre o que deve acontecer brevemente. JESUS é o REI dos Reis e o SENHOR dos Senhores. É o Filho do Altíssimo, o Salvador Legítimo, a quem Deus Pai deu TODOS os Poderes, tanto no Céu como na Terra. Deste modo, Deus pede que se anuncie ao mundo a Próxima Vinda em Glória de JESUS de Nazaré, Senhor e Rei do Céu e da Terra e de todo o Universo Visível e Invisível. JESUS VEM de novo para cumprir o que, desde todos os Tempos, os Profetas antigos e MARIA Mãe de Deus e Rainha dos Apóstolos anunciaram¿:

¿O Céu e a Terra estão cheios da Glória de Deus¿.

¿O PAI vai entronizar o FILHO nesta Terra que Jesus conquistou por tão alto preço e que Lhe pertence desde a Fundação do MUNDO. Ele é Rei e Senhor, sentado no céu, à Direita do Pai. É Justo que Se sente no Trono que Deus Pai lhe reservou dede a Origem dos Tempos, para reinar como Mestre de Amor sobre todo o Mundo Visível que a Ele regressa¿.
CONCEDO a Meus Servidores a AUTORIZAÇÃO de anunciar isto mesmo ¿sem lhe conhecer nem o Dia nem a Hora¿, pois também isto deverá ser escondido. O Deus de vossos pais instrui pouco a pouco, a afim de não deixar NINGUÉM na IGNORÂNCIA do que deverá chegar ¿NA AURORA DE AMANHÿ.
É grande DOM de Deus que vos irá chegar. Uma PURIFICAÇÃO das mais oportunas de todos os Tempos, pois é NECESSÁRIO receber o REI dos Reis numa Terra PURA não manchada por todos os pecado dos de todos os séculos que separam o Mundo em dois, desde a Origem dos Tempos.
Por isso a Purificação reunirá as duas extremidades desse círculo que se despedaçou, que foi aberto pela LOUCURA destruidora dos Homens, LOUCURA dos costumes, LOUCURA de desobediência a Deus... que continua COMO UMA CHAGA incurável.
Eu venho reunir o que foi separado no decurso dos séculos: o Amor das Criaturas de Deus como o Amor Imenso, Infinito, Inesgotável de Deus Criador, Redentor e Consolador, em toda a Sua Majestade.
Concederei Graças inumeráveis aos que seguiram os Meus Mandamentos e derem a importância necessária ao seu cumprimento. Um Lugar Santo e Abençoado pela Mão do Pai NÃO PODE receber SENÃO Seres cheios de Amor e da Santidade de Deus. POR ISSO Deus limpará ¿o Ar em que se malhar a Semente¿.
e a própria Semente¿.

Purificação por atos de amor gratuitos

Na seqüência Jesus fala que toda a Terra deverá ser santificada e que todos vão receber a benção de Deus Tres Vezes Santo e que isso vai acontecer nas nossas almas limpas de todas as manchas. E que Deus vai purificar, santificar, recompensar todos os justos que já chegaram a esta santificação.
¿Jesus pede-vos já que vos purifiqueis por atos de Amor gratuitos, necessários na vida cotidiana: Amar os outros até o limite das forças. Deus deu a SUA VIDA por Amor de vós.¿
E mais adiante: ¿Deus serve-se de todas as Suas Almas oferecidas a este Tempo TÃO DURO sobretudo a favor daqueles que rejeitam o Amor de Deus. Deus ama-vos a TODOS e o Pecador continua a ser AQUELE que faz TANTA pena a Seu Sagrado Coração: é o objeto de Sua tristeza e a Chaga do Seu Sagrado Coração ESCANCARA-SE para lhe perdoar: ¿Ó Homem, que passas ao lado do teu Deus, sem sequer sentires a Sua Tristeza, virás agora lançar-te nos Meus braços inteiramente abertos, a fim de receberes o Meu PERDÃO?¿



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Segunda-feira, Dezembro 20, 2004

 
Ensaio/ Reportagem

I love Rio ou
Ai de ti Copacabana


Ana Lúcia Vasconcelos

Eu estava lendo Para Sair do Século XX, do Edgar Morin, filosofo francês, ex-militante do Partido Comunista Francês, ex-combatente da Resistência Francesa e ferrenho contestador do estalinismo, intelectual lúcido e vivendo na época, acredito que continue, em Paris onde nasceu em 1921 onde era (também na ocasião) diretor do Centre National de la Recherche Scientifique, para escrever uma matéria sobre o livro, quando, no final da noite de segunda feira de um dia de 1994, vi o programa Roda Viva da TV Cultura-infelizmente não consegui a informação sobre o dia exato porque a emissora não fornece este tipo de informação por telefone e via email eles não respondem.


Edgar Morin jovem


Fiquei estarrecida com o que ocorreu ali e decidi escrever sobre o Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, cheia de encantos mil, coração do meu Brasil e sobre - na época a atualíssima, intervenção do Exército, não exatamente para ajudar a policia carioca na luta contra o crime organizado, mas para tirá-la de cena, já que contaminada, amalgamada, cúmplice dos criminosos.
Este era o tema da entrevista com o cientista político Hélio Jaguaribe militante das esquerdas mais esclarecidas brasileiras, filho de pais exilados pela ditadura Vargas e, portanto com experiência de luta política na família desde os cinco anos, quando os pais foram para o exterior. Carioca Jaguaribe viveu 14 anos fora do Brasil e cinqüenta no Rio, (até aquela época) autor de vários livros importantes, e um dos mais atuantes intelectuais naqueles anos de chumbo pós 64, de terror e tortura. Na época Hélio Jaguaribe estava na crista da onda da imprensa nacional, patrulhado por seus pares, quase trucidado por ter aceitado um ministério no governo Collor.


Hélio Jaguaribe


Aliás, esta história ele contou, já no final do programa, quando os jornalistas aproveitaram o gancho da pergunta sobre a aceitação de possíveis cargos no governo de Fernando Henrique Cardoso. Jaguaribe disse que não ia aceitar cargos por estar comprometido com uma pesquisa importante que ia realizar nos próximos anos, mais exatamente um estudo crítico sobre a História do Brasil. E sobre o ministério Collor a história foi a seguinte: foi chamado pelo então presidente para ser notificado que as pessoas que ele criticara (em artigos na imprensa carioca) haviam sido retiradas e ele (Jaguaribe) devia auxiliá-lo (Collor) no seu governo.Ele aceitou, mas assim que o barco começou a fazer água, saiu. Ficou arrependido, patrulhou um jornalista? Não, respondeu Jaguaribe, mas deixou registrado, não exatamente na seqüência, que considerava o Brasil ingovernável sem uma reforma do Legislativo.

Ver? veremos...

Voltando a Morin, mais exatamente para o primeiro capítulo deste livro que é um balanço dos últimos 70 anos do século XX e que tem este título: Ver? Veremos... onde ele faz um breve relato de um acontecimento banal de sua vida cotidiana, para provar como podemos ver e não ver, de como nossos olhos, nossa percepção pode nos enganar.
Um dia, atravessando uma rua de Paris, viu um carro pequeno avançar o sinal e atropelar um motociclista que atravessava tranqüilamente o sinal verde. Quando se aproximou para dar testemunho em favor da vítima ficou sabendo que na verdade fora o motoqueiro que avançara o sinal e batera na traseira do carro, chegando a ver o amassado. Ou seja, comprovou um fato conhecido seu e que já demonstrara em obra anterior: o componente alucinatório da percepção que pode ser provocado ou orientado por nossa afetividade, mas pode resultar simultânea ou principalmente das estratégias ou das estruturas de racionalização que utilizamos em toda a percepção.
Por isso ele acredita que ¿o risco da ilusão¿ não provëm apenas das perturbações afetivas ou/ e das estruturas mágicas/arcaicas do espírito humano, mas da racionalidade própria de toda a operação de conhecimento. Isso significa que devemos desconfiar do testemunho dos ¿nossos olhos¿ pois não são eles que vêm, mas é o nosso espírito, por intermédio dos nossos olhos.
Daí Morin dizer que é preciso ser prudente não apenas em relação ao depoimento de outrem, mas daquele que parece mais digno de confiança: o nosso próprio. Por isso ele propõe uma estratégia de conhecimento, onde ¿como sabem os historiadores e policiais, nada tem valor absoluto isoladamente, nem mesmo a mais sincera das percepções¿. E Morin reflete sobre a necessidade de se saber ver e explica como se fazer.




Morin

Para saber ver, ele diz, é preciso saber pensar o que se vê. Saber ver implica, pois, saber pensar, como saber pensar implica saber ver. Mas saber pensar não é alguma coisa que se obtém pela técnica, receita, método. Saber pensar não é só aplicar a lógica e a verificação aos dados da experiência.
É preciso, segundo ele, ¿compreender as regras, os princípios que regem o pensamento e que nos faz organizar o real, isto é selecionar, privilegiar certos dados e eliminar, subalternizar outros. Precisamos adivinhar a que impulsos obscuros, a que necessidades de nosso ser, a que idiossincrasias de nosso espírito obedece ou responde aquilo que consideramos como verdade.¿
Numa palavra, precisamos saber pensar o nosso próprio pensamento. ¿Precisamos pensar-nos ao pensar, conhecer-nos ao conhecer. E essa a exigência fundamental que não é apenas do filósofo profissional e não deve estender-se só aos homens de ciência, mas deve ser a de cada um e de todos.¿

Verdades e mentiras

Muito bem e o que isso tem a ver com a entrevista do Hélio Jaguaribe sobre a intervenção do Exército no Rio de Janeiro, para combater os traficantes que tomaram os morros e mantém a população como reféns, enquanto lhe oferece guloseimas sob a forma de proteção que é afinal opressão, domínio?
Pois pasmem: o Roda Viva de 1994 foi exemplar no sentido de demonstrar o conteúdo alucinatório das percepções das pessoas ali presentes, a ponto do âncora do programa, o jornalista Heródoto Barbeiro, a certa altura perguntar aos jornalistas cariocas que eram maioria ( Eduardo da Silva, coordenador da reportagem da sucursal do jornal O Estado de São Paulo, Ricardo Boechat, editor de O Globo, outro que lamentavelmente não anotei o nome, de O Dia e Luis Weiss, paulistano sem especificação de veículo, se eles estavam falando da mesma cidade.
Ou seja, parece que eles estavam vendo uma cidade diferente da descrita pela mídia em geral e pelo cientista político Hélio Jaguaribe em particular. Aliás, uma das primeiras perguntas do Boechat foi esta: o senhor mora no Rio de Janeiro? A que Jaguaribe respondeu contando aquela historinha que narrei no inicio, ou seja, fora os 14 anos que passou exilado com os pais, ou exilado por ele mesmo, vivia ha exatos cinqüenta anos no Rio.
Digamos que cinqüenta é um bom número para uma pessoa medianamente inteligente saber ¿duas ou tres coisas¿ a respeito de qualquer coisa. Mas no caso especial do entrevistado-pessoa culta, inteligente, civilizada, um intelectual no verdadeiro sentido do termo, engajado com as causas mais justas da Nação, um estudioso das ciências políticas e sociais, com livros publicados e uma vida dedicada ao país, é suficiente para ter idéias claras sobre qualquer coisa, especialmente sobre sua, digamos, cidade natal.
Pois o Eduardo da Silva chegou insinuar se ¿tudo que estava sendo veiculado sobre o Rio de Janeiro não era um pouco coisa da mídia, manobra das elites (elites) porque veja só: o Rio de Janeiro era o único Estado que tinha prendido todos (todos? quais?) os bicheiros que tinha prendido um juiz que tinha detectado fraude nas eleições,etc. Enfim , se esta coisa de crime organizado que se dizia não seria exagero da oposição?Afinal porque só o Rio estava sendo escolhido se havia corrupção em todo o Brasil?
O jornalista de O Dia, na mesma linha dizia que sinceramente ele que também era carioca não sentia isso que o professor Jaguaribe sentia (daí ter perguntado se ele morava no Rio) essa coisa opressiva, com assaltos e coisa e tal, na cidade do Rio de Janeiro que ele que não considerava que lá houvesse ¿crime organizado¿.
Perplexa, não acreditando no que estava acontecendo ouvi o fleumático Jaguaribe responder, dizendo não conhecer uma única pessoa que não tivesse sido assaltada pelo menos uma vez no Rio, e que sua mulher escapara da morte por milagre, já que estivera sob a mira de um revolver durante duas horas na casa dos pais. E quanto à ¿organização¿ do crime no Rio, ele também não acreditava que fosse nos moldes da organização do Exercito, por exemplo, ou da Igreja Católica, pois afinal neste particular os chefões do tráfico se matam com tanta eficiência que não dá para manter uma hierarquia, ou seja, a hierarquia até existe, mas com alta rotatividade dos mandantes.
E a coisa foi nesta linha, à exceção das perguntas dos jornalistas paulistas que tentavam uma reflexão mais profunda sobre a problemática. Os cariocas do começo ao fim do programa insistiam que as coisas não eram bem assim, como se fosse um complô armado pelo resto do país contra o rio e eles como advogados do diabo-aqui o sentido é literal-defendiam sua cidadela com unhas e dentes.
No começo fiquei irritada, mas na seqüência entrei na onda da condescendência do cordial Jaguaribe e viajei no passado me lembrando da minha estadia (morei alguns meses no Rio em 86), quando a cidade ainda era nas palavras do escritor e jornalista carioca Eduardo Novaes ¿um inferno relativo¿ e de como eu quase enlouqueci com a mistificação dos cariocas¿, com o conteúdo alucinatório das suas percepções onde verdades viram mentiras e mentiras, verdade

Inferno ou paraíso?

Até então o Rio para mim, como turista, eram bons hotéis, maravilhoso astral, leveza para contrastar com o peso de São Paulo, praias, Cabo Frio, Búzios, Angra dos Reis, Paraty, enfim era o paraíso. Bem diferente é morar no Rio, trabalhar lá. Começa que ninguém entende como, porque, se troca o Eldorado (São Paulo) por aquele balneário (é assim que os cariocas chamam o Rio). Era isso que os jornalistas da Bloch me perguntavam. Eu dizia apontando para a paisagem deslumbrante que se tem do prédio da Manchete no Flamengo defronte ao mar: para olhar isso aí.


cidade maravilhosa

Eldorado, a palavra, confesso ter lido nos relatos dos viajantes estrangeiros quando se referiam ao Brasil, a terra onde se plantando tudo dá. Aqui eles se referiam a São Paulo, terra onde você tropeça em pepitas de ouro e onde todos são magnatas. Esta, aliás, foi outra palavra que ouví, ressuscitada pelos cariocas. Paulista para carioca é magnata.
Então ficava no ar a pergunta: o que uma magnata paulista está fazendo aqui perdida no Rio de Janeiro? E eu que só queria descansar um pouco da selva de pedra, tinha que ficar justificando. Porque, item dois: a paisagem é deles, o balneário é deles.
O diretor de uma editora de livros de arte quando soube que eu era paulista nem disfarçou, recostou na poltrona do seu gabinete refrigerado, respirou fundo e disse: paulista, eu já confio mais. Em seguida me expôs o plano: eu devia fazer um texto sobre Paraty - como, aliás, todos os redatores que ali estavam-de graça, tipo teste, porque eles pretendiam lançar um livro de arte sobre a bela cidadezinha colonial. Certo? Um teste de redação para pessoas de experiência de mais de vinte anos de jornalismo e centenas de matérias publicadas até internacionalmente. Enquanto eu me levantava da poltrona pensava: é carioca, não confio nada, com as devidas desculpas aos cariocas que não tem exatamente este perfil.
Mas iso era apenas o começo da quebra da imagem paradisíaca que eu tinha do Rio. Fiquei muito abalada com a miséria que grassa naquelas bandas, especialmente em Copacabana e adjacências que era onde eu estava morando. E o mais terrível é que a miséria convivendo com o luxo mais acintoso dos hotéis e prédios e lojas, etc. É a democracia brasileira. Mas fiquei especialmente tocada com um rapaz negro que andava com uma turma de homens feitos que viviam bêbados dia e noite. Na seqüência praticamente adotei o menino (ele tinha 19, mas um leve retardo o que devia dar uma idade mental de 14) dando comida, dinheiro, ele tinha uma ferida na perna, e vivia com uma faixa. Cheguei a levá-lo a um hospital para fazer curativo até que resolvi fazer uma coisa mais definitiva e liguei para a família dele (não acreditava que ele tivesse uma) que veio buscá-lo de carro. Pasmem, os primos, com quem ele morava, tinham uma joalheria de objetos de prata no morro não sei das quantas, já não me lembro apesar de ter ido visitá-lo conforme prometera.
Vocês sabem o que é subir um morro carioca naquele calor infernal: é o calvário. No Rio você não desce aos infernos, você sobe. Mas o eu quero contar é o seguinte: a avó do garoto-Marcelo-perguntou lá pelas tantas se nós-eu branca, magnata paulista, 42, ele negro, com 19, mas idade mental de 14, eu morando em Copacabana, bem vestida, com dois perfumes franceses - inventei isso no Rio para suportar o cheiro das calçadas, ele vestido de molambos, (caído na sarjeta) nos tínhamos conhecido na praia.
Sabe que apesar do problema mental o garoto olhou para a avó com uma cara de ¿meu Deus o que eu tenho que suportar¿, e eu pensei: na praia? Bom se você quiser foi na praia de Copacabana-eu na calçada e ele na sarjeta.Ai de ti Copacabana, ai de ti Rio de Janeiro, ai de nós Brasil com este contingente de negros, outra cultura, convivendo com brancos inteligentes e cultos ou ignorantes e canalhas e/ou inteligentes e canalhas, negros ignorantes ou cultos idem, ou ignorantes, mas maravilhosamente afetivos, vivendo alucinados (será o sol na cabeça?), seria preciso um estudo sério sobre essa miscigenação para entender o que se passa.
Só para resumir (a história é longa) o problema do garoto era mais embaixo-fora bem sucedido - daí a classe na sarjeta-mas a mammy o rejeitava (vi com meus próprios olhos) e o papy era viciado em drogas (que droga, hein!). Só restava o auto exílio nas sarjetas de Copacabana, um inferno relativo. Ou seja, uma ovelha branca no meio das ovelhas negras, mas todo mundo dizendo o contrário.


Continua abaixo...

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Não vi e não gostei

E finalmente vou encerrar (tem muito mais) com o último episódio desta matéria que se poderia chamar: Subsídios para se entender a alma carioca. Fiz uma matéria para a revista Manchete, sobre a ópera O Navio Fantasma, de Richard Wagner dirigida pelo Gerald Thomas com elenco internacional que foi um refresco no meio de tanta loucura. Depois de várias peripécias - o fotógrafo não foi no dia marcado para a imprensa fotografar (que o Gerald também não é fácil, aliás, acho que tem razão porque senão fica uma balbúrdia com fotógrafos invadindo a cena e atrapalhando o ensaio, etc) do chefe de reportagem (numa crise alucinatória) ter cogitado de um possível romance entre eu e o protagonista da ópera (o maravilhoso barítono Carmo Barbosa) digamos, se fosse ele não tinha nada com isso, mas não era, eu estava just fazendo uma matéria e ele estava confundindo alhos com bugalhos, a minha matéria, séria, não foi publicada.
Em seu lugar saiu uma debochada, bem ao gosto dos cariocas com este título: Senta que o Gerald é manso. Para quem não sabe, Senta é o nome da protagonista feminino da ópera. E a minha cara com o elenco, com o Gerald, comigo mesma no espelho?Sentiram o drama? Mas o pior foi o título da matéria (uma das) que saiu no jornal O Dia, aquele cujo editor agora no Roda Viva dissera que ¿as coisas no Rio não eram bem assim (essa violência, este crime organizado, alguém viu isso por aí?): Não vi e não gostei. Digamos, parafraseando De Gaulle: não é um jornalismo sério¿.
Ouví gente repetindo a frase nos elevadores, porque de fato o Rio é uma província, um balneário como eles dizem, e aqui não falo como pejorativo apenas constatando o fato, todo mundo fica sabendo de tudo na mesma hora. Assim, quando saí do Rio, de volta para São Paulo, sem olhar o mar, estava com uma conjuntivite que não cedia apesar dos remédios. Na verdade, até uma criança de cinco anos sabe disso, era apenas a minha vontade de não ver mais aquela loucura, aquela mistificação, aquela miséria do Rio de Janeiro, ao lado da riqueza, e da beleza indescritível da cidade,
Mas foi sair do estado, entrar em São Paulo e a conjuntivite milagrosamente desapareceu. Caí doente tres dias delirando sem febre. Foi o balanço trágico a minha estadia na cidade, na maravilhosa São Sebastião do Rio de Janeiro, aquela que nos seduz. Não queria por um bom tempo, ver o Rio pintado de ouro, numa gravura na parede.
Mas olha como é a vida: em maio de 92 tive que voltar lá para fazer uma entrevista com o Leandro Konder, filósofo e professor de filosofia da educação de duas universidades cariocas, especialista em marxismo, para minha tese de mestrado. Preparei-me durante dois meses para voltar ao Rio. Finalmente comprei e fui. Já na Rodoviária de Mogi Mirim, onde morava na época, encontrei uma jornalista da sucursal carioca da Veja e fomos juntas já enturmadas. Detalhe importante: morando há cinco anos em Mogi Mirim nunca encontrara um ou uma jornalista na Rodoviária, nem mesmo colegas da cidade, quanto menos uma que trabalhava no Rio. Lá, ela me fez esperar com ela, carona do namorado, contatado pelo celular. E eu estava novamente naquele Rio com pessoas afáveis, maravilhosas, amigas, e aquela antiga sensação de leveza e solidariedade dos cariocas. Eles me deixaram na porta do prédio onde eu fiquei hospedada.
No dia seguinte, desci para tomar café e entrei ao acaso no primeiro café que encontrei. Estava novamente em Copacabana e com vontade de curtir o Rio como nos velhos tempos. Dois minutos depois eu estava conversando com a moça que tomava café ao meu lado, amiga do português, dono do bar. Ela era gerente de um restaurante que ficava ali perto, onde fui almoçar depois.Enfim, foram tres dias maravilhosos, era o Rio que eu amava, com pessoas solidárias, afetivas, comunicativas, como só la eu vi. No dia em que fui embora, desta vez querendo ficar-parada no semáforo da avenida Nossa Senhora de Copacabana esperando o táxi, ou aqueles famosos ônibus cariocas com ar condicionado, para ir para a Rodoviária, não me lembro, enquanto fazia o movimento de colocar a mala no chão para esperar o sinal verde, ouví uma voz de mulher me dizer: adorei suas unhas.


Fernando Pessoa


Nesta fração de segundos, em que endireitei o corpo, o que fiz olhando para as minhas unhas que diga-se estavam realmente bonitas, ¿ a realidade plausível¿ como disse Fernando Pessoa no seu poema A Tabacaria, ¿caiu de repente em cima de mim¿. Imagina-te na multidão, em plena avenida, ser escolhida por alguém que diz que adorou suas unhas. Primeiro quem quer que fosse, não poderia ter visto minhas unhas. Este movimento que durou uma eternidade me deixou chocada, emocionada, reconciliada com o gênero humano. Era Rio puro, era o Brasil dos velhos tempos, que maravilha!
Só então me voltei para olhar, esperando o quê? Era uma voz bonita, forte, esperei ver uma mulher bem vestida, carioca típica, cheia de bijuterias, não sei porque me veio esta imagem. Surpresa: era uma mulher mulata, simpática, pobremente vestida, mas com grande classe. Perguntou se eu era médica (eu estava de azul e branco) porque ela tinha sido enfermeira. Sinceramente não me lembro mais o que ela disse na seqüência porque eu viajei no lance, mas me recordo de algumas frases desconexas, e o sinal abriu. Nos despedimos, ela me desejou boa viagem-a mala não deixava dúvidas-e eu saí do Rio de Janeiro em estado de graça, desta vez olhando o mar.
Vocês podem perguntar: em estado de graça só porque alguém falou com você na rua? Não, porque em várias cidades daqui e do exterior isso me aconteceu e acontece. Apenas no Rio eu tenho a sensação-tinha porque faz tempo que não vou lá-de estar no lugar que tem as pessoas mais comunicativas e simpáticas do mundo. Daí que dá para entender as perturbações de percepção dos jornalistas cariocas, no caso especifico que estou relatando-quando eles insinuam que ¿não era bem aquilo que acontecia lá¿. Acontece que acontecem coisas terríveis ao lado de coisas maravilhosas-é um povo muito aberto o que às vezes dá samba. Merece um estudo sério.
De qualquer forma dá para perceber que o morro é só a ponta do iceberg: a parte submersa que é 90% está na planície e não apenas no Rio, está no Brasil todo, como Medellín é a parte visível do iceberg do narcotráfico boliviano. Enfim a pergunta é: por que o Rio, mais exatamente os morros cariocas foram os escolhidos, ou melhor, por que eles se deixaram escolher?


Pensando, como pede Edgar Morin, eu tenho algumas hipóteses: primeiro o Rio, ao contrário de São Paulo-que tem uma tradição de trabalho-tem uma tradição de lazer e isso por vários motivos. Por ser a cidade maravilhosa-é difícil tirar os olhos dela.Depois por ter sido sede, desde os seus inícios do governo federal-primeiro da Corte de Dom João VI, depois capital federal, terra onde grassava fácil a corrupção, os favores, as propinas. Terceiro, é um dos mais famosos balneários do mundo, com turismo internacional correndo o ano todo, com gente em trânsito, em viagem e você sabe como é estar em trânsito? É estar descompromissado, é estar desligado da realidade, é estar curtindo uma, é estar em transe. Daí as perturbações de percepção dos cariocas e a impressão ¿que as coisas não são bem assim¿. A abertura do Rio é o seu calcanhar de Aquiles, seu ponto fraco, a brecha por onde entram todas as coisas-boas e ruins.
Mas aguardemos os próximos capítulos da novela. Enquanto isso fico com a frase, citada por Edgar Morin sobre esta problemática toda de saber ver e saber pensar o que se vê de Ortega y Gasset: ¿No sabemos lo que nos pasa, y eso es lo que pasa¿.

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Psicanálise Integral

Estar em contato com a vida em nosso interior
eis o principio da sanidade


Joseph Ghougassian

Neste artigo Joseph Ghougassian, professor de Psicologia da Universidade de San Diego, (USA), analisa a obra de Norberto Keppe psicanalista e fundador da Sociedade Internacional de Trilogia Analítica (leia mais sobre o assunto em artigo na seqüência) e autor de diversos livros como: A Libertação; A Nova Física da Metafísica Desinvertida; Metafísica I-A Libertação do Ser; Metafísica II-Fenômenos Sensoriais Transcendentais; Metafísica III-Cura Através das Forças Energéticas; A Libertação da Vontade (A Libertação do Livre Arbítrio); A Libertação pelo Conhecimento (A Idade da Razão); Sociopatologia (Bases para a Civilização do 3o. Milênio);Trabalho & Capital;A Libertação dos Povos- A Patologia do Poder; A Decadência do Povo Americano ( e dos EUA);O Reino do Homem -Volumes 1 e 2; Contemplação e Ação; A Glorificação;Trilogia; A Consciência; Auto Sentimento ; Psicanálise da Sociedade entre outros.

Em minhas prerrogativas como fundador e primeiro presidente do Congresso Mundial de Logoterapia que teve lugar em San Diego, Califórnia em novembro de l980, convidei o Doutor Keppe para apresentar seus pensamentos para os congressistas.Desde então Keppe tem vindo várias vezes aos Estados Unidos e feito inúmeras conferencias nas universidades americanas. É muito difícil fazer justiça a um pensador de grande peso em um simples artigo considerando a profundidade, complexidade e vastidão dos pensamentos do autor. Ainda assim, é igualmente uma honra apresentar as idéias de um respeitado e genuíno colaborador do tesouro intelectual da civilização.A tarefa é um desafio.


A busca da própria identidade


As bases do pensamento de Keppe estão dispostas em tres ordens: filosófica, religiosa e científica. De certa maneira, essas tres dimensões do pensamento podem ser citadas para descrever a "Weltanschauung" de Keppe, isto é, sua visão de mundo.Como filósofo Keppe está definitivamente dentro da tradição socrática.Como Sócrates, Keppe acha que o começo da atividade filosófica consiste nessa citação: Conhece-te a ti mesmo, ou seja, a busca pela própria identidade. No entanto essa identidade não é algo exterior, estranho ou transcendente ao âmago do Eu. Imanência e interiorização são as características do individuo e a base da transcendência.

Se a filosofia de Keppe fosse classificada dentro de um período histórico, tendo-se em mente que essa classificação é limitada, eu iria compará-la a Aristóteles. Por exemplo, a teoria de Keppe sobre o conhecimento coincide com a de Aristóteles, que considera que o processo intelectual começa nos sentidos, com a percepção, e finalmente vai para a razão, onde encontra a vontade.


Aristóteles e Platão

Novamente Keppe chama o interior uma PSIQUÊ como Aristóteles. A teoria da psique denota a metafísica da alma, como uma doadora da vida ou agente animador. Alma no contexto de Keppe designa a força motriz que suporta a própria vida. Além disso, Keppe vê a psique do homem como um microcosmo e subscreve a teoria de Santo Tomás de Aquino, onde anima humana est quodammodo omnia-a alma humana é uma réplica do Universo em suas formas e vida, ainda que em miniatura.

Keppe dá um lugar proeminente à religião na vida do Homem. Religião não tem uma origem "cultural". O homem é em seu íntimo, uma criatura "religiosa". Se há várias cerimônias litúrgicas praticadas no mundo, isto é possível porque, em primeiro lugar, a religião é uma dimensão metafísica da realidade humana. Conseqüentemente existe uma maneira primordial de adoração, natural para a alma. Orar, reverenciar e arrepender-se são impulsos naturais. Assim Keppe escreve: "Religião é algo inerente ao ser humano, não algo social".

É um desfavor negar ao paciente o direito de trazer suas experiências religiosas no consultório do psicoterapeuta. Freud não teve sensibilidade quando ridicularizou a religião, considerando-a uma fonte da neurose. Ainda assim, nós somos uma civilização que foi construída na presença de Deus e nos seus preceitos.Nesse aspecto, o sentimento religioso de Keppe caminha lado a lado com a análise do mundialmente renomado psicólogo de Harvard, Gordon W. Allport, sobre as crenças religiosas.
Como um cientista que tem pesquisado o âmago da personalidade humana, Keppe tem uma personalidade sensível do mundo em todos os aspectos.


Boa, bonita e verdadeira


Para se compreender melhor a ciência de Keppe é bom analisá-la nas suas tres formas: l. Ele desenvolve uma visão científica do homem como uma entidade saudável e madura. Seguindo sua crença de que a existência humana é basicamente Boa, Bonita e Verdadeira, a antropologia cientifica de Keppe é otimista e positiva, diferentemente da psicanálise freudiana, que descreve a realidade humana em previsões derrotistas.

Freud nunca nos definiu essa realidade objetiva, nem nunca propôs algum modelo para sua realização.Em contraste, Keppe vê a realidade humana como genuinamente BOA VERDADEIRA e BONITA em sua essência. Imaturidade ou problemas de conduta ocorrem quando um individuo se desvia do seu interior, e começa a procurar a si mesmo externamente, em uma realidade diferente dela própria. Acredito que Keppe deve sua visão sobre a bondade humana , à influencia intelectual de Santo Tomás de Aquino.
O professor Keppe desenvolveu uma impressionante e cientifica explanação da etiologia das disfunções comportamentais. Novamente segundo a metafísica de Aquino, onde ens est verum, significando que a realidade, a realidade humana é verdadeira e a verdade é a realidade-veritas est quid est, Keppe desenvolve sua teoria sobre a patologia em termos de: 1. negação 2. omissão ou 3. deturpação da verdade e da realidade .Assim, ele escreve: "Doença é uma atitude de ataque à vida, é uma luta contra a realidade, é o desejo de acabar com toda a verdade. A doença psíquica orgânica é sempre conseqüência de uma oposição ao que é real".

Desta maneira, a sanidade consiste em estar em contato com a vida em nosso interior, e a doença surge quando a pessoa procura a razão de sua vida e de si mesmo no mundo dos objetos ou dos outros. Keppe afirma que a negação da sanidade causa ansiedade e sentimento de impotência, porque o individuo imerge num mundo que se revela como uma massa de força colossal, poderosa o bastante para aniquilá-lo.

A doença nos leva ao anonimato, um número na multidão, porque justamente é o resultado de um desejo consciente de negar omitir ou deturpar a verdade/realidade, id quid est-aquilo que é. A verdade/realidade é bondade, beleza, verdade da realidade humana, magnificente porque feita à imagem do seu Criador, Deus, o Onipotente e Perfeito Designer.

Semelhante ao filosofo existencialista Gabriel Marcel e ao fundador da Logoterapia, o vienense, Viktor E. Frankl, Keppe afirma que o homem contemporâneo sofre de uma enorme obsessão com o antropocentrismo e a teomania, que é o desejo de ser deus. Na verdade, esta é a posição intelectual de muitos seguidores da Escola do Estruturalismo. Por exemplo, Michel Foucault, indo um passo além da declaração da morte de Deus de Nietzche, declarou a morte do homem. Em resumo, Keppe reafirma sua crença no teocentrismo e na bondade do homem.

Para lidar com os problemas mentais e emocionais que atormentam o homem moderno, Keppe desenvolveu várias técnicas psicoterapêuticas. Suas idéias e técnicas preventivas são conhecidas como Psicanálise Integral. Ele assim a denominou para chamar atenção para o fato de que, mesmo tendo utilizado alguns conceitos da psicanálise tradicional, complementou as teorias técnicas de Freud com outras, inovadoras. As técnicas psicanalíticas de Freud são, até certo ponto, inadequadas para responder às necessidades do homem moderno, e não são consoantes com a nova e emergente imagem do Homem. As circunstancias históricas mudaram desde Freud. Assim, na base do mal estar do homem e da sua inabilidade para se ajustar à Realidade Verdadeira, está contraposta a emoção da INVEJA.

Keppe está em total acordo com Schopenhauer de que a origo et fons, ou seja a base da infelicidade, manifestada em forma de neurose, é a VONTADE. Há um sentimento insaciado no homem, causado pelo desejo insatisfeito e invejoso de tornar-se Deus. Mas isto é impossível. O homem é finito e Deus é infinito e perfeito. Será possível que Nietzche seja o responsável pelo mal -estar que perturba nossa civilização? Querer tornar-se Deus causa uma reação em cadeia de desintegração da personalidade: o individuo perde o contato com seu próprio interior e se torna alienado. A alienação psicológica aparece em tres formas: total/parcial negação da realidade e do interior, total/ parcial omissão e deturpação.


A verdade vem da boca
do paciente: é a dialética real



Para curar o paciente, Keppe tem o mérito de ter desenvolvido a técnica terapêutica da Análise Dialética, por vezes referida como Dialética Real. Basicamente o médico, no estilo de Sócrates, trava um diálogo dialético com o paciente, e através do questionamento socrático solicita respostas que estão contidas no inconsciente do paciente, mas que são, entretanto conscientemente negadas, omitidas e/ou deturpadas. A verdade finalmente vem da boca do paciente. Nesse aspecto o método de Keppe da relação médico-paciente é antifreudiana, pois não é autoritária.

Da mesma forma, seu método difere consideravelmente da terapia centrada no paciente de Carl Rogers e dos psicólogos humanistas. Ao contrário dessa abordagem, que consiste em conversar casualmente com o paciente para sentir seus antecedentes e seu contexto, Keppe, baseado em sua visão sobre as raízes da má adaptação comportamental, trava um diálogo socrático por meio do qual o paciente é levado a refletir sobre sua conduta e descobrir a verdade sobre suas disfunções.
Keppe chama esta técnica de INTERIORIZAÇÃO. Enquanto aceita a forma do diálogo socrático que acreditava ser a vida na Terra, uma sombra de um outro mundo, vivendo, portanto o homem em uma fantasia, Keppe chama de INVERSÃO e falsa dialética.
Para levar o paciente a efetuar a interiorização, através da conscientização da falsa dialética (ou dialética platônica) que ele usa, Keppe trabalha com a inversão do paciente. Por exemplo, o médico requer do paciente que reflita, isto é, que interiorize sobre a idéia de que há um grande valor na fantasia que é causa do seu estado de sofrimento mental e emocional e um grande valor negativo na realidade.

A reflexão leva definitivamente o paciente a perceber a ironia da situação e de sua livre e espontânea vontade, ele irá preferir a realidade à fantasia. A realidade nesse estágio vai apresentar-se com o relacionamento com o Criador. Santo Agostinho estava correto quando exclamou: fecisti nos at et cor nostrum inquietum requiestat inte, - "tu nos fizeste a Tua Imagem e nossos corações serão infelizes até que repousemos em Ti."

Um dos méritos da terapia psicanalítica do Professor Keppe é reconhecer os méritos, benefícios e conquistas da sabedoria religiosa. Muito antes que psiquiatras, psicólogos e terapeutas viessem à civilização, a religião estava curando a angústia emocional e mental das pessoas.

Eu dou as boas vindas às renovadoras opiniões do professor Keppe, e não tenho dúvidas que os psicólogos e filósofos americanos vão mergulhar em sua riquesa de percepção e sabedoria.

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Memória/Literatura



Alceu Amoroso Lima: o Tristão de Athayde
Um otimista incurável

(parte 1)

Entrevista inédita obtida do pensador, um dos grandes humanistas
que o Brasil produziu - considerado um dos brasileiros do século
em recente pesquisa realizada pela Revista Isto é - um ano antes da sua morte


Ana Lúcia Vasconcelos

Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, pseudônimo que adotou a certa altura de sua carreira de critico para justamente resguardar sua independência, um dos mais brilhantes humanistas que o Brasil já produziu, nasceu no Rio de Janeiro, em Petrópolis no dia 11 de dezembro de 1898. Em 1913 terminou o Curso de Direito e em 1919 começou sua vida de crítico literário em O Jornal onde ficou até 1945. Quando se converteu ao catolicismo e entrou para uma "arena mais participante da vida, não exclusivamente literária", pensou em abandonar o pseudônimo, mas sentia-se de tal forma solidário com o Tristão que se conformou em ter dois nomes, que, aliás, ele mesmo dizia, "nunca conflitaram um com o outro".

Escreveu dezenas de livros, alguns traduzidos para outros idiomas como o francês e o espanhol,tendo ainda traduzido importantes livros politico-religiosos como Noite de Agonia em França, Cristianismo e Democracia, O Homem e o Estado, os tres de Jacques Maritain, O Cristo de George Guyau e O Cura D' Ars de Henry Ghèon.

Entre as inúmeras atividades que exerceu durante sua vida-morreu em 14 de agosto de 1983, foi diretor da revista A Época, adido ao Ministério das Relações Exteriores, presidente da Cia de Fiação de Tecidos Cometa, crítico de vários jornais entre eles a Folha de São Paulo, jornal para o qual ainda colaborava, à época desta entrevista, presidente do Centro Dom Vital, diretor da revista A Ordem , presidente da Junta Nacional de Ação Católica Brasileira, membro do Conselho Nacional de Educação, membro da Academia Brasileira de Letras , presidente da Associação de Educação Familiar e Social, professor da Escola de Serviço Social dessa Associação e professor de Sociologia da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro onde foi reitor.


Com o fardão da Academia

Lecionou ainda Literatura na Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil e na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, co-fundador em Montevidéu, do Movimento Democrata Cristão na América Latina. Lecionou na Universidade de Paris (Sorbonne), foi diretor de Departamento da União Pan Americana (Washington) tendo realizado conferencias em várias universidades católicas americanas. Recebeu em 1953 o titulo de doutor Honoris Causa pela Universidade Católica de Washington e o Sierra Awards, prêmio anual conferido pela Franciscan Academy of American History.

Foi delegado do Brasil, na X Conferencia Comemorativa do Segundo Centenário da Universidade de Columbia tendo ministrado curso de Civilização Brasileira na Universidade de Nova York. Em 67 foi nomeado pelo papa Paulo VI, membro da Comissão Pontifícia Justiça e Paz, com sede em Roma tendo ainda sido Membro Associado Estrangeiro da Academia de Ciências Morais e Políticas do Instituto de França em Paris.

Em 1969 juntamente com dois outros jornalistas da América Latina e dois dos Estados Unidos, foi distinguido com o Mary Moors Cabot, o mais antigo dos prêmios de jornalismo internacional conferido aos profissionais de imprensa que se salientaram por sua contribuição a comprensão continental. Comendador da Legião de Honra (França) Alceu Amoroso Lima foi ainda distinguido com a Ordem de Santiago (Portugal) e a Ordem de São Gregório (Santa Sé).

Casou-se com Maria Tereza de Faria com quem teve sete filhos: Maria Helena, Lia (hoje irmã Maria Tereza O.S.B.), Alceu, Luis Alceu, Jorge Alceu, Silvia e Paulo Alceu . Teve netos e bisnetos. Colaborou no Jornal do Brasil e Folha de São Paulo. Autor de vasta obra começou a publicar em 1922: Afonso Arinos, biografia do autor dos famosos contos regionalistas Pelo Sertão.

No mesmo ano Alceu lançou um livro que classificou de "a crítica expressionista" para marcar reação contra, ou pelo menos uma superação da crítica meramente impressionista então dominante. Sua simpatia pelo Movimento Modernista de 1922 não vai vinculá-lo a nenhum dos grupos que logo se digladiaram, principalmente a partir da famosa conferencia de Graça Aranha em 1924 na Academia Brasileira de Letras.

Mantendo-se fora de qualquer capelinha literária procurou ressaltar a autonomia do fenômeno literário e a primazia do valor individual sobre qualquer dogmatismo ou antidogmatismo de escola ou de grupo.

Em 27 publica o 1o. volume de estudos contendo críticas de O Jornal em cinco séries, e em 28 lança o primeiro volume de Estudos Literários Em 29 publica Tentativa de Itinerário de Pio VI a Pio XI e Freud. Em 30 publica sua tese: Esboço de Uma Introdução à Economia Moderna.

Em 1931 vem à luz Preparação à Sociologia e Debates Pedagógicos. Em 1933 publica os livros Política; Contra Revolução Espiritual; Problema da Burguesia; Economia Pré-Politica e As Repercussões do Catolicismo. Em 33 lança Pela Reforma Social e Introdução ao Direito Moderno. Em 35 sai Da Tribuna e Da Imprensa; No Limiar da Idade Nova e Pela Ação Católica.

Em 36 lança O Espírito e o Mundo e Indicações Políticas. Em 38 publica a obra Elementos de Ação Católica e em 39, Contribuição à História do Modernismo. No ano de 1941 Alceu Amoroso Lima publica Tres Ensaios sobre Machado de Assis e em 42 lança tres livros: Poesia Brasileira Contemporânea, Meditação sobre o Mundo Moderno e Pela União Nacional. Em publica O Cardeal Leme e em 44: Humanismo Pedagógico.

Neste mesmo ano funda com outros a Livraria Agir Editora. E em 45 edita A Voz de Minas e Estética Literária. Em 46 publica O Critico Literário e em 47: Cristianização da Idade Nova e O Problema do Trabalho. Em 1950 publica Mensagem de Roma e em 51 o livro Existencialismo e A Europa de Hoje. Em 1954 lança dois livros: A Realidade Americana e Meditação sobre o Mundo Interior. Em 55 publica Pela América do Norte e em 56 mais tres: Introdução à Literatura Brasileira, Quadro Sintético da Literatura; A Vida Sobrenatural e O Mundo Moderno.

Em 64 publica Revolução Reação e Reforma e em 65 lança Pelo Humanismo Ameaçado (1o. volume de 1919 a 1926). Em 67 sai seu Discurso de Posse da Academia de Ciências Morais e Políticas do Instituto de França: L' Influence de La Pensée Française au Brèsil. Em 68 publica A Experiência Reacionária, e em 69 publica Adeus a Disponiblidade e Outros Adeuses; Violência ou Não; Meio Século de Presença Literária; Comentários a Populorum Progressio e Manuel Bandeira.



Em 71 sai Companheiros de Viagem e na seqüência muitos outros. Para saber mais sobre a sua vasta bibliografia, sua vida e legado há dezenas de sites na Google. Mas se voce quiser especificamente ter acesso a suas obras acesse este:

CentroBiblioteca "Alceu Amoroso Lima"

Há ainda o Centro Alceu Amoroso Lima, com sede em Petrópolis (RJ) criado com o objetivo de divulgar a vida e a mensagem de Alceu, que durante toda a sua vida teve um compromisso intenso com a liberdade, a justiça e os valores da pessoa humana, que voce pode conferir neste site:

Alceu Amoroso Lima para a Liberdade
E ainda, para saber detalhes da pesquisa realizada pela Isto É onde Alceu foi escolhido, entre outros, o Brasileiro do Século na área de religião, pode-se acessar este, entre outros.

Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde
ISTOÉ - O Brasileiro do Século

O primeiro encontro de
uma das últimas entrevistas



Esta entrevista realizada pouco depois de sua participação no programa Vox Populi (produzido pela RTC durante anos, uma espécie de embrião do atual Roda Viva) em 1981, foi com certeza uma das últimas que Alceu Amoroso Lima concedeu em sua vida. Vale contar como foi que ela aconteceu e porque permanece inédito até hoje, agosto de 2004. Acontece que Tristão de Athayde estava na minha lista de entrevistados para um livro de perfis de escritores, pensadores, poetas, dramaturgos que projeto publicar a algum tempo (na verdade republicar entrevistas e perfis meus publicados nos vários veículos em que trabalhei, em São Paulo e Campinas).

A chance surgiu quando soube que ele estava na casa de sua filha em Campinas, descansando, se recuperando da morte da mulher. Consegui, depois de vários dias de conversações com a filha, a promessa de duas entrevistas. Em geral faço de duas a tres entrevistas para fazer um perfil, com intervalos entre elas. Assim, me encontrei com Alceu Amoroso Lima pela primeira vez no dia 10 de novembro de 1981 e a nossa conversa (não gravada) durou cerca de hora e meia.

Ele me recebeu na casa de sua filha Silvia Afonso Ferreira, próxima à Hípica de Campinas, no jardim interno. Ficamos sentados num sofá de vime de dois lugares defronte a um imenso gramado, uns chorões ao fundo. A segunda entrevista aconteceu no dia 12 de dezembro do mesmo ano na mesma casa e desta vez gravei a conversa que durou mais de duas horas.

Não consegui articular mais que um terço das perguntas que havia preparado: ele estava com quase 88 anos e queixava-se de estar cansado. Triste ele me disse: "a minha infelicidade agora é ter perdido minha mulher". Mas apesar de tudo confessou-se um otimista incurável e citou a frase de uma mística inglesa com quem ele concordava plenamente: "não me permito deixar de ser otimista. As coisas estão bem sempre, apesar de tudo".


Tristão de Athayde

Acho que de certa forma pressenti sua morte próxima. Interessante notar que a entrevista trata basicamente de sua conversão ao catolicismo. Diga-se que não houve qualquer premeditação de minha parte-apenas foram as primeiras perguntas que formulei, sobre sua vida. E incrível coincidência: sua conversão ocorreu no dia 15 de agosto de 1928 e sua morte exatamente no dia 14 de agosto de 1983. Não sei por que estranhas razões esta entrevista foi sucessivamente recusada por diversos editores de vários jornais e revistas de São Paulo. Agora, 21 anos depois de sua morte, ela finalmente está sendo publicada. Foi uma das mais belas experiências que tive na vida: conversar com este homem maravilhoso, culto, inteligente, que sempre teve um vida privilegiada em termos econômico-financeiros, mas de uma humildade, e de uma simplicidade realmente marcantes.


Suicídio em Veneza?
era a Belle Épòque



Comecei perguntando sobre o seu quase suicídio em Veneza, fato absolutamente estranho-voce leitor que conheceu, por leitura, esta figura maravilhosa, imaginaria o Tristão de Athayde pensando em se matar?- a que ele se referira no programa Vox Populi já citado. (Infelizmente não consegui saber a data exata porque não obtive resposta da TV Cultura sobre isso). Abundante, fértil, se expressando com uma fluidez maravilhosa, Alceu me contou nada menos que sua vida até aquela data, quando uma noite em Veneza teve uma visão da cidade em toda sua duplicidade: metade sombra, metade luz. Aquelas águas paradas, cheias de história-dizem, ele me conta, que ali eram jogados os inimigos do Doge - e ele estava no hotel que fica defronte ao palácio. E de repente a história, a vida tudo pesou nos ombros de Alceu ainda muito jovem, cheio de energia, de cultura, de amor da família, da mãe, das irmãs, do pai (comerciante muitíssimo bem sucedido no Rio de Janeiro) e afinal, ele que tinha tudo, se perguntava sobre o sentido da vida.

E pensou: por que não se atirar na água e morrer? Mas hoje, recordando aquele pensamento louco, sorri e justifica: afinal era a Belle Épòque, havia uma quase moda de suicídio por amor e ele lia muitos romances também. Daí que esta idéia tinha muito de romanesco, de aventura e ele a abandonou rapidamente. Mas deste questionamento profundo surgiu pelo menos uma mudança na sua vida que ele considera fundamental.

Àquela altura estava a ponto de ir para a Alemanha onde estudaria na Universidade de Heildelberg. Era recém formado bacharel em Direito, depois de ter feito o secundário num dos colégios mais rigorosos da época: o Ginásio Nacional, atual Colégio Dom Pedro II. E foi exatamente sua formação demasiado positivista, resultado de duas escolas onde se cultuava acima de tudo a ciência, não a arte, ou as letras, que ocasionou esta dúvida: para que viver?Afinal qual o sentido disso tudo, da vida? E optou não mais por Heildelberg, mas por cursos de Letras na Sorbonne. E rumou para Paris, onde sem saber, veria o rebentar da Primeira Guerra Mundial.


Viu nascer um século
e morrer uma civilização



É preciso explicar que era 1914 e Alceu estava, como fazia todos os anos juntamente com a mãe e as irmãs passando uma temporada na Europa. "Naquele tempo ir para a Europa era um bom negócio. O cruzeiro valia mais que o dólar. Eu digo sempre que vi nascer um século e morrer uma civilização", diz referindo-se a um fato engraçado que ficou para sempre marcado na sua memória. Na virada do século - XIX para o XX, seu pai disse, mostrando um crucifixo: olha, está nascendo um século. E Alceu virou-se ingenuamente para procurar este tal século que seu pai dizia estar nascendo. Afinal a frase soou algo estranha para um menino de cinco anos.

Já o fim de uma época, uma Belle Épòque, que ele viu morrer não foi tão tranqüila e inocente. Até hoje ele guarda frases e pessoas que viu naquela Paris em pânico que fugia da guerra para o interior do país. Mulheres e homens estarrecidos com o que viam. Recordando aquele trágico ano, portanto, de 1914, Alceu Amoroso Lima vê uma semelhança com os dias em que vivemos quando estamos também na iminência de uma Terceira Guerra (olha só o que a gente falava em 81 e ele nem viveu o que estamos vivendo, de fato coisas bem mais terríveis, que fazem aqueles, ficarem até bons tempos) e há segundo ele uma quase euforia no ar, uma irresponsabilidade, as pessoas se referem com absoluta naturalidade às armas mais terrificantes.
Recorda a frase de um jornalista da época que poderia ser dita hoje com total propriedade: "Esta guerra há de ser necessariamente muito rápida, tal é o poder das armas que serão usadas". Nos dias, meses que precederam a guerra, ele conta, que havia uma grande euforia e ele especialmente vivia a felicidade de ter vinte anos e estar apaixonado (namorava uma jovem argentina que como ele, passava as férias em Paris) .E as manchetes mais assustadoras dos jornais parisienses não afetavam os jovens que todas as noites se reuniam para conversar e dançar tango.

"Mesmo depois da mobilização", ele conta, "nós continuávamos a nos divertir. Era como se nada estivesse acontecendo. Até me lembro de uma noite em que a concièrge reclamou das nossas reuniões. Provavelmente tinha algum parente no front e a nossa alegria incomodava".Mas esta alegria não duraria muito. Os acontecimentos se precipitaram e a família Amoroso Lima teve que se mudar rapidamente do hotel onde estava hospedada: o Majestic, que seria depois, na Segunda Guerra Mundial , a sede da Gestapo em Paris.

Alceu seguiu de trem, um dia depois da mãe e das irmãs, em direção a Bordeaux. Com ele, na cabine, iam duas jovens e um senhor, o pai delas. Ao cruzarem um trem de feridos as moças começaram a chorar. Alceu deitado no chão do trem que ia lotado, nunca esqueceu a frase que o senhor articulou pálido: "ce sera comme 1870". Era o fim de uma civilização e o jovem Alceu Amoroso Lima sentia seu impacto na carne. Quem sabe a vontade do suicídio não teria sido uma premonição do que viria?


A conversão lenta


P. - Para começar, gostaria que o senhor contasse como se deu a sua conversão ao catolicismo?
Alceu Amoroso Lima - São Paulo diz que há dois tipos de conversão, para simplificar: a conversão lenta e a conversão violenta. Há uma conversão como a de São Paulo: violenta que passa de uma pessoa que é conscientemente perseguidora do Cristo, negadora de todas as verdades judeu-cristãs e que os gregos chamam de metanoia. E há uma conversão lenta, a transformação de um estilo de vida, de uma concepção, para outro estilo de vida, outra forma de concepção. A minha conversão foi evidentemente lenta. Eu nunca tive uma educação relogiosa muito profunda, a minha família era religiosa, mas de uma religiosidade bastante superficial. Posso dizer que até vinte anos o problema religioso não me interessou. Por isso costumo dividir minha vida em tres etapas: a etapa literária, a etapa de idéias e a etapa de fatos, acontecimentos. A etapa literária vai até os vinte e poucos anos: só a literatura e a estética me interessavam. Aí a Guerra de 14 foi um problema mundial que afetou profundamente a mim e a minha geração de um modo muito radical, porque a gente vivia mesmo a Belle Épòque no sentido de gozar a vida, gozar a vida esteticamente, ideologicamente, filosoficamente, no sentido de preocupação de idéias, não no sentido de ir fundo dos problemas. A guerra provocou realmente uma ruptura. Eu estava em Paris e diante daqueles fatos trágicos, de vida ou de morte, da morte de uma civilização de um país, de uma geração, da minha geração que eu julgava isenta de ter que fazer opções tão dramáticas. Voltei pra o Brasil, fui me ajustando até encontrar uma pessoa que foi o Jackson de Figueiredo, que promoveu a minha conversão. Neste sentido a verdade contida na essência do cristianismo de que a Verdade é uma pessoa: Eu sou o Caminho, a Verdade, a Vida, diz o Cristo, ou seja, este sentido personalista de que há na Terra alguém que representa o Caminho e a Verdade na sua integridade, para mim começou a se apresentar.


Precisamos nos abrir
para a hora da graça



P. - E como o senhor conheceu o Jackson de Figueiredo, enfim, eram amigos? Conte tudo.
Alceu - Ele chegou no Rio em 1918 precisamente com este fato: a guerra. O mundo tinha passado por quatro anos em que havia ocorrido uma transformação e a cada dia se revelavam para nós brasileiros duas coisas: de um lado a necessidade de encarar a morte como sendo um elemento capital da vida. E de outro a urgência de olhar o nosso tempo, o nosso país. O problema universal de atender ou não o apelo de Deus, de saber de Deus e da verdade, e por outro lado a Pátria. E Jackson de Figueiredo de certo modo representava tudo, por que ele foi nacionalista integrado, violento e ao mesmo tempo convertido igualmente violento. Ele era de tal modo anarquista, rebelde que, quando menino, os seminaristas não podiam passar em frente da sua casa em Aracajú que ele atirava pedras, fazia o diabo. Ele era terrível. Então, sendo essa pessoa que representava para mim realmente como que a encarnação da transmissão da graça de Deus, porque só se converte pela graça de Deus-não é uma formação individual. Este é realmente o grande mistério: a graça é gratuita, ela vem ou não vem e a gente não pode se queixar. Agora é preciso fazer um estudo para nos abrirmos para a hora da graça, que ninguém sabe quando é. Não sabemos a hora da morte, a hora de Deus, nem a hora da graça. A hora de Deus é aquela em que os fenômenos da nossa ação se equivalem com a Providencia Divina. A hora da graça é aquela em que o nosso eu, nossa disponibilidade se coloca abertamente para o olhar de Deus, para o apelo de Deus...

Continua abaixo...

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Memória/Literatura



Alceu Amoroso Lima: o Tristão de Athayde
Um otimista incurável

(parte 2 - final)

Ana Lúcia Vasconcelos

P. - Foi então que o senhor se encontrou com o Jackson...
Alceu - Pois é, aí me encontrei diante deste rapaz, deste Jackson, recém chegado ao Rio e parece que tinha um pouco a influencia de um filósofo espiritualista: Farias de Brito, quer era seu concunhado. Imediatamente nós divergimos: ele era um autoritário e eu um liberal. Ele começou a me atacar através de artigos, ele antimodernista, eu modernista. Ele pela autoridade, eu pela liberdade, eu defendendo e ele atacando o João Ribeiro que era um grande humanista sergipano. Depois de vários ataques pelos jornais, um dia ele me escreveu uma carta que eu respondi. Na segunda carta nós verificamos o seguinte: vamos deixar a política de lado e passar a discutir coisas mais sérias, vamos ao cerne dos problemas. Então, durante cinco anos, de 24 a 28 trocamos cartas-as deles estão publicadas com atenuações, porque ele era muito violento. E ele tem um livro sobre este problema religioso que, mesmo as pessoas não religiosas deveriam ler porque é um livro patético. Ele expõe a sua visão, dos fins últimos do homem e que é uma visão de uma pessoa que passa do anarquismo para o cristianismo. Então tivemos este longo debate: eu dizendo que achava que a verdade estava justamente no máximo, na procura da verdade. E ele, defendendo a existência de uma verdade e a nossa incapacidade de penetrar nesta verdade e então esgotando os limites da razão, para nos entregarmos voluntariamente à revelação da fé.

P. - E qual foi a campainha de disparo para esta mudança de visão de mundo?
Alceu - Em primeiro lugar havia este fato: eu ter visto como se operou a mudança numa pessoa da minha geração. E ao mesmo tempo, eu vinha sentindo um esgotamento da razão. Sentia que a razão não esgotava a lógica, a matemática, muito menos a quantidade, muito menos a pura evolução dos acontecimentos. Então eu senti que havia dentro de mim uma descrença na razão. Tanto que passei um período que me interessei enormemente pela loucura, considerei a loucura um caminho para se chegar ao conhecimento da verdade. E reuni uma biblioteca inteira sobre a loucura e sobre os povos primitivos, os índios. Escrevi até um livro sobre isso: uma tese A Economia Pré-Politica. Então esta decepção com a razão me preparou de certa forma para esgotar os caminhos lógicos para articular a verdade, para aceitar a existência do mistério. Através da sombra da razão chegar à luz da fé. Através da complicação da inteligência, chegar à simplicidade da humildade, à sabedoria do povo que intui a verdade. Então foi o encontro do homem que tinha passado pela experiência da metanoia, a transmutação violenta. Eu, de temperamento completamente diverso, um temperamento puramente estético, calmo, com horror à violência, educado na ironia francesa, no ceticismo e que um dia, me senti capaz de aceitar com humildade uma revelação como sendo a luz que vem no fim do túnel. Foi então que no dia 15 de agosto de 1928- meses antes, ele sentiu a minha preparação e me encaminhou para o padre Leonel Franca com quem eu tive tres meses de conversa de caráter teológico, eu passei da descrença da Verdade para a crença da Verdade. E a crença na Verdade, não através da razão, da inteligência, mas através da intuição, do sentimento. Por exclusão eu cheguei a uma coisa mais simples, que inclusive, une o sábio ao ignorante, o homem rico, poderoso, ao pobre, que diante disso se curva à bondade, à caridade, à fraternidade, ao equilíbrio que eu considero a essência do cristianismo.


A Verdade é
uma responsabilidade



P. - O senhor afirma em artigo do livro A Experiência Reacionária que se preocupa mais com as eras futuras. Poderia explicar, por que isso?
Alceu - Exatamente, me preocupo mais com o futuro do que com o passado. É interessante que quando me converti, me preocupava mais com a estabilidade das coisas, porque tinha passado minha mocidade na remanescencia das coisas, o movimento das classes sociais, o movimento do próprio diálogo dos homens que nos leva realmente ao futuro da humanidade, no sentido da vida. Cada acontecimento da vida vai em relação a uma definição final que é o que a Igreja Católica chama de Juízo Final, parusia, que é a volta do Cristo, a revelação total da Verdade. Sinto que a procura de Deus e de todas as lutas humanas, o debate entre o Bem e o Mal, entre o ódio e o amor, tudo isso é uma convergência que vai no sentido do futuro. Para mim, a minha conversão não foi um descanso num porto seguro. Ao contrário, foi uma partida para um debate com as águas do oceano, um debate com as tempestades, um debate comigo mesmo, uma entrada na ação, para uma pessoa como eu, que tinha sido até então um sibarita, no sentido de gozar a vida, sobretudo no sentido das idéias. Enfim, foi a descoberta da responsabilidade das idéias. A Igreja realmente é alguma coisa em marcha, este é o sentido da Fé. A fé não é um descanso, a Verdade não é um prêmio de loteria que o sujeito ganha e pronto, passa a viver em água fresca e sombra. Não, a Verdade é uma responsabilidade. Então o futuro me pareceu muito mais interessante. E isso não quer dizer um desligamento do passado. O passado passa a ser presença no futuro.O futuro é uma antecipação que nós temos que viver numa utopia. Veja, os dois mais sutis teólogos brasileiros que são os irmãos Boff. Um deles passa seis meses ensinando teologia na Universidade do Rio de Janeiro e seis meses entre os índios. Ou seja, procurando o sentido da verdade mais elaborada e a verdade do homem primitivo. Este contato com o que há de mais avançado, e o que há de mais primitivo é que eu acho apaixonante dentro da Igreja. O cristianismo é uma passagem de uma promessa do Messias para a realização dessa promessa através da vivencia no tempo e uma revelação do que é realmente o sentido da vida e que o Cristo é o sentido do amor, da amizade, da fraternidade. Então o cristianismo é o sentido de que se encontrou alguma coisa, mas que este encontro não é um descanso, mas uma responsabilidade nova.

P. - Gostaria que o senhor dissesse sua posição em relação a este problema tão discutido que é a castidade. O Fernando Gabeira, por exemplo, que tem sido uma pessoa que tem assumido publicamente como uma pessoa religiosa, disse recentemente que discordava da postura da Igreja no que concerne a esta questão do sexo. Como o senhor vê esta problemática toda da castidade, do confinamento em conventos, sendo que o sexo é uma coisa natural?
Alceu - Acho esta vocação a coisa mais pura do mundo. A vocação de que se realmente possa haver santificação através da renuncia daquilo que é a coisa mais natural do mundo que é o sexo. O sexo é ao mesmo tempo a base da vida, e sendo ele o mais importante dos sentidos humanos, é também a possibilidade de desencadeamento de dois caminhos: o caminho do Bem e o caminho do Mal. O poder, por exemplo-é muito justo que haja uma autoridade, mas o poder é uma coisa perigosa. Pois bem, o sexo é mais perigoso ainda. Ainda outro dia recebi uma carta de um rapaz católico que me perguntava sobre a indissolubilidade do casamento. Veja bem: quando a Igreja diz que a monogamia é um bem, ela diz também que quando não há amor numa família, não pode haver paz, felicidade.Quando faltam, no sacramento do matrimônio algumas condições para este sacramento ele pode ser anulado, abolido. Portanto a indissolubilidade é relativa. Não quer dizer que não possa haver separação, quando por motivos os mais diversos, houver mudanças das circunstâncias que levaram à coabitação. Falando agora de conventos, eu, por exemplo, tenho uma filha que é abadessa de uma ordem de religiosas aqui de São Paulo, que é a pessoa mais alegre do mundo. Ela é beneditina, foi ela quem falou ao Papa quando ele esteve aqui no Brasil. (Esclareça-se que foi a primeira vez que o Papa João Paulo II veio ao Brasil.) Realmente é uma opção muito séria, muito grave.

P. - Além da crítica literária o senhor se aprofundou no estudo da economia, sociologia, filosofia. Fale um pouco das suas tendências profissionais.
Alceu - Eu realmente nunca cheguei a compreender a profissionalização. Sou um individuo que tende ao amadorismo e não ao profissionalismo.Eu tinha até um amigo meu americano que me dizia: doutor Alceu, porque o senhor em vez de publicar tantos livros, não faz como eu. Ele de cinco em cinco anos publicava uma nova edição de um Tratado de Direito Internacional. Eu dizia: cada um com sua vocação. Como não sou poeta, comecei com a crítica literária onde procurava a beleza nos textos dos outros. E da literatura tive que passar para a economia, a sociologia. Dava aulas, um tempo fui advogado, tentei a diplomacia e durante algum tempo fiquei na direção de uma companhia que meu pai tinha fundado. Mas a maior parte do tempo em dediquei ao ensino do qual gostava muito. Lecionei na Universidade Católica, na Universidade Federal e no Centro dom Vidal. No Centro Dom Vidal eu fundei a Coligação Catolica Brasileira, composta do Instituto Católico de Estudos Superiores, que foi o gérmen da Universidade Católica, de uma Associação Operária e de uma Associação das Bibliotecas Católicas, uma série de coisas que saíram do Centro dom Vidal. O Instituto Católico de Estudos Superiores foi criado em 1932 justamente com o desdobramento do Centro Dom Vidal. Aliás, este Centro, fundado pelo Jackson Figueiredo era dedicado a conferencias de cunho amadorístico. Quando assumi, depois da morte dele, criei todos estes desdobramentos. Eu sentia a necessidade de formalizar certas especializações. Uma associação para os juristas, outra para médicos, etc., e uma Escola Católica de Estudos Superiores. Em 1941 nasceram as primeiras faculdades católicas. Em 41 nasceu a Faculdade Católica do Rio de Janeiro e depois vieram as de Porto Alegre, de Belo Horizonte, de São Paulo. Todas nasceram do Centro Dom Vidal. Até então não havia cursos superiores. Havia uma cadeira de Literatura que eu assumi, uma de Sociologia, uma de Matemática, uma de Biologia. Os dominicanos estavam presentes Centro Dom Vidal. Foi com eles que conseguimos fundar este Instituto Católico de Estudos Superiores. Os dominicanos franceses ensinavam Filosofia e Teologia, e os brasileiros ensinavam Literatura, Sociologia e Biologia.


A santidade é um mosaico
de pequenas virtudes



P. - A história comprova que a Igreja sempre esteve atrelada ao poder. Atualmente e desde o golpe de 64 a Igreja brasileira tem sido oposição ao sistema, ao estado totalitário. A que o senhor atribui isso?
Alceu - Sim esteve sempre atrelada ao poder. Agora está desatrelada. Agora, não tenhamos a ilusão de que vamos modificar o mundo de um momento para outro. Estamos diante de pessoas que querem modificar o mundo violentamente e através do poder. Não devemos ter ilusão, inda mais num país como o nosso que vive realmente no Terceiro Mundo, não vamos viver com o desejo de ser uma grande potencia, inda mais num país como o nosso que vive realmente no Terceiro Mundo. Não vamos viver com o desejo de ser uma grande potencia que fica mínimo diante da onipotência de potencias como os Estados Unidos e a Rússia. É preciso ter consciência que conseguiremos alguma coisa pedra a pedra, sem a ilusão de mudanças rápidas. É viver no presente com a experiência do passado, mas focando no futuro. Esta visão do futuro representa uma tentativa de melhoria. Há os pessimistas, aliás, o terrorismo é a expressão do pessimismo máximo. Nós estamos realmente num momento dramático, passional em que temos de arrancar de todo o nosso sofrimento, a capacidade de reagir dentro das nossas possibilidades.Conhecer nossos limites, ser limitado sem ser medíocre ser equilibrado sem ser conformista, sem ser morno. Deus vomita os mornos. É prova maior de liberdade sofrer uma derrota que alcançar uma vitória através de compromissos Devemos ter o amor da dignidade, da honra, para saber que vivemos num mundo em que o bem e o mal estão confundidos em nossas próprias almas. Ficarmos convencidos que nós não somos deuses, não somos anjos, somos seres humanos. Nós temos a responsabilidade de saber discernir o que é bom e o que é mal, sem chegar ao farisaísmo. Saber que vivemos sempre situações mistas. O que é a democracia? É a confiança no povo. Mas quando o povo ama as ditaduras? Veja as fotografias do Irã (Isso era manchete no mundo inteiro, naquele ano de 81), o Komeini julga que é santo e as pessoas tem um olhar de ódio. Cada um de nós deve ter dentro de si o amor à perfeição. É neste sentido que a Igreja representa realmente um equilíbrio entre a ciência e a ignorância, que é a sabedoria. A sabedoria que está para lá da ignorância e para lá da ciência. Cada um de nós deve ter o amor da perfeição. Saber que devemos querer o máximo, mas saber que o máximo nunca atingiremos. A santidade é um mosaico de pequenas virtudes. Os grandes gestos são raros. No mais, a vida é feita de pequenos gestos anônimos.Temos que adquirir o sentido de sermos o menos imperfeito possível. Isto já é uma grande conquista.

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Espiritualidade/Manifestações da Virgem


Nesta semana esteve em Campinas para divulgar os dois livros que escreveu sobre os prodígios e milagres realizados pela imagem de Nossa Senhora sob o titulo de Rosa Mística, que foi como a Virgem se revelou a uma enfermeira-Pierina Gilli, em Montichiari-Itália, na primavera de 1947, com algumas interrupções até o ano de 1976, onde se apresentou com tres rosas no peito que segundo ela significavam: a branca-o valor e a necessidade de um espírito de oração; a vermelha -o valor e a necessidade de sacrifício e despojamento e a amarela-o valor e a necessidade de penitência e jejum-o José Maria Medina, de Belo Horizonte.

O primeiro chama-se Maravilhas e Lágrimas da "Rosa Mística" e o segundo As Maravilhas da "Rosa Mística", onde ele relata os prodígios e milagres, curas e libertações ocorridas na peregrinação que faz com uma imagem de Nossa Senhora há oito anos, justamente depois de ter recebido uma graça extraordinária da Virgem. Proximamente vou escrever sobre os dois livros em detalhes-com fotos ilustrando os prodígios: marejamento e mudança de cores nas rosas durante a reza do terço, figuras que se formam nas velas, nas rosas, entre outros.

Agora vou apenas publicar uma matéria que fiz sobre um desses prodígios com uma imagem da Rosa Mística em Campinas, e que foi publicada num jornal da região - O Município de São João da Boa Vista, como parte de uma série que escrevi sobre revelações, depois do 11 de setembro (a queda das torres gêmeas em Nova York), mais exatamente no dia 17 de novembro de 2001, porque exatamente este texto é um capítulo deste segundo livro do José Medina e por ele tem, como vocês verão na seqüência ligações com o casal Joel e Maria Inês Salotti de Almeida -onde a imagem da Rosa Mística chorou. Ele ganhou a imagem deles e daí sua grande admiração pelo casal.



Imagem da Rosa Mística
chorou em Campinas



Ana Lúcia Vasconcelos

Prodígios e milagres acontecem na capela que Maria Inês Salotti de Almeida construiu em sua casa no Jardim Chapadão, em Campinas, em homenagem a Nossa Senhora Rosa Mística. Tudo começou com a imagem da Virgem vertendo lágrimas de agosto de 92 a setembro de 93. Recentemente, em novembro de 2003 o quadro onde está a foto da Virgem chorando, feita na ocasião voltou a ver água e em junho de 2004, o mesmo fenômeno voltou a ocorrer. A história, desde o inicio está narrada nesta matéria, onde começo contando da religiosidade de Maria Inês, sua convivência com o padre Donizete até chegar a essa sua experiência maravilhosa com a Virgem Maria sob a denominação de Rosa Mística.


De família religiosa foi
batizada pelo padre Donizete



Maria Inês nasceu em Tambaú (SP) em 1941. De família religiosa, pais muito católicos foi batizada, crismada e tomou a primeira comunhão do famoso padre Donizete que já em vida atraía grandes multidões para a cidade por sua fama de santidade. Inês teve, portanto esse privilégio como admite: "conviver com uma pessoa muito simples, muito humilde, mas muito dotada espiritualmente, que já dizia que não era ele, mas Jesus que realizava as curas. E ainda: que ele era simples instrumento de Jesus e para haver a cura era preciso fé. Segundo Inês, o padre Donizete tinha grande devoção por Nossa Senhora Aparecida e ela mesma também, desde criança, tinha grande intimidade com a Virgem: gostava de participar dos atos da Igreja, da coroação nos dias consagrados a ela, enfim, como diz - "gostava de estar na igreja".

Quando veio para Campinas, já casada, começou a freqüentar a igreja de Nossa Senhora do Carmo, no centro, onde morava e onde foi ministra da Eucaristia por vinte anos. Foi então que chegou na igreja do Carmo, vinda da Alemanha, uma imagem da Rosa Mística (aquela com tres rosas no peito-vermelha, amarela e branca e que ela não conhecia).

"A imagem ficava no altar mor", conta, "e sempre que eu entrava na igreja, depois de ter ido ao Santíssimo, me dirigia à imagem da Rosa Mística onde rezava e ficava admirando sua beleza".E como ela e o marido participavam da última missa do domingo, como ministros, ela um dia, teve a idéia de pedir permissão ao Monsenhor Geraldo (antigo pároco da igreja, já falecido), para levar a imagem para sua casa, já que a igreja ficava fechada na segunda feira, para lindeza. "Aí que eu já vejo o plano de Nossa Senhora na minha vida. Você imagina alguém pedir para o padre para levar uma imagem da igreja para casa?"


A imagem da Virgem
peregrinava



E não foi isso que aconteceu? O padre permitiu, com o aval do coordenador do Grupo de Oração, e Maria Inês passou então a levar a imagem da Rosa Mística no domingo à noite e trazia de volta para o Carmo na terça feira. Ocorre que ela não ficava com a imagem em casa: "ela peregrinava pelas casas dos amigos, vizinhos, enfim de quem precisasse, porque ela é uma imagem peregrina", explica Maria Inês. E a minha missão: levá-la onde for preciso." Mas na terça feira, quando levava a imagem de volta para o Carmo, ela pensava: "um dia vou ter uma imagem como essa".

Foto: Priscila Iász de Miranda

A imagem da esquerda, mais desgastada, foi a que verteu lágrimas

A esta altura, o marido por razões profissionais foi para Roma e quando voltou disse: "não vou me perdoar por não ter trazido para você uma imagem da Rosa Mística apesar de ter estado com várias perto de mim". E sem ela saber, ele providenciou com uns amigos a vinda de uma imagem da Rosa Mística da Alemanha. E um belo dia, eis que chega na sua casa, já no Jardim Chapadão, onde mora desde 74, uma imagem da Rosa Mística igual àquela do Carmo que Maria Inês tanto gostava. "Foi uma emoção tão grande, não dá para falar. Indescritível".


O nicho reservado

Tão importante foi o fato que Maria Inês não esquece a data: 20 de março de 1992. E ainda um outro detalhe que ela gosta de recordar: há em sua casa um nicho onde eles colocavam enfeites, souvernirs de viagens. A esta altura-antes da imagem chegar-ela reformou a casa e pensou em tirar o nicho, mas o marido discordou da idéia e o nicho ficou. "Estava reservado para ela", diz Maria Inês que conta que passou a fazer orações diante da imagem até que um dia, 17 de agosto de 92, percebeu que a imagem estava vertendo lágrimas.

Ela não queria acreditar no que via chamou os vizinhos para testemunhar e todos viram. Nesse dia foram poucas lágrimas, segundo conta, mas no dia 13 de março de 93 a imagem voltou a chorar e chorou sem parar e então Maria Inês decidiu abrir a casa para as pessoas. E das oito da manhã à meia noite não parava de chegar gente, de todas as partes da cidade, os jornais e televisão foram fazer matérias. "Eu afastei os móveis da sala e disse: Nossa Senhora a casa é sua, faça o que a senhora quiser. Entendi que um sinal tão grande não era só para mim e para minha família".

Apesar de ter documentado tudo, tirado fotos da imagem chorando e os jornais terem feito isso largamente, no dia 19 de abril de 93 ela chorava tanto que Maria Inês decidiu chamar o Laerte Zago, conhecido fotógrafo da cidade, profissional competente e pediu que ele documentasse o fato. Pois bem: o fotógrafo tarimbado começou a chorar vendo o que ocorria e tremia tanto que não conseguia fazer a foto. Finalmente fotografou e as fotos são essas que vocês podem ver, onde Nossa Senhora da Rosa Mística chora copiosamente.


A Virgem chorando

Prodígios e milagres


Maria Inês calcula que pelo menos 10 mil pessoas passaram pela sua casa nesse tempo: nunca havia menos de vinte pessoas na sala, a casa ficava lotada diariamente, chegavam ônibus de vários lugares e foram muitos os milagres."As pessoas faziam lencinhos rendados com os quais enxugavam as lágrimas da imagem e levavam para os doentes e eles ficavam curados".

Há inclusive, um prodígio que ela relata com a permissão da pessoa envolvida: Maria Paula Otranto, tinha dado à luz seu primeiro filho e por causa de uma infecção hospitalar não podia amamentar a criança já que seus seios estavam feridos. A mãe da moça ligou desesperada e Maria Inês foi até o hospital levar o lencinho com as lágrimas da Virgem e a Eucaristia. No dia seguinte a infecção havia cedido e Maria Paula, apesar de ter ainda os seios machucados já podia amamentar o filho: não sentia dor.

Houve ainda neste tempo, muitos milagres, prodígios e curas e ainda hoje se pode ver várias manifestações como mudança de cor nas faces de Nossa Senhora, mudança na expressão, fenômenos que eu mesma notei várias vezes, e ainda: como costuma acontecer em outros locais de aparições ou manifestações da Virgem Maria, a imagem exala um perfume de rosas que as pessoas sentem fortemente.

Pois houve uma cura através do perfume exalado pela imagem que passo a relatar. Uma senhora mãe de um garoto epilético, que mora nas redondezas pediu a imagem para levar para a sua casa e a colocou no seu quarto. Quando o garoto que aquela altura tinha 18 anos (hoje tem perto de 28) chegou em casa perguntou se a mãe tinha colocado algum perfume porque ele estava sentindo um forte perfume de rosas. A mãe disse que não e o convidou a ver quem estava no seu quarto. Quando o garoto se aproximou da imagem disse: é dela, da imagem da Virgem que vem este perfume que estou sentindo. E desde esse dia ele ficou curado da doença. Maria Inês conta que ele esteve na capela com a mãe para agradecer a Nossa Senhora, mas a família não é católica, e depois disso não mais aparecerem. Mas é importante registrar o que o garoto disse à época: que ele tinha muitos sonhos com Nossa Senhora e que continuava sentindo o perfume e que desde aquele dia sua vida melhorou muito. Ou seja: reconheceu a mudança radical em sua vida.

Muito outros testemunhos de curas, conversões e libertações ocorreram e continuam a acontecer, porque então Maria Inês resolveu fazer da sua casa um santuário.


Capela em
Homenagem



A imagem da Nossa Senhora Rosa Mística continou chorando o ano todo, sendo que no dia 22 de setembro de 93 foi último dia que ela verteu lágrimas: foi quando Maria Inês decidiu construir uma capela em sua honra que foi inaugurada em 11 de novembro de 94.

Projetada por um arquiteto amigo, a capela é linda, é toda feita em granito e mármore, e sobre um enorme globo feito de anéis de mármore, pesadíssimo, está uma grande imagem da Virgem da Rosa Mística, que Maria Inês ganhou do Horst Mehring, coordenador mundial do Opus Rosa Mística, para quem narrou todos esses fatos e por causa disso o nome de Campinas e da família de Maria Inês estão na lista que o Movimento distribui para o mundo todo e onde estão registrados os prodígios e milagres de Nossa Senhora Rosa Mística ocorridos nos diversos países.

Foto: Priscila Iász de Miranda

Maria Inês na capela

"As imagens são feitas em Essen, na Alemanha, levadas para Montichiari-Fontanelle, Itália, (onde houve a aparição da Virgem da Rosa Mística à vidente Pierina Gilli em 1947), são abençoadas a pedido de Nossa Senhora, voltam para Essen de onde são enviadas para o mundo", explica Maria Inês. Segundo ela hoje há perto de 90 mil imagens no mundo todo. "Elas vão muito para a Rússia. Eu relatei tudo para o Horst e ele então me mandou uma imagem grande".

E desde que a Rosa Mística se manifestou chorando, se reza o terço todos os dias sempre as 20. 30hs, de inicio na casa e depois na capela e formou-se ali uma pequena comunidade. Além do terço o grupo, que nunca é fixo porque é aberto a quem quiser, faz a Via Sacra, a Novena de Natal nas épocas litúrgicas apropriadas e ainda uma oração muito poderosa, pedida pela Virgem em várias aparições, especialmente a de Medjugorje: As Mil Aves Marias.

Foto: Priscila Iász de Miranda

As Mil Ave Marias no dia 13 de agosto

Enquanto em algumas comunidades se faz esta oração todo o mês, na capela da Rosa Mística ela acontece apenas duas vezes ao ano: no dia 25 de março - Festa da Anunciação e no dia 15 de Agosto, Festa da Assunção de Nossa Senhora, ocasiões onde ela se manifesta através da palavra proferida por pessoas que tem o dom da profecia, com muitas curas e libertações.

Quando Maria Inês viaja, a vizinha do lado fica encarregada de coordenar as orações. "Faço isso com a maior alegria e peço que ela me ajude a cumprir até o final esta missão".Enquanto isso a imagem menor, a que chorou, peregrina pelas casas. Quem quiser participar é só ir à capela que fica na Rua Rafael Luporini, 49 Jd. Chapadão, Campinas-cep. 13.066-670.


A Virgem Maria
volta a se manifestar


Recentemente em novembro de 2003 Nossa Senhora voltou a se manifestar na capela da Maria Inês Sallotti de Almeida: o quadro onde está a foto já referida, feito pelo Laerte Zago, onde ela está chorando, começou a verter água e Maria Inês lembra que isso acontecia justamente no ano em que a Campanha da Fraternidade tinha por tema :Água como Fonte de Vida. Muitas pessoas presenciaram o fato, e novamente embebiam lenços e algodão na água que o quadro vertia e levavam para abençoar e curar pessoas. Novamente muitas curas foram registradas e os sinais deste fenômeno podem ser vistos claramente no quadro.


O quadro manchado

Maria Inês diz que desta vez ela não anunciou publicamente o fato para evitar a ida de curiosos: as pessoas que freqüentam a capela ficaram sabendo e foram divulgando. "A gente não sabe o que isso significa", ela diz, "são coisas do Alto, nós não temos condições de dar nossa opinião". Mas lembra que Nossa Senhora falou através de uma pessoa que tem o dom de locução interior que "isso que estava ocorrendo era um sinal de benção para todos que fossem a capela".E Maria Inês completa: "quem veio aqui foi privilegiado, porque agraciado com as bênçãos de Nossa Senhora".

Quando a Campanha da Fraternidade terminou, o fenômeno também cessou, mas agora, em junho de 2004, o quadro começou a verter água novamente, ou seja, a Virgem Rosa Mística está novamente chorando. Por que a Virgem chora? É a pergunta que voce pode estar se fazendo agora. Pelos pecados da humanidade. E ela chora não apenas aqui, mas em diversos outros lugares do mundo e estou dedicando um capítulo do livro que estou escrevendo sobre as aparições da Virgem e que logo mais vou veicular, as lágrimas de Nossa Senhora.

E por que ela aparece ou emite sinais em ícones ou imagens? Para lembrar à humanidade que é preciso voltar para Deus, como por exemplo, nesta mensagem da Rainha da Paz, nome com que a Virgem se identifica em Medjugorje: "Vim dizer ao mundo: Deus é a verdade. Ele existe, n' Ele está a verdadeira felicidade e a plenitude da vida. Apresento-me aqui como Rainha da Paz para dizer ao mundo que a paz é necessária para a salvação do mundo. Em Deus se encontra a verdadeira alegria , da qual flui a verdadeira paz."


Nossa Senhora Rainha da Paz

E para terminar, um testemunho pessoal: quando voltei a morar em Campinas, depois da minha conversão e já pesquisando sobre aparições e já tendo traduzido o livro Eu Vejo a Virgem - Vicka narra as aparições de Medjugorje (uma longa entrevista do padre Yanko Bubalo, já falecido com a Vicka Ivankovic, um das cinco videntes que vêm a Virgem naquela localidade da ex Iugoslávia, atual Bósnia-Herzegovina), editado pela Loyola em 90 e atualmente esgotado, vim morar há seis quadras deste Santuário da Rosa Mística, que por sua vez fica perto da Comunidade Jesus Te Ama, que também freqüento. Vocês diriam que isso é obra do acaso ou da Providência Divina?

Eu já estive nesta capela várias vezes, para rezar o terço, para as Mil Ave Marias e algumas vezes para rezar simplesmente, sozinha porque a capela tem o Santíssimo, por consentimento do arcebispo de Campinas. É uma maravilha, um local de grande paz e a Maria Inês é uma pessoa maravilhosa, sempre sorridente, feliz. Às vezes eu chego precisando falar com ela e está querendo falar comigo: e ficamos ali conferindo as nossas tribulações e alegrias e agradecendo a presença de Nossa Senhora em nossas vidas.


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Entrevista/Literatura


Leo Gilson Ribeiro - Apostando na literatura Brasileira
(Parte 1)


Ana Lúcia Vasconcelos

Considerado um dos maiores críticos de literatura brasileiros, Léo Gilson Ribeiro, 75 anos, nascido em Pindamonhangaba e residindo em São Paulo há exatos 46 anos, é doutor em Literatura Comparada pela Universidade de Heidelberg da Alemanha, lecionou Literatura Brasileira na Universidade de Hamburgo e foi o primeiro brasileiro a colaborar com a fechadíssima revista americana The Kennyon Review.

Prêmio Esso de Jornalismo em 69 com a matéria A Noite dos Balões, Léo escreveu durante anos no Jornal da Tarde e na revista Veja obtendo em 76 o Prêmio de Melhor Crítico Jornalístico/ Literário do Brasil instituído pela Editora Nórdica, com direito a uma viagem a Europa e mais cinco mil dólares que foi para ele uma oportunidade de rever o continente, especialmente algumas cidades da Alemanha onde viveu, ver muita arte, enfim curtir a liberdade de Amsterdã, por exemplo, onde há segundo ele um maravilhoso museu com a obra de Van Gogh.

Em 76 foi a vez do sindicato dos Jornalistas premiá-lo pela matéria A Noite dos Balões que narra a trágica histórica de um casal de idosos mortos por pivetes, e isso era apenas o começo da violência no Brasil. Em 1988 recebeu o Prêmio de Melhor Ensaio da Associação Paulista de Críticos de Arte com o livro O Continente Submerso (Best Seller, 1988, SP).

Por acaso mineiro: a família inteira é de Pindamonhagaba, Léo conviveu desde cedo com os grandes autores da literatura mundial. O pai lia Shakespeare aos cinco anos, a avó Mariana Marcondes foi uma mulher de cultura extraordinária que se correspondia em francês com os maiores músicos da época. Foi uma das maiores discipulas de Carlos Gomes e a primeira mulher a levar um piano de cauda num carro de boi para o norte do Paraná.

Fiz duas entrevistas com o Léo Gilson Ribeiro que, diga-se, conheci na Veja em 68 e a quem apresentei a Hilda Hilst de quem já era amiga e de quem ele ficou um dos grandes amigos, publicada em 80 no Jornal de Hoje de Campinas, onde fui editora de Cultura e que proximamente vou republicar e que considero uma das melhores entrevistas da minha vida: não por mim, mas por ele, que é genial. E a segunda é esta, realizada em sua casa em São Paulo em 1987, para a Revista Artes (como não tive noticias da sua publicação a considero inédita), e que, portanto é datada, ou seja, depois disso muita água rolou debaixo da ponte, muitos novos escritores surgiram e daí que preciso fazer uma nova entrevista com ele, para conferir o que ele acha bom na literatura brasileira atualmente.

Mas para atualizar minimamente esta entrevista -onde ele fala sobre sua atividade de crítico, seus livros, suas idéias sobre literatura brasileira e universal, de uma forma irreverente e maravilhosamente bem humorada que é sua marca registrada, liguei para ele para conferir alguns dados.

Fiquei sabendo que ele continua com sua máquina elétrica não tem endereço eletrônico, quer dizer ainda não entrou na era da informática, e lendo full time, mas agora só o que gosta, pode se dar a este luxo.Conferindo suas atividades atuais ele escreve como todos sabemos para revista Caros Amigos e está preparando a convite do Sesc-uma seleção do que considera melhor na sua obra ainda não impressa a nível mundial.

E ainda está preparando para a Editora Casa Amarela (SP) um livro contendo suas Melhores Entrevistas publicadas no Jornal da Tarde e na Veja que deve sair nos próximos meses.No mais diz que leva uma vida simples, e que agora que está mais maduro está relendo o que gosta e só lendo coisas de qualidade.

Quando eu cumprir a promessa de visitá-lo vou colocar a conversa em dia, porque somos muitos amigos e lógico vou entrevistá-lo novamente porque ele é uma pessoa de uma cultura vastíssima e de uma capacidade de humor maravilhosos, o que resulta sempre em muita risada, e lógico entrevistas memoráveis. Mas se voce quiser saber mais sobre ele pode pesquisar na Google que vai encontrar mais de dez sites contendo material sobre seus textos. Pena que não haja um siquer falando da sua vida, datas, que, aliás, sugeri a ele que fizesse. Boa viagem.

P. - Léo você é crítico literário há quantos anos? Começou na Veja?
Léo Gilson Ribeiro - Olha, desde 1960. Comecei no Rio de Janeiro, no Diário de Notícias, um jornal que não existe mais e o Correio da Manhã. Então o Mino Carta inventou que eu devia ser jornalista, tinha gostado muito do meu livro Cronistas do Absurdo e aí ele me colocou inicialmente no Jornal da Tarde e depois para a Veja onde fiquei como um dos primeiros fundadores há oito anos.

P. - Cronistas do Absurdo (José Álvaro, editor, 1964-RJ) sobre literatura hispano americana foi seu primeiro livro?
Léo - Foi meu primeiro livro. Ele falava de Ionesco, talvez pela primeira vez no Brasil, falava de Brecht, falava de Buchner, de Kafka, um livro que surpreendentemente, apesar de ser um livro de ensaios chegou à quarta edição.

P. - Eu adorei este livro, aliás, para quem gosta de teatro do absurdo e esses outros autores é um prato cheio. Você escreve muito, não é Leo? Você escreve ainda em máquinas ou já tem um micro?
Léo - Infelizmente minha vida é em cima de uma máquina de escrever. Não, não tenho um micro, sacrifiquei as férias para poder comprar uma máquina elétrica porque a minha coluna vertebral não rimava com meu salário (risos). Então uma vez fiz um artigo sobre a Revolução Russa, sobre um brilhante interprete norte-americano que teve acesso a muitos arquivos secretos do tempo de Kruschev e era um livro de mil e tantas páginas sobre o qual escrevi um artigo de três páginas para o Jornal da Tarde sobre a verdadeira história bolchevista...

P. - O que deu... quantas laudas?
Léo - Quase cinquenta laudas.

P. - Quantas laudas você escrevia por dia no Jornal da Tarde?
Léo - Variava, às vezes quando o livro exigia eu escrevia 22,27 laudas. Quando era uma matéria menor escrevia 120 linhas. Mas raramente escrevia menos de 200 linhas para o Caderno de Sábado. As segundas eu escrevia mais umas 80 linhas para aquela seção chamada Biblioteca onde enfocava principalmente livros estrangeiros que não chegaram ao Brasil.

P. - E a propósito quantas linguas você lê?
Léo - Ah. Eu leio só meia duzia. Quatro latinas, o alemão e o inglês.

P. - E o russo que eu sei que está estudando?
Léo - Arranho o russo, que é uma das paixões da minha vida.

P. - E lê muito? Quantas páginas por dia?
Léo - Todos os anos tenho que mudar as lentes dos óculos, porque além de serem livros grandes e eu faço o confronto com a edição original, vejo se a tradução está bem feita, depois procuro datas, dados sobre o autor, tenho que me manter atualizado. Então eu leio, por exemplo, aquela revista alemã, Der Spiegel, leio L' Express, leio Time, leio News Week, leio do New York Time o The Book Review e quando consigo leio o Lire. Ou seja, fora o material que tenho que ler há toda uma constelação de livros que é preciso ler, que preciso ler profissionalmente. E, além disso, há os livros que tenho que lançar pioneiramente no Brasil.

P. - Você escreve ainda naquela revista da Goodyear?
Léo - E a coisa mais importante free lance que fiz nos últimos anos é da Goodyear na qual escrevia sobre escritores brasileiros, de maneira acessível.Você sabe que de house organ ela virou uma revista de muito prestígio no Brasil? Começou a ser vendida em banca. E de vez em quando, quando o tempo dá eu escrevo para algumas revistas da Alemanha e dos Estados Unidos.

P. - Quais?
Léo - Eu escrevi para aquela The Kennyon Review sobre literatura americana e difusão no Brasil, já escrevi sobre Maria Carolina de Jesus numa revista alemã chamada Christ und Welt (O Cristão e o Mundo) e também já fiz um perfil para as revistas Lever da Inglaterra. Traduzo muito teatro: já traduzi Abelardo e Heloisa, o Peer Gynt, do Ibsen para o Antunes Filho, já traduzi Caixa de Sombras e Filhos do Silencio para o Odilon Wagner e a Valéria. E tudo isso não deixa de ser pequenos free lances. Então você vê, que nós da classe média-isso são dados estatísticos do DIESE, perdemos 80% do nosso poder aquisitivo. Então eu tenho que me disciplinar muito, tenho que usar tudo que eu aprendi de disciplina na Alemanha...

P. - E por falar nisso você viveu na Alemanha em que época?
Léo - De 53 a 58.

P. - Foi lá que você escreveu Os Cronistas do Absurdo?
Léo - Não, escrevi no Brasil. Na Alemanha você é forçado, você tem sua alma mater, há uma lei não escrita que é o seguinte: se você vai se laurear por determinada universidade você tem que visitar outras. E daí eu fui para Heildelberg e lecionei literatura brasileira na Universidade de Hamburgo. Isso porque, na Alemanha há o que eles chamam um Weck Student, quer dizer um aluno que paga seus próprios estudos. Assim eu falava em Hamburgo sobre Cecília Meirelles, Jorge de Lima, grandes poetas brasileiros, Carlos Drummond de Andrade. Eles traduziam para o alemão, traduziram, por exemplo: Morte no Avião que foi publicado no mais importante Suplemente Literário da Alemanha que é o do Jornal Frankfurter Algemeine Zeitung.

P. - Afinal você fez universidade aqui ou lá?
Léo - No Brasil fiz até o que se chamava o clássico. Com 18 anos fui embora e fiquei onze anos entre Estados Unidos, Alemanha e Itália. Nos Estados Unidos fiz o (M.E.) e na Alemanha o PhD para o qual você precisa escrever uma tese complicadíssima.

P. - E você escreveu sobre...
Léo - A saudade como permanencia de raízes plotinianas na poesia de Teixeira de Pascoaes que era uma coisa que me animava muito por eu estar muito enfronhado em Plotino naquela época. Eu via naquele movimento da presença da saudade na poesia de Teixeira de Pascoaes uma profunda afinidade com aquela noção do passado, do vivido anteriormente e consignado pela memória. Foi uma preparação para depois ler Proust.

P. - Você gosta de Proust?
Léo - Adoro Proust. Já li nove vezes, quer dizer, são 38 mil páginas - À la Recherche du temps perdue.

P. - Você escreveu um livro sobre Literatura Hispano Americana, O Continente Submerso que foi premiado. Por que Continente Submerso?
Léo - Foi premiado unânimente pela APCA como o Melhor Ensaio publicado no Brasil em 1988 e eu fiquei muito contente. É Continente Submerso porque nós somos um continente submerso. Quer dizer a Europa já está rescendendo a alfazema e procurando no baú sua memória perdida, debruçada sobre sua própria esclerose. Lá não tem nada comparado ao que o Brasil e a América Latina apresentam no plano literário. Ela tem tecnologia, riquezas econômicas. Aliás, nem os Estados Unidos está numa fase muito boa. O Canadá, você sabe é um deserto literário. Então a América Latina é a coisa mais avançada do mundo ocidental porque ela engloba a reinvidicação política, ela exalta o que o Alejo Carpientier e Lesama Lima-cubanos chamaram de ¿realismo mágico maravilhoso da flora e da fauna, da história trágica da América Latina¿. Além disso, a América Latina tem uma enorme riqueza de vocabulário apoiada não só na tradição literária espanhola, sólida-já que eles têm universidades duzentos anos mais antigas que as nossas enriquecidas pela cor local dos vocábulos quichuas ou astecas ou de outros locais que eles aproveitam. Então você vê a América Latina, com Borges, na Argentina, com Juan Rulfo, no México, com Guimarães Rosa no Brasil e com Mário Vargas Lhosa no Peru, revolucionou todo o conceito de literatura porque ao mesmo tempo em que está presa àquela matriz européia de Flaubert para cá, ela tem uma outra vivência dos problemas políticos sociais e ecológicos que se forma agora com todo seu atraso econômico, sua miséria, sua fome, sua plutocracia. É uma literatura de imaginação transcendente com Guimarães Rosa, Cortázar e não precisa dizer com a nossa querida Hilda Hilst também. De maneira que eu acho que é uma literatura apesar do boom que houve e que não inclui o Brasil, ainda insuficientemente conhecida.

P. - Mesmo na Europa?
Léo - Mesmo na Europa. Na Europa eu acho que foi um fenômeno de coisas óticas, de preencher uma lacuna que a Europa não preenche mais e também porque era uma literatura em grande parte traduzível, pelo menos nos países latinos. Agora, nos países que não são de língua latina-Alemanha, Inglaterra, países nórdicos, este boom já houve de uma maneira amortecida. Agora, os alemães têm o mau gosto de pensar que literatura hispano americana são os horrores de romances de Isabel Allende.

P. - Você atribui isso a que? A falta de divulgação da literatura brasileira no exterior? Que mais?
Léo - Ah. evidente. O Brasil não divulga nada, não tem institutos culturais brasileiros de divulgação da literatura, arte, traduções, conferenciais. Para cocktails existe, mas para cultura séria, não.

P. - E por falar nisso, a quantas andam a literatura brasileira? Você diria que estamos vivendo uma fase rica de novos autores?
Léo - A literatura vai muito bem. Uma das poucas coisas, aliás, que anda bem no Brasil. Dentro de um país falimentar, nós temos uma literatura que nunca deixou de apresentar em cada geração, dois, três, quatro e cinco importantes nomes.

P. - E quem seriam esses autores novos bons, que surgiram recentemente?
Léo - Eu acho que apareceram no Brasil, jovens ou iniciantes como o Vicente Cecin que é um paraense que escreve literatura surrealista muito boa, muito bem escrita, não exatamente influenciado por ninguém, ele é apenas levemente surrealista, mas um surrealismo que está presente em Dona Flor e Seus Dois Maridos, em Macondo, de Cem Anos de Solidão, é a atmosfera latino americana...

P. - Mas nós somos surrealistas...(risos)
Léo - Pois é, nós estamos falando aqui e o dinheiro brasileiro está se desvalorizando 1% a cada dia que passa... é a América Latina. Depois, eu tenho a impressão que o Ricardo Guilherme Dicke, um grande escritor que está começando a aparecer agora em Mato Grosso e que tem toda uma temática de busca de Deus, de culpa do homem, de reinvindicações, de exorcismo, de diabos que se apoderam, da ganância, do egoísmo do ser humano. Ele escreve com muita força, com uma renovação vocabular... Depois eu gostei muito também do Wilson Bueno, do Paraná que é um rapaz muito jovem e que está dirigindo uma revista brilhante chamada Nicolau, especializada em literatura. Escreveu um livro muito bonito que é mais ou menos uma crônica do que uma juventude absolutamente desorientada sente hoje no Brasil. Está entre a droga e Lênin (risos). Depois há o Benito Barreto que escreveu Os Guaianás, em dois enormes volumes em que ele, ainda que eu não possa dizer de uma maneira leviana- mas é novamente toda uma temática regionalista que deve abranger a Bahia, Goiás, Minas Gerais e que funde certas intenções do Guimarães Rosa, com certas apreensões do Mário Palmério quer dizer o poder político, os cangaceiros, se é que há cangaceiro em Minas, os preconceitos, a situação da mulher, as transformações sociais, enfim.

P. - Ele faz uma panorâmica, é épico?
Léo - Exatamente, é um grande painel. E, além disso, eu gosto muito do João Ubaldo Ribeiro, aquele livro O Povo Brasileiro eu acho muito engraçado aquilo que ele escreve que o brasileiro é um povo que macaqueia todo mundo, que aqui é o país da bagunça mesmo, que não adianta você botar métodos europeus que não adianta. Agora falando de coisas de qualidade eu constato que a Hilda Hilst mantém uma qualidade assombrosa no seu texto, como o Amavisse e também constato que mantém uma grande uniformidade de qualidade, a Marly de Oliveira nas suas poesias com exceção do seu último livro que foi dos melhores que ela escreveu e também do próprio João Cabral de Mello Neto que continua na mesma linha sem quebrar a qualidade. Ou seja, não estamos mal. Naturalmente o que está acontecendo é que a nossa profunda crise econômica, como ela tem consequências psicológicas, ela influi sobre o que o artista vai escrever.

P. - A sobrevivência fica mais difícil?
Léo - Não aí não, porque as editoras estão oferecendo quase que contratos americanos, eles gostam do rascunho que você escreveu e te dão uma soma grande em dólares para você escrever o livro. Isso é bom. Eu por exemplo já tive quatro editoras querendo lançar meu livro. Isso é bom porque há uma concorrência. Então esta situação está realmente mudando. Agora, o calcanhar de Aquiles eterno é a tradução que é péssima.

P. - Por quê, eles pagam mal os tradutores?
Léo - Possivelmente porque não pagam bem e também porque são pessoas afoitas que dizem que sabem espanhol, inglês, francês, alemão e não sabem. Então você na realidade tem no Brasil, uma meia dúzia de ótimos tradutores e no mínimo dois não são brasileiros. Aprenderam português como Herbert Caro que traduziu Thomas Mann e que é alemão e que traduziu Herman Broch e mora no Rio Grande do Sul. Você tem a Tatiana Belink que é russa e traduz magnificamente para o português. Depois você tem a Lya Luft que é bí-lingue que fala ótimamente alemão e português e traduziu Gunther Grass maravilhosamente bem. Depois temos o Jaime Cristaldi que traduziu o Ernesto Sábato muito bem e tem o Milton Pessoa que traduz Hemingway e o Remy Borba Filho que traduz muito bem os livros do Mário Vargas Lhosa e a Martha Calderaro que demorou dezoito anos traduzindo a Yourcenar e o José Paulo Paes que traduz os gregos, o que é muito pouco. Fora os livros muito importantes que não são siquer mencionados. Tenho mais de cem.

P. - Mas isso é problema dos editores que não investem fundo em cultura?
Léo - Sim porque eles não têm a audácia de saber que vão perder dinheiro num livro que vai vender pouco, mas que é importantíssimo. Há um sábio, um estudioso norteamericano, Boswow que passou anos da vida dele, estudando hebraico, aramaico, latim, persa, grego antigo, inglês, francês, provençal, português espanhol e que escreveu um livro fundamental sobre história e que foi o melhor livro de história daquele ano e inclusive ganhou o Pullitzer e que era um livro chamado A Cristandade, a Homossexualidade e a Tolerância Social onde ele mostrava que até santos, bispos e papas haviam sido homossexuais e, portanto esta atitude de absoluto preconceito da Igreja Católica era uma coisa da Renascença para cá, mas que na Idade Média era de certo modo abafado, tolerado. E no Brasil ficamos privados desse livro, Depois também um livro importantíssimo daquele matemático russo Leonid Plyushen, ele escreveu Carnaval da História, onde relata o que foi o seu julgamento sumário, como dissidente e sua prisão numa clínica psiquiatrica na qual lhe aplicavam alucinógenos na jugular e na carótida. E ele sobreviveu e está na França. Outro livro que foi pouquíssimo divulgado no Brasil numa edição quase clandestina é Contra Toda a Esperança daquele poeta cubano que esteva em cadeiras de rodas. Enfim, são livros que por motivos ideológicos ou eclesiáticos não chegam ao Brasil.

P. - Isso significa que ainda existe censura?
Léo - Existe uma forte censura. Existe aquele livro importantíssimo de três volumes do Kolakoski que é talvez a maior autoridade mundial do marxismo e ele estuda as origens, o auge e a decadência do marxismo. Porque os vários Pcs que o existem no Brasil impedem que debatamos, por exemplo, o problema do Gorbatchev. Foi preciso uma editora de bastante peito, chamada Best Seller para lançar no Brasil, porque parece que havia uma certa dúvida: quanto tempo ele vai durar no governo. E também porque Fidel Castro não aprova o Gorbatchev e isso brecava um pouco. Porque o comunismo brasileiro de modo geral é estalinista, nós estamos quase setenta anos atrasados até no comunismo...

Continua abaixo...

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Entrevista/Literatura


Leo Gilson Ribeiro - Apostando na literatura Brasileira
(Parte 2 - Final)

Ana Lúcia Vasconcelos

P. - Até no comunismo?
Léo - Em tudo. Veja, no Japão você tem uma máquina pequenina para controlar o televisor. Agora na parede você pode tomar a parede inteira se você quiser com a tela. E mais uma coisa ali na tela tem um bocal que tem um disco, igual ao do telefone e quando acaba, o programa, o filme, o musical seja o que for, sai um número e você anota o telefone e liga para a emissora diz o número de cópias que quer daquilo, diz o número da sua conta telefônica e daí a vinte minutos a fita cai nas suas mãos. (gargalhadas)

P. - Quer dizer que estamos anos luz atrasados?
Léo - É como eu digo, não estamos com reserva de informática, estamos com reserva de burrice. O Brasil é uma burrice que vai do Oiapoque ao Chuí (risos).

P. - Somos Premios Nobel?
Léo - Somos. Existem capitanias de burrice com donatários importantíssimos e que não largam, são piores que a Nomenklatura. Somos os marajás da incultura que deixam o Brasil se atrasar tecnologicamente cada vez mais. E isso não acabou quando o Sarney saiu. O Sarney, o Jango, o Getúlio Vargas sem dúvida, os piores desgovernos que tivemos. Porque o Sarney é um político do interior do Maranhão e com uma cabeça correspondente, ele quis dirigir uma Nação que está em grande parte industrializada como se fosse um feudo nordestino. Agora isso só agrava o problema do feudalismo econômico do próprio Nordeste onde você está criando crianças sem cérebro porque estão desnutridas, elas comem farinha com água. E depois de cinco anos você pode dar quantidades imensas de comida que não adianta nada. Isso faz parte de um memorando antigo feito pela UNESCO sobre a infância desvalida, agora vamos ver o que vai dar porque não é possível também um país entregar aos grandes proprietários rurais de um lado e de outro lado, os utopistas cubanos... vai dar uma rumba que ninguém vai poder dançar (risos).

P. - Escuta Léo, aquela velha história sobre o pequeno número de brasileiros que lê, seria verdadeira ainda hoje, ou você diria que houve um progresso neste sentido? As novas gerações ainda lêm na sua opinião e mais literatura brasileira? Afinal pode-se dizer que há uma maior divulgação da literatura nos últimos, digamos dez anos com alguns autores como Loyola, Lygia Fagundes Telles, João Antonio e outros fazendo campanha de divulgação através de palestras em escolas, participação em congressos nacionais e internacionais. Você diria que esta atividade tem sido responsável pelo alargamento do público ledor de literatura nacional?
Léo - Houve um progresso dentro do esgotamento do poder aquisitivo da classe média porque quando justamente a classe média estava ascendendo, ela ficou achatada no seu salário. E lógico, toda família a primeira coisa que corta é o livro, o meu livro eu lamento, está acho excessivamente caro. Ele começou a R$ 3,50 eu acho triste porque eu preferia abrir mão de alguns direitos meus e que ele chegasse a mais gente. Já a editora não fez nenhuma divulgação do livro, que eu achei singular. Eles publicam o livro e não divulgam...

P. - E, no entanto é a Best-Seller que é da Editora Abril e você além de tudo é jornalista...
Léo - Se não fossem meus amigos, jornalistas, críticos que gostaram e escreveram... Você vê, nunca fui convidado para ir a TV. É muito estranho porque afinal eles fazem o livro, gastam um dinheirão, quer dizer seria benéfico para a própria editora. Agora, hoje, há uma grande curiosidade para a leitura e hoje as pessoas estão recorrendo a uma espécie de consórcio individual para poder comprar livros, fazer compra na livraria e pagar em prestações. Eu comprei a Correspondência do Flaubert, da Gallimard, que me custou cinco meses de salário. Agora respondendo a sua pergunta anterior, a presença do escritor estimula muito a platéia a conhecer a obra, sem dúvida. E há muitas professoras de nível ginasial, abnegadas que conseguem incutir em meia dúzia de alunos o gôsto pela literatura. Claro que houve uma explosão, porque apesar de todas as falências do Brasil, ele já é o terceiro ou quarto produtor de livros das Américas, quer dizer Estados Unidos, México e Argentina. Agora realmente o mercado de livros ampliou-se mil por cento. Você vê muitas pessoas percorrendo sebos e não são apenas bibliófilos. São pessoas que querem os livros, não importa se é velho. E agora tem uma novidade: Os editores não têm mandado livros para nós, os críticos. As editoras têm uma cota para divulgação. E como vou saber da existência do livro? Tenho que ir as livrarias e comprar.

P. - E quanto aos veículos que divulgam a literatura? Vamos recordar: Suplemento Cultura d' O Estado de S. Paulo, o Caderno Leitura do Jornal da Tarde, o Suplemento Idéias do Jornal do Brasil, os Cadernos Dois dos vários jornais, enfim você diria que eles são suficientes? Você teria numeors para comprar com outros países?
Léo - Olha pode parecer que eu esteja falando em causa própria, mas o Caderno de Sábado do Jornal da Tarde, dirigido pelo Cleber de Almeida com muita competência já ganhou dois prêmios da Câmara Brasileira de Livros e um prêmio da APCA como melhor orgão de divulgação do Brasil. É superior, dizem eles, ao Jornal Idéias do Jornal do Brasil. Então existiu o Leia, mas o Leia era mais informativo, o Nicolau, o 34 que é uma revista de literatura e não podemos esquecer o Suplemento Literário de Minas Gerais que continua sendo muito importante. Eles não são suficientes porque nós não temos, por exemplo, uma revista exclusivamente de livros como a França tem o Lire. O Lire está ligado a um programa de mais de uma hora que fala só de livros. Então ele convida o autor, o crítico ou ele mesmo fala sobre o livro. A nossa televisão divulga muito timidamente o livro. O Mauricio Kubrusly de vez em quando faz isso e a Márcia Carpentier recebe alguns escritores, fala de livros. Mas enfim vejo esta questão com uma certa esperança.

P. - Seria fundamental que as próprias editoras fizessem a divulgação. Afinal elas seriam as primeiras beneficiárias. Isso é contraditório, não é?
Léo - As editoras americanas, só das universidades, fizeram ano passado, publicidade no valor de 2 bilhões de dólares e nós não fizemos nada. Cada editora devia ter uma percentagem de publicidade paga nos veículos. E agora houve aquele projeto do Jece Valadão e do Jorge Cunha Lima o ticket cultural que dará acesso a espetáculos. Eu já sugerí ao Jornal da Tarde que assim como eles fornecem cupom que dá desconto de 30% aos espetáculos de teatro, que fizessem o mesmo com livros. A Grande São Paulo tem 13 milhões de habitantes ou mais. Se calcularmos que no ano 2000 serão 30 milhões, que é a segunda cidade do mundo, depois da Cidade do México, como não temos aquela padaria espiritual que não fecha, como em Nova York?

P. - Dia e noite...
Léo - Dia e noite, até quatro, cinco da manhã. Muitas vezes você não está com vontade de ver televisão, porque os programas são ruins, você pega seu carro vai para a rua, para as livrarias. O acesso ao livro do ponto de vista comercial é muito restrito aqui no Brasil, é quase horário bancário se a gente exagerar um pouco. Durante o dia, todo mundo está trabalhando e de domingo? Ninguém pode comprar livro? Restaurante, teatros, ficam abertos até tarde da noite, porque não livrarias? Depois era preciso tornar mais ágil o tal do reembolso postal. Você pede o livro e paga quando ele chegar só que é um pouco moroso o trabalho, porque o livro não chega ao destinatário com grande velocidade. Por exemplo, se é um livro que vem do estrangeiro você tem que ir a uma repartição e esperar horas na fila para recolher seu colie postaux. Tudo precisaria ser agilizado.

P. - Como isso funciona em outros países?
Léo - Eles entregam na sua casa e no período de 24 horas. Isso não ocorre aqui porque o Brasil ainda é lusitanamente burocrático, ficou na era colonial a era da desconfiança em que os dízimos de ouro não chegavam à Coroa. É o país dos certificados, dos carimbos. O brasileiro parte da desconfiança. Agora não podemos esquecer que a Editora Abril tem o Círculo do Livro que já tem um milhão de sócios e eles atingem muita gente porque o livro fica barateado com edições grandes e chega a um número bastante amplo de pessoas perdidas em aldeias no Tocantins, Goiás onde não há livrarias. Eu insisto nisso há mais de vinte anos: deveria haver um plano estadual ou municipal para que cada livraria tivesse uma verba para comprar seu imóvel, porque muitas livrarias desaparecem porque o aluguel sobe tanto. Então a empresa estadual ou municipal teria uma verba da Educação. Há lugares no Brasil em que não há uma livraria.

P. - Isso sem falar em bibliotecas, não é Léo?
Léo - Ah, a biblioteca é um negócio muito sério. Você vê a Biblioteca Mário de Andrade, de São Paulo, capital, está numa situação calamitosa. O acêrvo há oito anos não é atualizado, as portas estão seguras com pilhas de jornais, os livros raros não tem ar condicionado, muitos deles estão apodrecendo. Seria preciso fazer um outro edifício grande e climatizado ao lado da biblioteca que é da década de 40 para a década de 90. O Centro Cultural São Paulo foi planejado para ser uma segunda Mário de Andrade e acabou sendo fragmentado em pequenos teatros, ou seja, teve sua intenção desvirtuada.

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Reflexão/Teatro

O teatro, como todas as artes,
é fruto da expressão humana


Ana Lúcia Vasconcelos

O teatro como todas as artes, não é fruto do acaso, mas é expressão do homem, ser humano vivendo no mundo, numa sociedade, numa comunidade, num grupo. Ou seja, a arte em geral, a mais alta expressão de emoções e sentimentos sob variadas formas: pintura, escultura, musica, dança, literatura, teatro, nasce da vivencia do artista em contato com a vida, com as relações sociais, políticas, econômicas da sociedade em que vive num determinado momento histórico. Ou seja, a obra de arte está estreitamente vinculada ao tempo-espaço no qual se origina.

O artista, portanto, é um alquimista, aquele ser diferenciado que vê o que os outros, os não artistas, não vêm, e consegue, graças ao seu talento, dom, transformar no seu cadinho interior, processar no seu cérebro, corpo, alma, espírito, aquelas idéias, sensações, emoções, sentimentos e transformá-los em obras de arte que serão mostradas aos outros homens, já que a obra de arte tem por fim ser usufruída vista, vivenciada pelo espectador.

O espectador da arte seja de uma obra pictórica, uma obra musical, uma obra teatral, ou um espetáculo de dança, não fica imune a ela, ao contrário é tocado por ela, transformado mesmo por elas, para o bem ou para o mal.


Obra de René Magritte

E ainda: uma obra de arte é de tal forma impregnada de significados, signos, símbolos, que pode inclusive ter diferentes interpretações dependendo do olhar que a vê. Ou seja, há um movimento constante, um dinamismo contínuo entre o artista que vê o mundo e o transforma em obra de arte e o espectador, que vê a obra de arte, é transformado por ela e responde com outras tantas questões que serão por sua vez novamente processadas pelo artista e transformadas em novas obras de arte.

Assim, se olharmos a história da humanidade vamos perceber que a cada momento histórico, sócio político-econômico correspondem determinados movimentos artístico-culturais, determinadas formas de expressão, diferentes estilos, que foram, digamos, catalogados a posteriori pelos críticos e historiadores da arte , de maneira que é possível discernirmos as transformações operadas nas diferentes civilizações do planeta pelo estudo das obras de arte produzidas por seus artistas.


A arte é tão antiga
quanto o homem


E a arte surgiu quando? quando surgiram os primeiros artistas? Os historiadores dizem que a arte é tão antiga quanto o homem, quer dizer, ela existe desde que o homem existe e isso podemos comprovar estudando as várias eras históricas. O homem primitivo deixou marcada sua presença nas pinturas rupestres e monumentos, que podem ser vistas ainda hoje nas cavernas e campos da Europa. Ele retratava o que via com os materiais disponíveis: animais, touros, com tintas que conseguia na natureza, barro cozido, pedras. Foi assim que deixou monumentos-os dolmens e os menhires, as navetas, que justamente perduram até hoje porque foram construídas em pedras, e que contraditoriamente, do que se poderia imaginar, já que foram confeccionadas por homens primitivos, rudes, são absolutamente modernos, contemporâneos na sua simplicidade esquemática.


Santuário de Stonhenge


Santuário de Menires de Carnac

Assim, ao longo da história o homem vai deixando sua marca, sua impressão digital. Por que, poderíamos perguntar? porque queremos que nossos pósteros saibam que existimos, queremos comungar com o outro, seja nosso contemporâneo ou não, queremos nos comunicar, já que nossa individualidade não nos basta, precisamos do outro para compartilhar nossas alegrias e dores, nossas angústias, nosso trabalho, enfim nossa vida.

"Porque o homem quer", diz o poeta, escritor, filósofo e jornalista austríaco Ernst Fischer, no seu livro A Necessidade da Arte (Zahar Editores, 1966, SP), "ser mais que ele mesmo-quer ser um homem total. Não lhe basta ser um individuo separado, ele anseia por plenitude. Plenitude na direção da qual se orienta quando busca um mundo mais compreensível e mais justo, um mundo que tenha significação".

"Porque exatamente ele se rebela contra o fato de sua vida ter de se consumir apenas no âmbito particular de sua vida pessoal. Porque ele quer relacionar-se com alguma coisa mais que o seu Eu, alguma coisa que sendo exterior a ele, não deixa de lhe ser essencial. Por que o homem anseia por absorver o mundo circundante, integrá-lo a si, anseia por estender pela ciência e pela tecnologia o seu Eu curioso e faminto de mundo até as mais remotas constelações e até os mais profundos segredos do átomo. Enfim, ele anseia por unir, na arte, o seu Eu limitado com uma existência humana coletiva e por tornar social a sua individualidade."

E não apenas isso, ao mesmo tempo em que ele quer se perder e tornar-se um com o Todo, que seria afinal como que um embriagamento dionisíaco, que, aliás, está na origem do teatro-nascido dos rituais pagãos ligados à colheita da uva, dos rituais de primavera, dos rituais em honra ao Deus Dioniso, o Baco dos romanos, mas conteria ainda, segundo Fischer um elemento apolíneo - aqui a gente precisaria falar dos elementos que compõem o teatro na visão de Aristóteles-o elemento dionisíaco e o elemento apolíneo que vem de Dioniso e Apolo, o deus do equilíbrio das formas.

Ou seja, para Fischer o observador não se identifica com o que está sendo representado e até se distancia. Escapa através da arte, do poder direto com que a realidade o subjuga, libertando-se, através da apresentação do real, do esmagamento que esta mesma realidade cotidiana realiza nele.

Em outras palavras, e porisso ela é tão importante, a arte conteria esta dualidade: de um lado a absorção na realidade, e de outro a vontade de controlá-la, ou transformá-la. Daí que Ernst Fischer pede que não nos iludamos quanto a isso: o trabalho do artista é um processo altamente consciente, processo que afinal resulta na obra de arte como realidade dominada e não, de modo algum, como um estado de inspiração embriagante.

Para conseguir ser um artista, é preciso muito mais do que momentos inspirados: é preciso transformar a experiência em memória, a memória em expressão, a matéria em forma. Daí que apenas a emoção não é tudo para um artista: para transmitir a emoção, sensações, sentimentos que capta do mundo, o artista precisa saber tratar a emoção, trabalhá-la. Precisa conhecer todas as regras, técnicas, recursos, formas e convenções com que a natureza pode ser dominada. Ou seja, como completa Fischer: "o artista não é possuído pela besta-fera, mas ele a doma".


O teatro
esta arte híbrida


E aqui entramos no nosso tema propriamente dito: o teatro é uma arte complexa, uma arte híbrida porque composta de outras artes. Vejamos: o teatro tal como o conhecemos hoje-não vamos falar de como cada elemento foi sendo incorporado e desenvolvido-é composto de várias outras artes.

O drama que pertence ao domínio da literatura; a arte da interpretação, da representação propriamente dita, que seria afinal o sumo do teatro que tem no ator sua figura primordial. Enquanto nas outras artes o artista utiliza um instrumento-na musica, o piano, o violino, o atabaque, a flauta, o teclado, etc., nas artes plásticas o pigmento, na escultura, argila, madeira, pedra, etc., no teatro, como na dança, o instrumento do ator é seu corpo, que ele precisa manter afinado.


Cena de Canto de Gregório, de Paulo Santoro, direção de Antunes Filho, em cartaz no CPT/ Sesc-SP

Mas enquanto o dançarino precisa apenas do seu corpo, o ator precisa também de seu aparato vocal. Assim ele tem que estudar dicção e impostação, canto e dança. Enfim, precisa saber articular as palavras do texto de forma a ser entendido pela platéia. E mais, precisa trabalhar o corpo, a expressão corporal, já que não só de falas vive o teatro, mas de todo o gestual: o ator fala com as mãos, com os olhos, com todo o seu corpo.

Além disso, o teatro ainda é composto de outras artes: os cenários que pertencem ao reino da arquitetura e pintura, os figurinos que pertencem à arte da indumentária, e a luz que pertence à arte da iluminação, com suas regras próprias e hoje com todo um aparato tecnológico jamais visto em outras épocas; a musica que não entra apenas como complemento, como suporte da ação, mas participa da própria arte como um todo, dando-lhe seu substrato.



E mais: o tempo e o tom, o andamento, o ritmo são linguagens, tanto quando a palavra no teatro, e às vezes um é mais importante que o outro, para transmitir a idéia. Stark Young famoso crítico de teatro inglês, no seu clássico O Teatro, da Zahar Editores, exemplifica este ponto dizendo que a simples palavra não, não significa apenas uma negação ou recusa, mas por meio do tempo e do tom vocal, podem ter outras significações.

Assim quando um personagem pergunta: "Tem certeza que ele é culpado?" O outro responde não imediatamente, ou cinqüenta segundos depois numa entonação aguda, ou um minuto após a pergunta num tom enraivecido, e assim por diante, ele está dizendo coisas diferentes, das quais a palavra não compõe apenas uma pequena parcela. O que leva nos leva a concluir que as gradações e os valores do som no teatro são a seu modo, tão infinitos quanto a música, e que o silêncio tanto quanto a palavra também fala no teatro.

E finalmente temos a figura importante, fundamental, do diretor, que é o condutor, o que vai extrair do texto suas idéias chaves e levar os atores expressá-las de forma fiel, não apenas às idéias do dramaturgo mas à sua concepção específica daquele espetáculo. Ou ainda, é o diretor que vai conduzir os atores, cenógrafos, figurinistas, iluminadores, músicos numa criação coletiva que é sintetizada num texto por um dramaturgo.

E tudo isso é preciso esclarecer, todas essas artes: o drama, a arquitetura, a pintura, a indumentária, a musica, a iluminação, a maquiagem, o penteado, não podem existir sozinhas no teatro. Cada uma delas tem que se tornar teatral, ou permanece um corpo estranho. Ou seja, todas essas artes têm que ser transpostas para termos teatrais, todas tem que servir ao clima dramático da peça-aquela ótica do teatro especial, que faz desta arte o que ela é: uma arte única.


Realidades que
representam outras realidades


Os estudiosos dos signos teatrais dizem que todas as realidades da cena: o texto do autor, a atuação do ator, a iluminação, os cenários, os figurinos, a musica, os ruídos, a maquiagem, o penteado, os acessórios são realidades que representam outras realidades. Uma manifestação teatral é, portanto um conjunto de signos. "A arte teatral, diz o autor do artigo A Mobilidade dos Signos Teatrais, Jindrich Honzl, que é um dos quatro que compõem o livro O Signo no Teatro-A Semiologia Aplicada à Arte Dramática, (Editora Globo, 1977, Porto Alegre) é uma arte de representação. O ator representa um personagem, a cena representa o local da ação, a luz branca representa o dia, a luz azul a noite, a música representa um acontecimento e assim por diante."

"Em outras palavras não faz diferença o fato da cena ser parte de uma construção, ser parte do Teatro Nacional, ou um campo limitado por um bosque, ou ainda algumas tábuas colocadas sobre barris, ou um canto da praça do mercado, rodeado por espectadores. O que importa é que a cena do Teatro Nacional possa representar um campo, ou um campo de um teatro rural possa representar uma praça, ou o canto da praça do mercado ocupado pelo teatro, represente o interior de um albergue: isso é teatro."

E a mobilidade dos signos teatrais é tal que as experiências de vanguarda feitas no mundo tem provado isso. Por exemplo, as experiências cubo-fururistas realizadas na Alemanha, na Rússia, liberaram a cena, os cenários das suas funções, de forma que a cena podia ser criada em qualquer lugar, não apenas no teatro ou no palco. Da mesma forma os cenários não eram armações recobertas de telas pintadas.Os vanguardistas alemães usaram numa montagem de Shakespeare, uma ogiva gótica representando uma igreja, armas inglesas numa cortina de seda para designar a sala de armas do palácio, chão verde para significar um campo de batalha.

Outros diretores usaram o ator fazendo a função de cenário e temos exemplos disso nas montagens polonesas onde um ator-oceano aparece caracterizado de modo neutro-vestido de azul invisível e o rosto coberto por uma máscara azul, agitando um véu azul esverdeado preso no chão a seu lado e as ondulações deste véu sugerindo as ondas do mar.

Ou então o ator-móvel-dois atores vestidos de modo invisível se ajoelham na frente do outro segurando as quatro pontas de uma toalha retangular ou ainda ao lado de um ator que faz o papel de capitão um outro ator vestido de azul segura um cabo de uma sirena de navio, esperando que o capitão o abaixe para assinalar sua passagem pelos outros navios.

Há outros exemplos: atores sugerindo tempestade de neve, graças a diversas trucagens e isso tem influencia do teatro chinês e japonês. O teatro chinês possui uma cena rudimentar e as indicações espaciais são transpostas para outros elementos de cena.Vejamos: um personagem abandona o castelo sitiado. Ele caminha para frente do palco. De repente surge o cenário de fundo que representa a porta do castelo em tamanho natural. Um segundo cenário aparece: a porta é menor, o que significa que o ator se distanciou. Ele prossegue seu caminho.Sobre um pano de fundo cai uma cortina verde-escura. Ele perdeu de vista o castelo.

No teatro japonês igualmente não é necessário que um espaço seja indicado por um espaço, um som por um som, uma luz por uma luz. Podemos ver sons, ouvir um imenso campo, e a simples percepção do traje de um ator pode nos informar o que no teatro europeu ficaríamos sabendo por meio de palavras.

E não é só no teatro japonês ou chinês ou polonês ou alemão que se fazem experiência deste tipo. Aqui bem perto de nós diretores como Antunes Filho e Gerald Thomas e outros experimentam no teatro. Quem viu o espetáculo Nelson Rodrigues Eterno Retorno, um espetáculo de Antunes Filho sobre várias peças de Nelson Rodrigues, deve se lembrar que ele usava um palco nu e sete cadeiras e uma dezena de atores maravilhosos e o resultado era deslumbrante.


Cena de Nelson Rodrigues o Eterno Retorno

Afinal o que está no fundo
da vontade de representar

Agora por que fazer teatro? Para que os amantes do teatro querem fazer teatro? Qual seria a finalidade ou função do teatro e toda arte? Bem resumido, que esta é uma questão complicada, vou citar apenas duas concepções de tres famosos escritores, críticos, criadores de teatro e literatura.

No prefácio do livro O Teatro e sua Realidade, de Bernard Dort, o ator e diretor brasileiro Fernando Peixoto, que participou de momentos importantes da história do teatro nacional como a montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade-que foi um marco na história do teatro brasileiro, dirigida pelo José Celso Martinez Corrêa, criador do famoso Teatro Oficina na década de 60, (e que foi remontada pela Companhia de Atores de O Rei da Vela, com direção de Enrique Diaz, em 2000 e encenada no Centro Cultural Banco do Brasil, de que vocês terão uma amostra na foto na seqüência), especialista em Brecht, cita uma frase do Julien Beck criador do Living Theatre, famoso grupo de vanguarda que foi moda nas décadas de 60 e 70 .

Julien Beck teria dito "Teatro é vida", enquanto Dort, repetindo Brecht afirmou: "Teatro não é vida, é representação, não se confunde com a vida, possui sua realidade específica e seu objetivo é fazer o espectador, depois, intervir na vida".


Cena da remontagem de O Rei da Vela

Sobre o mesmo assunto, Jean Paul Sartre, famosos escritor francês, criador do existencialismo, assim se expressou sobre a finalidade do teatro: "Todos nós sabemos que o mundo muda, que transforma o homem e que o homem transforma o mundo. E se não for este o tema profundo de toda peça de teatro, então é porque o teatro não tem mais tema".

Enfim é isso: o teatro como todas as artes tem esta dupla finalidade ou contém em si essa dualidade: fazer o espectador mergulhar numa realidade entre aspas fictícia, para que, se perdendo nela, se purifique de suas emoções, sentimentos, realize a catarsis como queria Aristóteles, para retomar seu equilíbrio e mudar, não apenas, sua vida, mas a vida da comunidade em que está inserido. Se não for esta a finalidade do teatro: nos transformar para transformarmos o mundo, então ele não está cumprindo sua função, na minha opinião.


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Religiosidade On-Line

Portal da Fraternidade Mestre Jesus oferece, via internet, momentos de Paz para todos que tem

fonte:Fraternidade Mestre Jesus

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Espiritualidade

A importância da Missa
e da Eucaristia


Ana Lúcia Vasconcelos

No seu livro Eucaristia O Sacramento da Cura, o Pe. Roberto De Grandis, SSJ (Editora Raboni Caixa Postal 1700- 1996 -Campinas - SP), já na 6ª. Edição, diz na introdução que sempre que encontra ex-católicos lhes pergunta o que pensam sobre a Eucaristia. E geralmente a resposta é mais ou menos esta: "Não sei", ou "Não pensei sobre isso".

"A Eucaristia é o centro da nossa fé. Você pode conceber alguém que diz: 'Até logo, Jesus. Vou para aquela outra igreja onde a música é melhor, a pregação é mais poderosa e as pessoas são mais amáveis'?"

"O que se faz necessário na Igreja", ele continua, "é proclamar o Evangelho e ressaltar o extraordinário dom da sagrada Eucaristia:o próprio Jesus.O ideal é que tivéssemos adoração perpétua em todas as paróquias, de modo que as pessoas pudessem crescer nesse relacionamento pessoal e profundo com Jesus."

Continua dizendo que nos seus retiros para sacerdotes costuma enfatizar a cura através da Eucaristia e pede que preguem muito sobre a "fonte e ápice de toda a vida cristã". E aqui ele cita um outro livro seu intitulado Healing Through the Mass (A cura pela missa-Mineola, NY Ressurection Press, 1992.)

E justamente lembra que neste livro ele quer focalizar nossa atenção para estes maravilhosos sacramento e propor algumas considerações a respeito dos diversos passos para receber Nosso Senhor na sagrada comunhão. Espera que este trabalho desperte os leitores para o ritual mais importante de nossa vida: receber Jesus em nosso coração.E termina a introdução citando um livro The Way of Divine Love (O Caminho do amor divino) de Rockford, IL, Tan Books and Publishers, (1981), onde Jesus fala à irmã Josefa Menendez:

"Quero falar-lhes das dores lancinantes que encheram Meu coração na Última Ceia. Se para Mim foi motivo de alegria pensar em todos aqueles a quem Eu seria tanto Companheiro quanto Alimento celeste, em todos aqueles que estariam Comigo até o final dos tempos, em adoração, reparação e amor... isso de forma alguma diminiu Minha tristeza por todos aqueles que Me deixariam abandonado em Meu Tabernáculo e que nem mesmo acreditariam em Minha presença real."

Em quantos corações corrompidos pelo pecado Eu precisaria entrar... e quantas vezes essa profanação de Meu Corpo e Sangue seria a causa de sua derradeira condenação... A sagrada Eucaristia é a criação do amor... ainda assim, quão poucas almas correspondem a esse amor que por elas se esgota e se consome!"

E sobre a importância da Missa vários santos falaram, como Santo Agostinho: "Uma só missa a que houveres assistido em vida será mais salutar que muitas a que os outros assistirão por ti depois da morte. Será ratificada no Céu a benção que do Sacerdote recebes na Santa Missa".

Santa Mectildes: "Todas as missas tem um valor infinito, pois são celebração pelo próprio JESUS CRISTO, com uma devoção e amor acima do entendimento dos Anjos e dos homens, constituindo o meio mais eficaz que nos deixou Nosso Senhor JESUS CRISTO para a salvação da humanidade".

São Francisco de Assis: "Sinto-me abrasado de amor até o mais íntimo do coração pelo santo e admirável Sacramento da Santa Missa e deslumbrado por essa clemência tão caridosa de Nosso SENHOR, a ponto de considerar grave falta, para quem, podendo assistir a uma Missa, não o faz".

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Espiritualidade


Como usar o
Sangue Redentor de Cristo



Revelações de Jesus a Maria Sevray
em Divins Appels


Diz Jesus: "Tenho sede que os Meus sofrimentos e Minha morte sejam aproveitados pelo maior número de almas. Para isso preciso de intermediários-porque sem um impulso das almas para Mim (uma oração), os Meus Méritos ficariam por serem utilizados. Ora, que desolação para Mim depois de ter sofrido tanto, ver como faltam intermediários, como os meus sofrimentos são estéreis para um grande número delas".

Vinde todos vós que Me amais, vinde e compreendei a Minha Dor lancinante, ao vê-los cair no inferno aos milhares enquanto o Meu Sangue não espera senão poder salvá-los. Rezem pelos pecadores, rezem e supliquem pelos agonizantes...E que tenham confiança. Se rezassem com ardor, com confiança tudo se obteria".


Pelos pecadores

"Eu peço como mendigo, intermediários entre Eu e os pecadores. Sim, o Meu Maior Desejo é fazer derramar os Meus Méritos, Meu Sangue sobre esta multidão de impios, de orgulhosos perversos. Mas é preciso que Me supliquem, sabendo bem que podem ser atendidos e que o serão, se o fizerem com sincera esperança de receber o que pediram".

Que se ofereça a Minha Paixão e a Minha Morte o Meu Sangue. Mas que o façam sem dizer que não vão obter, e que é demasiado difícil que não se poderá obter. Se rezarem assim, de fato não obterão. Mas se rezarem com fé de quem sabe que Eu Sou o Onipotente e que as mais inconcebíveis transformações são para Mim uma brincadeira de criança e que Eu disse: pedi e recebereis... Se unirdes estas duas verdades tão claras e com estas disposições de se lançarem na oração... então em verdade vos digo, obterão.

Entrai, pois na contemplação de todas as minhas dores, segui os sublimes acontecimentos e os Meus gestos da Minha Paixão. Pedi-Me que se convertam todos os pecadores, porque Eu ardo em desejo de os salvar. Vinde buscar o que lhe é necessário no Meu Sangue, nas Minhas Chagas.

Estes méritos são vossos, se vós quiserdes. Mas, para isso é preciso acreditar em plenitude. Uma só pequena hesitação impediria não uma aplicação dos Meus Méritos, mas a aplicação plena e total. Ora é esta aplicação total que Eu vos quero fazer. O Meu Sangue quer ir a vós em plenitude...

Ah! se vós tivésseis fé...sabeis o que eu digo no Evangelho... Uma gota do Meu Sangue seria suficiente para salvar mil mundos. Mas pela comunhão dos Santos dei às outras almas o poder de ir buscar o meu sangue e de o derramar sobre os pecadores... Por uma ardente Fé.

Vem abastecer-te dos meus sofrimentos, dos meus Méritos, do meu Sangue Redentor. Sei Eu preciso que tudo seja utilizado. E é, sobretudo às almas intermediárias que Eu recorro para isso porque os pecadores por si mesmos são demasiado cegos e estão demasiado longe de Mim.

Eu suplico que Me Amem e compreendam as minhas sede ardente e que venham se abastecer dos Meus Sofrimentos, do Meu Sangue, para derramar sobre as almas superabundantes tesouros de graça. O meu Sangue Redentor fica inoperante se as almas não o utilizassem. Oh... o grande mistério de Amor e de Verdade... é bem verdade que os méritos, os meus sofrimentos e o Meu Sangue são vossos, e que vós podeis dispor deles na medida em que quiserdes... e quanto maior for essa medida, mais contente eu fico. Bem vês como é verdadeira esta frase: Eu peço às almas que completem o que falta à Minha Paixão redentora.

Oh!... é certo que do meu lado nada falta , pois só uma gota do Meu Sangue teria sido suficiente para salvar mil mundos e Eu o derramei a jorros...do lado divino não falta nada: do meu lado nada faltou-tendo sofrido como homem e tendo dado como Deus um preço infinito aos meus sofrimentos. Mas há duas partes em presença: Eu Redentor, e a criatura a resgatar. Sabes que eu fiz o homem livre. Não posso, pois, impor-lhes que tire proveito da Minha Redenção.

É preciso que ele queira tirar proveito da minha Redenção.A Minha Misericórdia vai então a ponto de permitir que as almas rezem, mereçam, umas pelas outras. Fiz isso porque pensava que encontraria almas que Me haveriam de amar e que desejariam satisfazer minha sede de Salvação das almas.

Então aproveitando o poder que lhes dei, elas usariam e utilizariam o Meu Sangue, para Me obter os pobres pecadores. Também aqui Eu fui desiludido - isto não afeta em nada a minha presciência das leis, tudo em sentido amplo, no sentido em Eu o digo. Sim eu fui desiludido, porque quantas são as que não utilizam estas riquezas, que são suas.

Oh! alma porque fazes isso? Por que?.. é a falta de Fé ou pelo menos a falta de fé prática, de convicção profunda total? Duvidas até mesmo inconscientemente de que os Meus Sofrimentos, os Meus Méritos, o Meu Sangue são verdadeiramente tua propriedade? Peço-te que acredites e depois te recolhe para que esta convicção te penetre até os ossos.

Se vivesses esta convicção bem a fundo torna-la-ia atuante; oferecerias o Teu Divino Tesouro. Oferecê-lo-ias a Meu Pai, como sublime e perfeito pagamento. Oh.um pagamento a que nada falta... evidentemente é necessário que o pecador se queira aproveitar desse pagamento... mas oferecei... oferecei... suplicai... e obtereis para ele a ação do fogo de uma oração intensa. A essas graças preliminares seguir-se-ão outras graças, e depois a Graça da Conversão.

Eu vos suplico, fazei-o ó almas que Me amais. Que os Meus Sacerdotes o digam. Que eles repitam às almas para elas serem as minhas orantes intermediárias...


Pelos agonizantes

Há outras almas que estão presas no laço maldito e Eu desejo libertá-las, elas não desejam. São os pecadores. Ah. peço-te que ofereças várias vezes ao dia o Meu Sangue por elas... muitas vezes... Porque não criar o hábito de o fazer todas as vezes que o relógio der as horas sem prejuízo das outras vezes?

Enviai ao Meu Pai, uma súplica ardente... que Ele aceite os Meus Sofrimentos , e o Meu Sangue para que determinada alma, que esteja a ponto de deixar esta terra e que Satanás tenha nas suas garras , seja enfim liberta e volte a Mim. É muitas vezes uma questão de minutos. Concedo-te a graça de Me salvares, sobretudo essas... Mostrar-te-ei como graças à oferta ardente do Meu Sangue, elas se podem converter, uma conversão bem consciente, total e fervorosa.

Criai o santo hábito de o fazer muitas vezes. Envie assim, envie a vossa súplica até o leito de morte que eu tiver escolhido, talvez até muito longe do outro lado do mundo...Talvez menos longe, onde Eu quiser... A vossa oração, desejo que ela seja uma súplica intensa.A Minha Misericórdia é infinita...E para atuar ela tem a duração do tempo. Dai... dai campo à Minha Misericórdia apresentando-lhe muitas almas... muitos pecadores... Rezai também pelo mundo angustiado... e tende esperança...


Oração para proteção
contra Satanás


Esta oração foi ensinada por Nossa Senhora da Alegria à vidente Annie, nos Estados Unidos para proteção contra Satanás e deve ser feita ao menos tres vezes ao dia:

1. Ao acordar, de manhã, antes de sair da cama, para que cada pensamento, palavra e ação, sejam consagrados a Jesus;
2. Ao meio dia para lembrar de manter sua vida centrada em Jesus;
3. Logo antes de ir dormir, à noite para que sua mente subconsciente seja protegida do maligno, enquanto estiver dormindo.


Consagração ao
Sagrado Coração de Jesus


Sagrado Coração de Jesus, eu vos consagro minha mente (+ na testa), minhas palavras (+ nos lábios), meu corpo (+ no centro do peito), meu coração (+ abaixo do ombro esquerdo) e minha alma (+ abaixo do ombro direito) para que vossa vontade seja feita através de mim neste dia. Amém.

As palavras acompanhadas dos sinais da cruz vão selar no precioso sangue de Jesus e assinalar a vitória de Jesus sobre o pecado e a morte.


Como restaurar
a paz no coração


Antes da sua morte, Frei Slavko (de Medjugorje) celebrou uma missa no Cenáculo de irmã Elvira. A todos aqueles jovens que lá estavam, ex-drogados que tinham sofrido por falta de paz na família, ele dava o melhor de si próprio, como a seus filhos espirituais. Disse-lhes nesse dia: "Sabem quando se perde a paz? É quando se começa a ver apenas um aspecto da pessoa, um lado que nos desagrada, sem levar em conta a pessoa na sua totalidade. Observando-se apenas o lado negativo, a crítica introduz-se em nós e nos esquecemos do resto. Focalizando apenas o que nos desagrada, tornamo-nos cegos, mesmo que a falha seja real. Assim, perdemos de vista o que ela fez, o que ofereceu, o que sofreu, etc. Entramos então numa visão limitada do outro, que é falsa e prisioneiros dela, perdemos o sentido de gratidão!".


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Reflexão

O QUE É ISTO, CULTURA?

Escrevi este artigo quando fazia mestrado na Unicamp, mais exatamente de 90 a 93, durante um curso maravilhoso ministrado pelo professor Antonio Muniz de Rezende sobre Filosofia da Linguagem e Psicanálise. Ali recordei que depois que Descartes (1596-1650) disse cogito ergo sum, fiquei sabendo que existo, dado que penso. E ainda aprendi que Martin Heidegger, ( 1889-1976) filósofo alemão, disse que o ser humano fala, o que, aliás, todos sabemos. A novidade é que ele fala não por ser humano, mas o ser humano é humano porque fala. Daí que eu tenho outro dado: sou um ser humano, dado que falo.
Fora isso aprendi que depois de Kant (1724-1804) houve uma mudança radical na questão do conhecimento, segundo os estudiosos da questão. Até Descartes a questão que se colocava era: o que conhecemos, quando conhecemos alguma coisa? Com Kant a questão passou a ser: o que dizemos, quando dizemos que conhecemos (alguma coisa)?


Ou seja, e estou ainda citando o professor Muniz de Rezende: "a filosofia passou a ser uma filosofia da linguagem, uma lógica do conhecimento. Kant dizia que só a ação nos salva de um mundo fechado e Marx (1818-1883) vai dizer que não se trata de conhecer o mundo, mas de transformá-lo e que só conhecemos realmente o mundo quando queremos transformá-lo".


Ou seja, para Marx, a práxis é a salvação do conhecimento. Para ele, a possibilidade do conhecimento se dá graças ao embate, ao afrontamento do homem com a natureza, do que resulta a cultura. Assim, a cultura para ele seria fruto da transformação da natureza pela ação humana. O que significa em última análise, que o conhecimento nasceria da práxis. (Em tempo, quero esclarecer que não sou marxista, apenas estou citando um pensador com quem no caso, concordo completamente.)

" QUANDO EU OUÇO FALAR EM CULTURA EU PUXO O REVÓLVER"


Goebbels

Mas afinal o que é isto, cultura? Joseph Goebbels (1897-1945), diretor de Propaganda Política do Terceiro Reich, braço direito de Hitler, sobre esta questão emitiu uma frase que ficou célebre: "Cada vez que ouço falar em cultura, eu puxo o revólver". Alguns, quando ouvem falar na tal coisa, puxam uma caneta e prejudicam largamente a cultura e a arte,


Primeira reflexão: quer dizer que o conhecimento que nasce da práxis, ou seja, do contato dos homens em ação, em ação de viver no mundo é perigoso? talvez assustador? Sim, porque Goebbels disse que puxava o revólver e outros a caneta e o prejuízo que ocasionaram foi semelhante para os povos das respectivas nações, e então podemos concluir que eles tinham medo da cultura? Mas afinal, o que é isto cultura, para que pessoas tenham medo dela?


Cultura é o acervo de conhecimentos da humanidade, em primeiro lugar, mas não o acervo enquanto peça de museu, paralisado, feito, acabado, mas o acervo em processo de feitura. Enquanto escrevo este artigo, milhões de pessoas no mundo inteiro estão escrevendo suas matérias nos jornais, editoras, artistas estão criando suas obras nos seus coreógrafos estão fazendo seus balés, diretores de teatro ensaiando suas peças com seus atores, cientistas estão pesquisando nos seus laboratórios, estudantes estão aprendendo nas salas de aula, operários estão trabalhando em suas máquinas, novas descobertas em todos os ramos do conhecimento humano estão sendo detectadas nos simpósios e congressos e assim, neste espaço de tempo de algumas horas, este acervo já está enriquecido de novos conhecimentos e assim indefinidamente.


Mas cultura é também identidade de um povo, sua impressão digital, sua marca registrada.Quando eu digo sou brasileira, o estrangeiro que me ouve registra imediatamente as informações que tem sobre este país. Quando eu dizia isso na Europa a maioria dizia: carnaval, Pelé, Rio, ou seja, símbolos do Brasil que não são exatamente tudo o que é a cultura do país, mas é o que a maioria lá fora pensa da cultura brasileira.


Hoje naturalmente há o cinema que está voltando com fôrça no mercado internacional, a música popular, o teatro, a literatura brasileira que cada vez mais está sendo conhecida em outros países do planeta e mesmo as telenovelas (ainda que façamos todas as críticas acerca delas) enfim as coisas estão começando a melhorar, mas ainda é pouco. Se quisermos que as coisas mudem, precisamos mudá-las.

VIOLÊNCIA É CULTURA

Guernica, Picasso

Quando eu era editora de lazer do Jornal de Hoje de Campinas, (lazer é cultura) fiz uma matéria sobre um crime bárbaro cometido por um jovem de 19 anos (violência é cultura... da barbárie evidente), e contei, para um dos meus entrevistados, o psiquiatra Sully Urbach, professor de Psicologia Médica da PUCCAMP na época, (hoje ele está aposentado da universidade, mas continua clinicando), que havia tido a idéia de escrever sobre o tema varrendo a casa. Ele me disse: "mas varrer a casa é um ato cultural". Aliás, tenho boas idéias tomando banho. Banho também é cultura.


Vamos lá: varrer a casa é um ato cultural meu, ou um ato cultural comum a toda a humanidade como parte daquele acervo de conhecimentos que constitui a cultura? Varrer a casa é um ato cultural de uma pessoa que mora num país da América do Sul, colonizado por um país europeu chamado Portugal, de quem herdou costumes, religião, etc. e que também é um país integrado por várias nacionalidades européias e asiáticas, sendo, portanto constituído de várias culturas e que apesar disso tem uma identidade nacional própria, ou seja, tem uma cultura própria.


Uma cultura própria, aliás, composta de várias culturas, como a das tribos indígenas remanescentes no país que não praticam este ato cultural de varrer a casa, o que não significa que haja superioridade da nossa cultura em relação à deles: simplesmente pertencemos a culturas diferentes.


Daí que quando pensamos em cultura podemos estar falando do acervo de conhecimentos comuns à humanidade, ou de um modo de vida de um determinado povo ou de diferentes camadas, segmentos deste povo. Mas os povos não vivem isolados, vivem inter-relacionados-: para falar a verdade, depois dos satélites viramos uma "aldeia global" como disse Marshall Mac Luhan e tanto isso é verdade que a Guerra do Golfo, por exemplo, ou da ex-Iugoslávia, ou os atentados ao World Trade Center e suas conseqüências, só para citar tres exemplos relativamente recentes, afetaram todos nós. Isso sem falar que agora com a Internet estamos irremediavelmente ligados para o que der e vier, per omnia saecula seculorum.

OPÇÕES À BARBÁRIE


Projeto para substituir as Torres Gêmeas em Nova Iorque

O pesquisador José Luis dos Santos, autor do livro O que é cultura, da Coleção Primeiros Passos da Editora Brasiliense diz que "cultura pode, por um lado referir-se à cultura dominante e por outro, a qualquer cultura. No primeiro caso cultura surge em oposição à selvageria, à barbárie e aqui seria a própria marca da civilização.


Num segundo momento, ele acredita que se possa falar de cultura como a marca das camadas dominantes da população de uma sociedade, em oposição à falta de domínio da língua escrita ou à falta de acesso à ciência e a religião das camadas dominadas. No segundo caso pode-se falar da cultura, referindo-se a qualquer povo, nação, grupo ou sociedade humana. Ele diz ainda que "considera-se cultura todas as maneiras de existência humana".


Isso significa que não posso escapar da minha cultura ou até posso viver no meio dos índios brasileiros, por exemplo, e até me adaptar ou viver no deserto do Saara, com os pastores nômades ou com os esquimós ou sei lá com quem, mas vou (vamos) continuar sendo nós mesmos no meio de outra cultura. Ou seja, meus mínimos gestos (os seus também) me traem de tal forma que uma vista d'olhos num grupo qualquer, um rápido passeio pelas ruas de uma cidade aqui ou alhures, me permite, te permite, nos permite, observar o grau de cultura daquele "povo".


A cultura transparece, ela é subjacente ao nosso comportamento, ao nosso modo de estar no mundo. Daí que saber andar na rua é cultura, saber se comportar no trânsito é cultura, ser honesto é cultura. Fazer cambalacho é cultura, querer levar vantagem em tudo é cultura, ser corrupto é cultura, dissimular é cultura, ser ineficiente é cultura. A cultura da barbárie bem entendido.


Além disso, cultura tem a ver com objetivos, fins, visão de mundo. Dependendo das respostas a essas perguntas: que tipo de sociedade somos, o que pretendemos de nossa vida em comum , que objetivos pretendemos atingir como Nação poderemos elaborar planos, traçar diretrizes, estabelecer metas. Daí que consciência é cultura, a tal ponto que o que pensamos sobre coisas como consumo, distribuição de renda, acesso à educação, vai dizer que tipo de cultura é a nossa.

RECORDAR É CULTURA


livro: memória da humanidade

Só para recordar (recordar é cultura): o Goebbels disse que puxava o revólver cada vez que ouvia falar em cultura.Vamos pensar com calma: eu puxo o revólver, bom eu não puxo porque eu não tenho um revólver, mas na hipótese de eu ter um, em que circunstâncias eu o puxaria? Pausa para pensar. Fim da pausa: me imaginei num safári (safári é cultura) em plena selva africana e constatei numa viagem imaginária que não puxaria o revólver mesmo se ameaçada por um leão (ou uma leoa). Não consegui apertar o gatilho. E Goebells? apertaria o gatilho?


O que acontece é que os violentos, os tiranos explícitos ou disfarçados, de todos os tempos e de todos os quadrantes do planeta, têm o conhecimento, a arte, a livre expressão, a cultura enfim do povo, sob mira dos seus revólveres, espingardas ou metralhadoras ou debaixo do tacão de suas botas ou simples sapatos de couro (alemão, ou não).


O fato é que pensar, debater idéias, adquirir conhecimento e tomar consciência é assunto de alta periculosidade. Isso porque é a luta simbólica da luz contra as trevas, ignorância versus conhecimento, negritude versus luz irradiante do sol interior que se abre para quem busca o conhecimento e além dele, a sabedoria.


Paralisadas de medo na verdade "concretos na sua concretude" como diz a psicanálise, (isso também aprendi com o professor Muniz de Rezende), não indo além do visível, incapazes de transcender através da simbolização e ir além da "mera física", os tiranos na verdade são mais dignos de pena. Mas atenção, o mal que eles fazem, o estrago que praticam à sua volta é tenebroso, às vezes insanável por gerações. Daí que é preciso detê-los na sua escalada destruidora. E detê-los como? Que tal agirmos em favor da vida contra a morte. Você duvida que a ação nos transformará?

Ana Lúcia Vasconcelos

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Canto da amiga para
a poeta depois da sua morte -
Vida Hilda Hilst


Ana Lúcia Vasconcelos

Hilda Hilst foi uma das maiores escritoras brasileiras, considerada pelos críticos como a produtora da obra mais audaz realizada no país depois de Guimarães Rosa. E um dia, que está cada vez mais próximo, ela será considerado um gênio da literatura mundial, já que sua obra vasta-41 livros entre poesia, prosa e teatro estão sendo traduzidos e publicados na França, Itália, Espanha, Inglaterra, Alemanha.

Considerada uma escritora difícil, hermética, Hilda era tida pelos críticos mais importantes do país como Anatol Rosenfeld, Leo Gilson Ribeiro como uma das "maiores vozes do país". E sobre a fértil diversidade da escritora Anatol, falecido na década de 70 e, portanto tendo conhecido apenas parte de sua obra disse o seguinte: "É raro encontrar no Brasil e no mundo, escritores, ainda mais neste tempo de especializações, que experimentem cultivar os tres gêneros fundamentais da literatura-a poesia lírica, a dramaturgia e a prosa narrativa, alcançando resultados notáveis nos tres campos. A este grupo pequeno, pertence Hilda Hilst".

E em 85 o austero Le Monde parisiense confirmava as palavras de Rosenfeld, referindo-se a um livro que ele não conhecera: "A obscena senhora D (prosa) e Da morte. Odes mínimas (poesia) são os cumes da escritura literária".

Leo Gilson Ribeiro, à época, critico do Jornal da Tarde, atualmente escrevendo para a revista Caros Amigos, apaixonado pela obra da Hilda Hilst, como, aliás, ficam todos que a conhecem, escreveu várias vezes que ela era para ele "o maior poeta vivo em lingua portuguesa"."Hilda Hilst, dizia, "não comunica ao leitor uma vivencia pessoal-ela incorpora o leitor a essa vivência doravante compartilhada. Uma vez lidos, seus livros passam a integrar a nossa realidade, a nossa memória, o nosso frêmito".

E por que sua obra era considerada difícil? Justamente porque ela fala de coisas essenciais: da vida, da morte, do amor, de Deus, da alma e tudo isso numa linguagem moderna, desarticulada, revolucionária. Ela reconhecia que sua proposta era de uma revolução interior e me disse numa das entrevistas que fiz com ela: "Comecei me desestruturando depois de vinte anos de poesia arrumada. E esta linguagem ordenada, de comportamento que quero desordenar, reflete a época, o momento visceralmente conturbado. É preciso dominar uma certa desordem para que aconteça alguma novidade real dentro de você. Há uma reformulação da linguagem como deve haver uma reformulação de comportamento".


Mudança na alma
Do homem



Como não acreditava nas soluções políticas parciais propostas pelos políticos , endossava Arthur Koestler quando este afirma que para que os homens se transformem em Homo Sapiens é preciso que haja uma modificação de "essência álmica". Ou seja, uma mudança na alma humana. Só assim Hilda acreditaria no homem deste século. Tanto é que escreveu no seu Júbilo, memória, noviciado da paixão, um poema onde dizia:

"Que te devolvam a alma,
Homem do nosso tempo,
Pede isso a Deus
Ou as coisas em que acreditas...
à terra, às águas, à noite
Desmedida.
Uiva se quiseres,

Ao teu próprio ventre
Se é ele quem comanda
A tua vida, não importa,
Pede à mulher,
Àquela que foi noiva
À que se fez amiga,
Abre a boca, ulula
Pede à chuva
Ruge
Como se tivesses no peito
Uma enorme ferida
Escancara a tua boca
Regouga.A ALMA. A ALMA DE VOLTA ".

Tão preocupada com esta problemática da imortalidade da alma ela foi, que fez até uma experiência em determinada época, a partir de experiências de um sueco chamado Friedrich Jurgensson que um dia, gravando sons de pássaros na floresta captou vozes de amigos mortos. Achou que era problema na fita, mudou de fita, mas as vozes continuaram e ele iniciou uma pesquisa sobre a vida depois da morte digamos, para-cientifica. E a Hilda embarcou nessa, e durante anos parou de escrever e também praticou este tipo de experiência e conseguiu alguns resultados interessantes.

Eu segui de perto este período e até apresentei a ela o físico César Lattes e ela chamou ainda o Mario Schenberg que era seu amigo para compartilhar a experiência. À época, cerca de mil pesquisadores na Europa e Estados Unidos estavam igualmente fascinados pela pesquisa e ela se sentia bem acompanhada. Mas ficou decepcionada com os amigos citados acima. César Lattes disse: "Hilda, a Física ainda está na infância", e afinal ela se sentiu novamente rejeitada, tida como louca.

Sua versão de tudo isso: como as pessoas não quisessem mudar o conceito que tem da morte, partiam para uma agressividade sarcástica terrivel para com ela. E por que isso? Se não teria nenhuma vantagem material nisso, até mesmo estava deixando de escrever para se dedicar a este trabalho. E por que apesar de tudo insistia "contra esse muro aparentemente impenetrável de descrédito e caçoada?".

"Porque acho que a morte é a única situação transcendente do homem, a problemática mais importante do homem". E a partir desta experiência ela acreditou que conseguira uma esperança maior, porque na época, 1977, ela, que já lia e meditava há vinte anos sobre o Homem, a Morte, o Ódio, achou que a sua criação literária e as fitas coincidiam num ponto: "na urgência de comunicar ao outro-você é imortal, não receie a morte, em sua imortalidade, cada um de nós preservará a sua individualidade, não é aquela dissolução do eu no Nirvana, como prega o Budismo. É isso que eu quero fazer: chamar a atenção, por meio da literatura e das minhas experiências psíquicas, para o inadiável, para a premência de se reproporem as tarefas prioritárias do homem".

Aos que diziam que não era preciso mudar a vida do homem aqui e agora, sua resposta era que uma coisa na anulava a outra e, sobretudo que se "renunciasse a todo terrorismo, aos ódios desumanizadores das guerras".E citava grandes sábios da Física: "Heilbronner. Teller, Heisenberg, infinitamente mais cultos que eu, não sabem definir com precisão o que é antimatéria, matéria, neutrinos. Como leigos então, podem ter a presunção de ostentarem uma visão tão estreita das coisas? Tudo pode caminhar ao lado da luta pela eliminação da fome, pela conquista da justiça social, da fraternidade, da liberdade".


Literatura como instrumento
de conscientização


Respondendo a pergunta do Leo Gilson Ribeiro numa das suas inúmeras entrevistas ao Jornal da Tarde (18-4-1977), sobre se a Literatura era para ela um instrumento de conscientização, de reflexão, uma forma enfim de atuar sobre a realidade humana, ela respondeu que, embora existam determinados caminhos que podem reposicionar o homem: a pesquisa científica, a filosofia metafísica, para ela era, sobretudo a literatura o seu meio de expressão. "Não sou pianista, nem pintora, assim para mim, é através da literatura que você pode se conhecer a si mesmo. Ora, só se conhecendo a si mesmo é que você pode conhecer reconhecer o próximo, o Outro. Essas diversas vias capazes de reestruturar a visão que o homem tem da vida, de si, do universo, para mim têm na literatura uma conotação efetiva que reforça esta escolha como instrumento de minha expressão".

"Meu pai, Apolônio Prado Hilst, era poeta, ensaísta, assinava com o pseudônimo de Luiz Bruma, foi uma das primeiras pessoas a falar em cooperativismo no Brasil, era filho de um francês de Lille que se casou com uma fazendeira paulista da família Almeida Prado. Meu pai, nos escritos que minha mãe guardou dele e me deu para ler, se interrogou o que aconteceria à alma na loucura. Escrever é então para mim, sentir meu pai dentro de mim, em meu coração, me ensinando a pensar com o coração, como ele fazia, ou a ter emoções com lucidez".

"A Literatura para mim é tudo isso e deixa sempre o signo de uma interrogação tão grande que não pode ser perscrutada, entende? Afeto, terror, pessimismo e paradoxalmente, quem sabe sobre a esperança de chegar um dia a ter esperança-isso é literatura que eu escrevo".


Teor metafísico exagerado


Justamente por uma pessoa especial que escrevia coisas, como ela mesma dizia ¿de um teor metafísico exagerado¿, não foi compreendida por seus contemporâneos o que a magoava profundamente, e eu, que convivi com ela, a vi muitas vezes chorando por não ser lida. Esgotada do esforço de tentar ser entendida, depois de ter produzido uma obra deslumbrante, escreveu uma trilogia: O Caderno rosa de Lory Lamb, Contos d'escárnio. Textos grotescos e Cartas de um Sedutor, considerados "pornográficos" e que foram de certa forma, uma extremada, excessiva maneira de reagir a tanta incompreensão.

De qualquer forma precisamos deletar esta imagem que ficou dela a partir desses livros e nos determos nos seus trinta e tantos anteriores onde ela trata de grandes temas: o Amor, a Morte, Deus, a imortalidade da alma.

Na verdade a literatura para ela era sagrada. "A literatura para mim sempre foi o Sagrado. Transformaram a literatura em lixo", disse em entrevista ao Leo Gilson Ribeiro, no Jornal da Tarde (4-3-89), quando resolveu se despedir da literatura séria. Na verdade isso não ocorreu. Mas vejamos o que ela disse na ocasião

"Com relação ao meu trabalho como escritora, reconhecei que meu esforço todo tinha sido excessivo, na renovação da linguagem, na busca, na tentativa de transmitir, a quem me lesse, a sensação profunda da vida, da experiência da vida, você colocar no horizonte mais longínquo de si mesmo a serviço da sobrevivência do Outro."

"É eu queria despertar um lado do ser humano que ele ainda se recusa a ver, como, entre outros, a morte, essa experiência mais importante que o homem pode ter. Agora sim eu sinto que tenho o direito de fracassar. Eu passei 40 anos de reclusão dedicada a escrever e de tudo de mim não houve quase eco, não fui compreendida, não fui consumida, não fui aceita."

Continuava dizendo que à exceção de alguns editores e críticos como ele mesmo Leo, e o Anatol Rosenfeld, o Brasil se mostrou impermeável ao que ela tinha a dizer. "A futilidade é como o napalm: vai queimando, corroendo até chegar à medula, ao osso. O homem está sem nenhuma curiosidade a respeito de si mesmo, da incógnita 'X' da sua personalidade de que ele esqueceu ou abafou de si".

E na verdade ela queria que "se refletisse nos aspectos transcendentais da Natureza vertendo seu sangue, destruída, violada, mutilada pela ignorância e pela ganância imediatista do homem, estudar o problema do ar que respiramos, a índole guerreira por trás dos arsenais atômicos ou das guerras "convencionais" com armas primárias em todo o planeta".

E ainda: que era preciso rever este conceito que nunca se questiona, só se aceita sem discutir-(mas que estou discutindo agora)- que é o conceito da obscenidade. "É preciso pensar que a verdadeira obscenidade criminosa é o comportamento do corpus político do Brasil e de outras nações inteiras dedicadas à devastação a qualquer preço, à fraude, à morte do outro em prol do conforto e da indiferença de quem polui o ambiente e as almas. De maneira intuitiva essas foram as perguntas que me acuavam, me obcecavam e para as quais eu buscava, inultimente, uma resposta junto ao leitor."

Lembrava ainda que o Jacques Bergier fala em seus livros de seres superiores - "não eu", ela ressalta, que vieram a Terra e falaram de coisas grandiosas que só daí a cem anos os homens compreenderam.

"Eu me limitei a buscar aquilo que está no invisível para os olhos do homem e no homem toda a relação dele consigo mesmo, com o Outro, com os animais, com o cósmico, com aquilo que não sabemos como denominar, com o mais secreto dentro de si, o mais escondido dentro de si mesmo."


Muito à frente do seu tempo
não foi compreendida



Aliás, como sempre acontece com os que estão à frente do seu tempo Hilda Hilst muito à frente do seu tempo, foi incompreendida por seus contemporâneos. Em geral, gênios de todas as áreas só são entendidos depois de mortos. É isso. Adeus, Hilda querida, e que você agora encontre a paz tão sonhada, o descanso das batalhas, e se encontre finalmente com Deus, este Grande Perseguido, o Sem Nome, O Mudo Sempre, o Tríplice Acrobata, o Sorvete Almiscarado, o Amor, que sempre te amou e que foi o grande personagem da tua obra.

Vou sempre me lembrar de você linda, cheia de vida, cantando, que, aliás, como você deve estar agora, porque a vida é eterna.Vou me lembrar daquelas conversas maravilhosas na Casa do Sol. Aliás, na véspera de sua morte-entrada para a Vida-terça feira à noite, (aliás, foram vários telefonemas que começaram às 23h e terminaram, acho, a 1h30 da madrugada), conversando com o Zé Luis (Mora Fuentes), ele chorando e eu consolando, já antevendo a perda, dizíamos que só quem viveu aquela época áurea na Casa do Sol sabe quanto foi especial foi esse tempo.

Foram momentos mágicos que jamais serão reencontrados, mas que ficarão eternamente nas nossas memórias até o dia em que nos encontrarmos novamente na Casa de Deus, que com certeza é ensolarada, luminosa como foi a tua obra.

E antes de terminar: que maravilha você ter tido amigos como o José Luis e a Olga (Bilenki)- o Zé me dizia do privilégio que foi conviver com você durante toda uma vida, e que ele não estava preparado para perder a tua presença, que cada canto da casa, cada parede, cada quadro, lembra você, e que não estava suportando, apesar de saber que é isso mesmo, que as pessoas morrem, mas que agora ele precisava chorar, como estou no momento. A Deus, Hilda.

Biografia

de Hilda Hilst -poeta, dramaturga, ficcionista
*21-3-1930 +4-2-2004

Hilda Hilst nasceu em 21 de abril de 1930 em Jaú (São Paulo) como filha única do fazendeiro, poeta e jornalista Apolônio Almeida Prado Hilst, cujo pai tinha imigrado da Alsácia, e de Bedecilda Vaz Cardoso, descendente de portugueses. Apolônio e Bedecilda se separaram pouco depois do seu nascimento, e o pai foi internado num sanatório aos 35 anos de idade, com o diagnóstico de esquizofrenia. Até o fim da vida, marcada por longas temporadas em clínicas psiquiátricas, ele será a causa da lacuna em redor da qual a obra de Hilda Hilst se constrói.
Hilda passa a infância (1937-1945) numa escola interna dirigida por freiras-o Colégio Santa Marcelina em São Paulo, e esta educação religiosa originam a orientação mística de sua obra posterior. Depois do ginásio humanista (1945-1948), estuda Direito (até 1952) na Faculdade São Francisco e publica em edição própria seus primeiros livros.
Durante este período e até 1963, leva uma vida intensa no mundo cultural, entre São Paulo e Rio, como amiga de artistas e como poeta. Sua beleza, seu talento e sua liberdade de comportamento chamam a atenção no clima puritano da época, e ela se manifesta em público a favor da liberdade feminina, tanto no âmbito profissional e artístico, como no plano amoroso. Entre 1957 e 1961 Hilda Hilst viaja pela Europa demorando-se na França, Itália e Grécia, mas continua escrevendo e publicando inúmeros livros de poemas, já se afirmando como uma poeta importante no contexto da literatura nacional e começa a ganhar prêmios como o Pen Clube de São Paulo em 62.
Em 1965 Hilda se retira da vida social e vai morar na casa da mãe que era a sede da fazenda São José que fica na estrada que liga Campinas a Mogi Mirim, até terminar de construir a Casa do Sol, na mesma fazenda, e que hoje é um Condomínio chamado Shangrilá-para onde se mudou em 1966, ano da morte do pai. Faz isso para poder se dedicar inteiramente à sua escritura.
O desejo de isolamento simbolizado na Casa do Sol que , ela constrói numa arquitetura que lembra um mosteiro espanhol é provocada pela leitura da confissão da vida do escritor grego Nikos Kazantzakis ( Cartas a El Greco) que a marca profundamente e a quem dedica o ciclo Trajetória Poética do Ser (1963-66). Sobre este isolamento no campo Hilda disse: ¿Estar no campo me ofereceu uma vida mais calma, com menos interrupções, propicia para fazer o meu trabalho. Mas as pessoas imaginam que entrei em clausura, me vesti de monge e fiquei jogando cinzas na cabeça, mas não foi assim, Eu estava casada com o escultor Dante Casarini e, além disso, minha casa era freqüentada por vários amigos , escritores, pintores, atores, com quem tinha muita afinidade. Eu me afastei da vida da cidade, mas não do mundo e nem das pessoas.¿
É na Casa do Sol que Hilda começa a escrever teatro - oito peças em dois anos, de 67 a 69 e sentindo a necessidade de se lançar com um novo discurso frente a um mundo absurdo inicia a sua prosa deslumbrante que começa justamente em 1970, um ano antes da morte da mãe ocorrida em maio de 71. Em 1985 divorcia-se de Dante Casarini, sendo que a esta altura já tinha a estatura de grande escritora, tendo até então arrebatado vários prêmios importantes inclusive o Grande Prêmio da Critica da APCA pelo conjunto de sua obra em 81.E segue publicando poesia, prosa e vendo suas peças sendo encenadas e seus textos sendo traduzidos em diversos idiomas.
Aos 73 anos completados, no dia 21 de abril de 2003, Hilda usufruía a reconhecida condição de ser um dos maiores poetas vivos do Brasil e tentava concluir, na mesma velha Olivetti Lettera que jamais cogitou de trocar por um computador, um novo livro: O Koisa, misto de poesia e prosa. Foram, portanto quase 40 anos-de 1965 a 2003 de trabalho intenso, criação de uma obra das mais importantes, agora, no panorama da literatura mundial: cerca de vinte livros de poesia, doze de prosa e oito peças de teatro, sendo que nas últimas entrevistas concedidas diz nunca ter se arrependido deste voluntário ¿exílio¿.
Hilda Hilst morreu no dia 4 de fevereiro de 2004 no Hospital das Clínicas da Unicamp, com falência múltipla de órgãos e foi nos últimos anos assistida e assessorada por alguns amigos como o escritor José Luis Mora Fuentes e sua mulher a artista plástica Olga Bilenky, responsáveis pela criação de várias capas de seus livros e da organização do arquivo de Hilda, vendido à Universidade de Campinas, pela manutenção da Casa do Sol com tudo o que isso significa: os cães que Hilda tanto amou durante toda a sua vida, e principalmente a preservação da sua magnífica obra.

Texto compilado de: Hilda Hilst: Paixão e Perversão no Texto Feminino, Ensaio de Mechtild Blumberg e entrevista concedida a Leila Gouveia: ¿Ser Poeta é difícil em qualquer lugar¿, ambos publicados no D.O. Leitura de maio de 2003

Ana Lúcia Vasconcelos


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Livros

Henry David Thoreau


Em defesa dos valores simples e naturais

Considerado por Arthur Miller um dos cinco ou seis homens mais significativos da história dos Estados Unidos, Henry David Thoreau, descendente de huguenotes franceses e quakers da Escócia, nasceu numa fazenda de Massachussets em 12 de julho de 1817.A exceção dos anos que passou em Harvard, viveu toda a sua vida em Concord, sua cidade natal, onde morreu em 1862. De formação clássica, suas fontes foram a antiguidade grega e romana, os textos sagrados de diversos povos, a poesia inglesa e o romantismo europeu.
Precursor dos modernos alternativos, preservacionistas, naturistas, Thoreau foi um contestador do "american way of life" em pleno século XIX, tendo dedicado todo a sua obra, um diário de 39 manuscritos, a expor sua teoria da retomada dos valores simples e naturais. Ou seja, uma vida pessoal baseada em princípios éticos derivados da introspeção, defendendo principalmente a diversidade de concepções e comportamento.
Tido como principal teórico da desobediência civil, foi o influenciador de homens como Tolstoi, Gandhi, que se inspirou justamente no seu livro Desobedecendo, ou A Desobediência Civil para fundamentar sua ação dissidente.

Movimentos libertários

Hábil artesão, Thoreau manteve-se na sua curta vida, dos ganhos de uma pequena fábrica de lápis da família. Fora isso fazia conferências e escrevia."Saia sozinho¿, conta Fernando Gabeira no prefácio à edição de Desobedecendo ou A Desobediência Civil, editada pela Editora Rocco (Rio de Janeiro), "com um lápis, um canivete, um caderno e um microscópio e percorria quilômetros e quilômetros¿.
Da paixão pelos campos nasce a idéia de comprar um pedaço de terra do amigo, o poeta e filosofo Ralph Waldo Emerson, que conhecera em Harvard, e ali viver dois anos próximo ao lado de Walden.

Emerson

Para Fernando Gabeira, um dos aspectos mais admiráveis da vida de Thoreau foi o fato de ele ter se tornado um artesão de grande habilidade, vencendo ao nível do indivíduo, "a contradição entre trabalho manual e trabalho intelectual¿.
Além disso, Thoreau foi um grande antropólogo, tendo estudado profundamente a cultura dos índios norte-americanos. À época em que os brancos, levados ao paroxismo pela idéia de progresso, dizimavam sua raça, roubavam suas terras e riquesas, ele entrava sózinho e desarmado nas aldeias.
Precursor dos movimentos libertários, Thoreau foi antes de tudo um lutador contra todos os tipos de tiranias. Participou das lutas dos oprimidos do seu tempo, solidarizou-se com os mexicanos invadidos pelos norte-americanos tornando-se pioneiro da denuncia do imperialismo. Denunciou a escravidão, ainda em vigor no interior dos Estados Unidos. Evidentemente foi preso e ainda numa situação extrema como esta Thoreau continua sendo pesquisador da natureza humana. Vejamos o que ele escreve na prisão.
"Era como contemplar a minha aldeia à luz da Idade Média e nosso familiar rio Concord se transformou na torrente de um Reno; à minha frente desfilaram visões de cavaleiros e castelos. As vozes que eu ouvia da rua eram a dos antigos burgueses. Fui espectador involuntário de tudo o que se dizia na cozinha da vizinha hospedaria. Foi uma experiência inteiramente nova e rara para mim. Tive uma visão íntima da minha cidade natal. Eu estava razoavelmente próxima da sua alma. Nunca antes enxergara suas instituições¿.

Redescobrindo a natureza


Ainda que toda a sua obra defenda a idéia da redescoberta da natureza pelo homem, da defesa dos valores simples e naturais, é especialmente com Walden ou A Vida nos Bosques, onde relata sua experiência de dois anos e dois meses nos bosques, próximo ao lago de Walden, que ele se torna "um dos papas" do movimento transcendentalista, movimento religioso que floresceu na Nova Inglaterra a partir da segunda metade do século XIX. O livro Ensaios de Emerson é a outra "bíblia" do movimento que defende a crença na existência de um princípio divino no interior de cada homem



Como um dos líderes do movimento, Thoreau levou toda uma geração a redescobrir a natureza, a terra, as árvores, os bichos e as estrelas. Para ele, a salvação do mundo, dos povos, passa pelo indivíduo, pelo respeito à liberdade e pelo direito à diversidade de comportamento.
Thoreau acreditava que não somos uma massa informe que o Estado possa manipular a seu bel prazer. Dotado de uma percepção aguda, Henry David denuncia a devastação da natureza, que a indústria, à época incipiente realizaria a perfeição: deplora os estragos que a civilização tecnológica provoca, e alerta para a ameaça que o materialismo representa para os valores humanos.
Acredita que a maioria dos chamados luxos e confortos da vida não são apenas dispensáveis como constituem obstáculos à elevação da humanidade. Contrapõe ao valor excessivo que o dinheiro começava a ter na sociedade americana, da sua época, o despojamento, a vida simples e natural.
"O homem é rico", escreve, "em proporção ao número de coisas de que pode prescindir¿.Acreditava que os bens aprisionam os seres humanos e a redução das necessidades ao estritamente necessário é uma libertação.

Simplicidade de viver


Decidindo por em prática "esta simplicidade de viver" ele, lá pelos fins de março de 1845, toma emprestado um machado e parte para os bosques próximos do lago de Walden, para um "sítio" que comprara do amigo Emerson e começa a abater alguns pinheiros novos para construir uma casa. Em meados de abril, resolve comprar a cabana de um tal James Collins, o que faz por quatro dólares e vinte e cinco centavos, que desmonta e reconstrói perto do lago.
"Na encosta sul de uma colina, cavei, no local onde outrora uma marmota cavara a sua toca, bem mais fundo entre as raízes de sumagra e amora e de vegetais mais humildes, com dois metros quadrados e um pouco mais de profundidade, até atingir uma areia mais fina onde as batatas nunca se congelariam no inverno¿.

No princípio de maio, com a ajuda de conhecidos das proximidades, levantou a estrutura da casa. Estudou alvenaria para construir a lareira por considerá-la a parte vital da casa. Não rebocou até que fizesse um "frio de rachar". Para isso, trouxe areia mais branca de outra margem do lago, num barco.
"A morada era pequena e dificilmente eu poderia provocar um eco dentro dela, mas dava a impressão de ser maior por se tratar de um cômodo único e estar longe dos vizinhos. Todos os atrativos de uma casa concentravam-se num só aposento: era ao mesmo tempo cozinha, quarto, sala e despensa, e seja qual for a satisfação proporcionada por uma casa ao adulto ou a criança, ao patrão ou ao criado, eu a experimentava."
E assim Thoreau consegue realizar um feito que poucos dos seus contemporâneos realizam durante a vida inteira: ter sua própria casa, segundo ele "direito inalienável dos homens", assim como "as raposas tem suas tocas, os pássaros seus ninhos e os selvagens suas cabanas¿.
No entanto não é isso o que se vê na sociedade dita civilizada, onde mais da metade da população não dispõe de moradia. "Nas grandes cidades, onde predomina a civilização, a porcentagem dos que possuem casa própria é mínima. A esmagadora maioria paga por este agasalho exterior, indispensável durante o verão e o inverno, uma taxa anual que daria para manter pobres seus moradores a vida inteira¿.

Os habitantes dos bosques

Enquanto construía a casa, Thoreau descobre um ninho de ratos almiscareiros bem embaixo dela e enquanto assentava o segundo assoalho e varria as aparas, eles vinham pontualmente na hora do almoço apanhar as migalhas do seu lanche. Um dia, em que ele estava debruçado com o cotovelo no banco, um deles correu pelas suas roupas, desceu pela manga e contornou o embrulho de papel com a comida que mantinha sempre fechado e desviava dele brincando de esconde-esconde. Quando finalmente segurou um pedacinho de queijo, imóvel entre os dedos, o ratinho veio mordiscá-lo, sentando-se na sua mão. Em seguida limpou o focinho e as patas, como fazem as moscas e foi embora.
Logo que se instalou na casa, um papa-moscas foi aninhar-se no telhado e um pintarroxo alojou-se num pinheiro que crescia encostado a casa. Por volta de julho, a perdiz, um pássaro arisco vinha do fundo dos bosques para frente da casa, passando por baixo da sua janela com a ninhada "a cacarejar feito uma galinha¿.Os filhotes se dispersavam quando sentiam a aproximação de estranhos a um sinal da mãe. Thoreau fica particularmente impressionado com os olhos da ave;
"A expressão de seus olhos abertos e severos, notavelmente adultos e ainda assim inocentes, é algo de inesquecível. Sugerem não somente a dureza da infância, como a sabedoria esclarecida pela experiência¿.

Ritual diário

E ele segue enumerando os habitantes dos bosques selvagens e livres e ainda sobreviventes, apesar da proximidade dos caçadores, como a lontra, enorme, de mais de metro de altura ou o guaxinim. Em geral Henry David mantinha um certo ritual diário: ao meio dia, depois do trabalho do campo, comia o lanche e descansava uma ou duas horas à sombra, junto à fonte que jorrava de Brister's Hill, a uns oitocentos metros do seu campo, e que dava origem a um pântano e um riacho.
Chegava-se lá passando por uma série de vales cobertos de capim e cada vez mais baixos, cheios de pinheiros resinosos que iam dar um bosque mais vasto perto de pântano. Ali, havia um lugar muito isolado e sombrio, debaixo de um pinheiro branco de copa esparramada, e um relvado fino e limpo onde se podia sentar.
Mas não era só Thoreau que ia para este recanto. Iam também a galinha d' angola, com suas ninhadas a catar minhocas na lama, as rolinhas que pousavam sobre a fonte ou esvoaçavam de um ramo a outro nos tenros pinheirinhos brancos à sombra dos quais ficava um esquilo ruivo que desviava apressado para o galho mais baixo particularmente familiar e intrometido.
"Basta que uma pessoa se sente tranqüilamente durante algum tempo em local sedutor dos bosques para que todos os seus habitantes se apresentem alternadamente¿.

Uma guerra de formigas

Mas nem só de paz, tranqüilidade vivia o bosque. Certo dia, quando Thoreau dirigia-se à pilha de tocos, sua reserva de lenha para a lareira observou duas grandes formigas, uma ruiva e outra preta, quase meia polegada maior em luta feroz. Quando chegou mais perto, percebeu que na realidade não se tratava de um "duellum" mas de "bellum": uma guerra entre duas raças de formigas, as ruivas lançando-se sobre as pretas, em geral duas ruivas para cada preta. Legiões infestavam as colinas e os vales do seu depósito de lenha e o chão estava juncado de mortas e moribundas, tanto ruivas quanto pretas.
"Foi a única batalha que presenciei na vida, o único campo de batalha em que pisei durante o conflito, guerra mutuamente mortífera com as ruivas republicanas de um lado e as pretas imperialistas do outro. Soldados humanos nunca combateram de maneira tão resoluta. Quanto mais de pensa no caso, maior é a diferença. E com toda certeza não há registro na história de Concord, nem da América de uma luta que se possa comparar a esta, quer pelo número de combatentes, quer pelo patriotismo e heroísmo demonstrados. Quanto aos números da carnificina era um Austerlitz ou Dresden. Batalha de Concord."



O lago de Walden

E havia ainda os mergulhões que vinham mudar as penas fazendo os bosques ressoarem com sua vibrante gargalhada e os patos que bordejavam e volteavam tomando conta do centro do lago sempre à distância dos caçadores. Isso sem contar as vespas que vinham as milhares para sua casa, "seus quartéis" de inverno e se instalavam perto das janelas, mas do lado de dentro e no teto, chegando algumas vezes a impedir a entrada das visitas.
Sim, porque apesar de Henry David ter optado pelos bosques até para ficar isolado das conversas supérfluas dos seus contemporâneos, recebia visitas dos lenhadores, pescadores, pequenos agricultores que viviam nas proximidades ou mesmo em outras paragens, mas que de repente passavam em sua casa. E aprendeu a reconhecer os "cartões de visitas" deixados por estes visitantes, quando porventura passavam e o dono da casa estava ausente: um raminho, uma folha, uma lasca de árvore, enfim um sinal da passagem de alguém por ali.

A casa aberta sem fechadura

Walden, ou A Vida nos Bosques é uma obra prima. Thoreau tem o dom da descrição aliada a uma genial capacidade de refletir sobre as coisas e a vida o comportamento humano olhando, por exemplo, o entardecer ou a postura dos pássaros.
"Nunca deveríamos fazer cerimônia com a sinceridade. Nunca nos enganaríamos, nem insultaríamos ou enxotaríamos um ao outro por conta de mesquinharias, se o núcleo de dignidade e amizade estivesse presente. Nem siquer nos encontraríamos assim às pressas. Há muitas pessoas que não encontro nunca porque parecem não dispor de tempo; estão ocupados com seus feijões. Não deveríamos entrar em contato com um sujeito mourejando assim, reclinando-se na enxada ou na pá como arrimo nas pausas do trabalho, não feito um cogumelo, mas em parte erguido do solo, algo mais ereto, feito as andorinhas pousadas e andando no chão, de modo que podíamos até suspeitar que estávamos a conversar com um anjo¿.
Maravilhosamente solidário Thoreau praticou o que muita gente gostaria de experimentar; a casa aberta, sem fechadura."Nunca fui aborrecido por ninguém a não ser pessoas representando o Estado. Não tinha fechadura nem ferrolho. Salvo na gaveta onde guardava meus papéis, nem siquer dispunha de um prego para por no trinco ou nas janelas. Nunca fechei a porta, de dia ou de noite, ainda que fosse para me ausentar por vários dias, nem mesmo como no outono seguinte, passei duas semanas nos bosques de Maine. E, contudo minha casa era mais respeitada do que se tivesse sido cercada por um pelotão de soldados. O andarilho podia repousar e aquecer-se à minha lareira, o literato entreter-se com os poucos livros em cima da mesa e o curioso ao abrir a porta do armário na parede, ver o que havia sobrado do almoço e o que eu pretendia cear¿.
E nunca foi roubado; - "à exceção de um livro de Homero, talvez impropriamente dourado¿. ¿Estou convencido, que se todos os homens vivessem tão simplesmente quanto eu àquele tempo não haveria roubos e assaltos. Estes só ocorrem nas comunidades em que alguns têm mais do que o suficiente enquanto outros não têm o necessário¿.
Dotado com o talento de tornar bonito o que toca, Thoreau estetiza o cotidiano nos mínimos detalhes. Até mesmo quando descreve uma, para os mortais comuns, banal arrumação de casa. Conta que quando colocava os móveis, uma mesa com livros e papéis em cima de uma cadeira, na relva, fora da casa eles ficavam de tal forma valorizados pelos raios de sol e pelos ramos de folhagens que se enroscavam nas suas pernas, que era como se ali fosse seu lugar, desde sempre.

A gota de Deus, o lago de Walden

Mas de todos os personagens que amou nestes bosques onde viveu, sonhou e escreveu, Thoreau se refere com especial carinho ao próprio lago de Walden que compara a ¿uma pedra preciosa, gota de Deus, olho da Terra, imenso cristal, por ter, como poucas coisas, conservado sua pureza¿. É fascinante a maneira como David Henry descreve suas águas, suas margens, a calma da sua superfície espelhando a mata, e o fato de ele ter conseguido manter-se jovem apesar do desmatamento e da estrada de ferro que violara suas fronteiras.
"Ele não se altera é a mesma água que viram seus olhos juvenis: quem mudou fui eu. Depois de tantas ondulações ele não adquiriu nenhuma ruga permanente. É eternamente jovem e posso postar-me e ver como outrora, uma andorinha mergulhar em sua face como se estivesse apanhando um inseto¿.
"Esta noite de novo me surpreendeu, como se eu não o tivesse visto quase que diariamente por mais de vinte anos. Ora, aqui está Walden, o mesmo lago em meio aos bosques que descobri há tantos anos; junto dele, nos pontos desmatados do ultimo inverno, outra vegetação irrompe com a exuberância de sempre: trata-se da mesma água líquida, alegria e satisfação consigo, e seu Criador, ah. talvez comigo. É sem dúvida a obra de um homem bravo e de caráter sem jaça.Com as próprias mãos torneou essa massa d' água, aprofundou-a e a clareou-a no pensamento, e por sua vontade legou-a a Concord. Vejo em seu rosto que é visitada pela mesma reflexão e posso dizer. Walden és tu?¿

Desobedecendo ou a desobediência Civil


Não é demais? Pois é, quem quiser ler o livro inteiro é só localizá-lo em livrarias ou sebos reais ou virtuais. O titulo é: Walden ou a Vida nos Bosques de Henry David Thoreau editado pela Global Editora, São Paulo, Coleção Armazém do Tempo, tem prefácio e tradução de Astrid Cabral e tem um apêndice: o ensaio A Desobediência Civil. A minha é a 3º. Edição, de 1985.
Aliás, este ensaio está, juntamente com outros do mesmo Thoreau: Caminhando, A vida sem princípios, A escravidão em Massachusetts, Uma semana nos rios Concord e Merrimack, no Desobedecendo traduzido por José Augusto Drummond, estudioso da obra do pensador político, filósofo, e ecologista norte-americano, e prefaciado por Fernando Gabeira, editado pela Editora Rocco, do Rio de Janeiro. Ganhei o livro do próprio Gabeira quando morei no Rio, mas lamentavelmente o perdi, daí que no inicio desta matéria cito um trecho do prefácio.


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Dança

Arte noir, o butoh além de dança é filosofia de expressão

O Butoh faz parte da novíssima tendência noir, surgida depois da II Guerra e pretende expressar a desesperança dos homens perante a vida. Mais que uma simples dança é uma filosofia de expressão. Suas coreografias retratam principalmente o estado de ânimo do povo japonês, após as explosões de Hiroshima e Nagasaki - o único povo da Terra sujeito a tal horror.

No entanto, apesar de tal cataclismo, a visão do Butoh é poética e profundamente oriental, encontrando paralelo na concepção do poeta francês Charles Baudelaire (As Flores do Mal) que acredita existir beleza até no crime e na miséria. Sua temática sombria vai buscar inspiração numa combinação de decadência física do ser humano e na escuridão existente na sua alma, numa tentativa de exprimir as áreas conturbadas do seu subconsciente e mostrá-lo nos seus instintos mais primitivos e brutais.

Mudança de estilo e postura

Enquanto a dança tradicional japonesa foi sempre ligada ao folclore, com seu estilo próprio, tendo entre seus temas de eleição os relacionados com a natureza-nas comunidades de pescadores, tinham por tema o mar, enquanto os povos das montanhas inspiravam-se para suas coreografias, nas transformações do tempo, nas mudanças e na qualidade da luz, variáveis segundo as estações do ano, a dança contemporânea apresenta uma mudança fundamental de estilo e de postura.

Criada depois da II Guerra Mundial, os artistas das novas tendências começaram a contestar o caráter ufanista da tradicional arte japonesa, que realçava especialmente os valores locais, e passaram a dar mais ênfase às qualidades intrínsecas do sentimento, traduzindo-os numa linguagem universal. Mas esta mudança, como explicam os especialistas do assunto, não significou um passo para a sua ocidentalização - apenas uma postura da arte contemporânea japonesa de resgatar os valores intrínsecos da sua cultura.

Atualmente o Butoh é o movimento mais importante da dança japonesa. Foi criado por Kazuo Ohno e Tetsuro Hijikata e está dividido em duas correntes: a do próprio Ohno, menos pessimista em relação ao futuro da humanidade e a de Hijikata, mais agressiva. A companhia japonesa Sankai Juku, fundada em 1975 sob direção de Ushio Amagatsu coreógrafo e principal bailarino, discípulo de Hijikata, é a mais importante do mundo e o mais famoso grupo não apenas no Oriente Médio, mas na Europa e Estados Unidos, onde tem obtido reconhecimento do público e da critica.

Vejamos um pouco da história dos criadores do butoh, neste site brasileiro.

Dança butoh


Passos no negrume da existência

Bu significa dança e toh - passos, e estas palavras vêm sempre ligados: Un é escuro e Kohu que é negrume, para significar a dança no escuro, passos no negrume da existência, deixando claro que os criadores do Butoh querem deixar aos homens a advertência: apesar de toda sua civilização e conhecimento, o ser humano continua a ser uma poeira no universo ainda longe da perfeição.

Afinal sua busca desenfreada pelo progresso tecnológico talvez o leve à destruição, sem atingir o estágio ideal. Ushio Amagatsu esteve com seu grupo Sankai Juku no Carlton Dance Festival realizado em São Paulo há alguns anos, e contou em diversas entrevistas a estória do grupo e sua filosofia de trabalho.

Segundo Ushio Amagatsu, San quer dizer montanha e kai, mar. Juku pode ser traduzido como atelier. O grupo fundado 1975 com um grupo de 30 bailarinos entre homens e mulheres conta hoje com apenas quatro integrantes além dele: Keiji Morita, Atsushi Ogata, Touru Iwashita e Sho Takeushi. Ele considera Kazuo Ohno uma espécie de pai do butoh, embora esta sua segunda geração não tenha propriamente uma inspiração no seu trabalho ou no de Tetsuro Ijikata.




Na verdade, ele diz que todo o trabalho de butoh-e hoje já existe até a quarta geração, tem inspiração própria. A coreografia que trouxe para o Brasil faz parte do trabalho Kinkan Shonen, criado em 1978 que mostra, segundo ele, um pouco do que é o grupo. ¿Não há narrativa, apenas sete séries de imagens que se referem a um sonho entre a vida e a morte. Nesta época ainda não trabalhávamos com musica original o que viemos a fazer depois do ano 80¿.



Ushio Amagatsu define o estilo do butoh como uma homenagem ao homem, ao ser humano. A cabeça raspada e o corpo pintado de branco é uma simbologia para traduzir a simplicidade. Através da brancura, homem apaga as marcas individuais para privilegiar o aspecto global do grupo, da humanidade.

No entanto, é também uma atitude paradoxal, uma vez que, através da homogeneização do grupo se percebe com clareza as diferenças individuais. Assim como cada bailarino pode expressar a sua diferenças, cada espectador a partir da sua experiência de vida reconhecerá de maneira diversa a apresentação. Fala-se que o butoh foi criado após a II Guerra, Hiroxima e Nagasaki, ele lembra.

¿É verdade. Mas eu pessoalmente prefiro não me restringir a essas tragédias e ter uma visão otimista do todo. Quanto ao aspecto religioso, se insere na obra apenas indiretamente já que sou japonês e tenho uma carga cultural por trás da minha formação que inclui religiosidade¿.




Trabalhando com o tempo e o espaço

Ushio Amagatsu considera difícil explicar seu processo criativo. Normalmente, ele explica, todas as obras partem de um processo de vida. ¿Às vezes uma se assemelha a outra, as pessoas dizem, mas para mim são diferentes. Parto da descontinuidade para a continuidade de um trabalho. Pode ocorrer de várias maneiras. Se vou a um museu e, por exemplo, fico intrigado com uma obra começo a dialogar com ela. Outro exemplo: se pegarmos o tema vento, é possível associá-lo àquilo que sentimos entre o braço e o corpo quando fazemos o movimento de alongar o braço para a direita. Olhando no espelho como os ocidentais costumam fazer, é possível até imitar o movimento do vento. No entanto, me interessa outra perspectiva. Como se o espelho estivesse dentro do corpo. Cada um de nós tem uma força dentro capaz de perceber o que é a sensação do vento. Sensibilizar o ponto em que se percebe isto com maior clareza e transparecer através do corpo esta sensação seria o verdadeiro vento para mim. Assim, mesmo que todo um grupo realize o mesmo movimento, o gesto será diferente. Cada pessoa tema o seu captador. Por isso é importante que muitos¿ movimentos não sejam predeterminados.

Para ele, cada individua tem dentro de si um sentido de tempo e espaço. Correndo atrás de um movimento ele diz que se move para chegar ao movimento almejado. O sentimento é um aquecedor que existe dentro do movimento. Quando chegamos ao gesto desejado, ele consegue puxar esta sensação. Aí nasce a vida, o fluxo de energia, o calor da dança. Neste estágio o ¿feeling¿ de tempo e espaço que todos guardamos pode florescer.

Quanto a influencia dos elementos da natureza e a técnica butoh, sua preocupação principal é com relação ao globalismo das coisas e aos simbolismos. ¿Se encontramos um desenho na parede de uma caverna não quer dizer que o desenhista viu o animal lá dentro. Na dança também é assim. A dança seria o trabalho de fixação das sensações do corpo. As sensações nascem na natureza. O corpo filtra e simboliza¿.




Contando como realiza o trabalho com os dançarinos, enfim, como trabalha com seu grupo, afirma que seja difícil transportar uma cultura para outra. Por isso nos workshops, evita explicar a técnica butoh. ¿Ela não é importante. Falo sobre o corpo, o aspecto de tensão e relaxamento que são fundamentais, o astral da dança. A cultura de cada individua é que vai influir na formação física do corpo, determinar o estilo da dança e como vai ser. Mesmo os meus bailarinos não são obrigados a seguir qualquer tipo de disciplina. Cada um sabe como deve se preparar. Se é possível uma integração oriente / ocidente eu não sei. Bob Wilson em Nova York trabalha com uma japonesa do estúdio Hanayagi que dança a tradição do Japão. É uma tentativa.¿



Dançar é uma fase da vida

Ushio considera que a dança é uma fase da vida. A criança está na barriga da mãe, nasce, sente, engatinha, anda e dança. Simples, nada mais que isso. Quanto à situação da dança no Japão hoje, considera que há a dança oficial acadêmica, que é a clássica e a moderna, que freqüentou antes de iniciar o butoh, sem falar obviamente nas danças tradicionais japonesas, que são mais familiares.

O butoh não é acadêmico, acontece mais em pequenas academias, uma vez que é considerada experimental. No entanto, em Tókio onde trabalha, há danças de todo o mundo como flamenco, arte indiana, etc. E justamente por causa disso, por morar numa cidade com alta tecnologia e uma vida agitada, a vê na dança um papel fundamental. ¿É a maneira de expressar sentimentos humanos através do corpo. Um jeito de sobreviver de forma mais humana em meio a apelos comerciais¿.






Entrevista com Kazuo Ohno para Mário Kodama da International Press



O que é o butoh para o senhor?
Kazuo Ohno - É uma pergunta difícil de responder. Cada dançarino tem seu próprio butoh. Não existe um método, porque a dança é a expressão do interior de cada um. Por isso é singular em cada pessoa. Para mim, o butoh é, com palavras simples, apreciar a vida, minha e dos outros.

International Press - O senhor teve alguma influência da dança ocidental?
Ohno - Posso dizer que tive influência do balé clássico depois de Isadora Duncan (1878-1910), que tirou as sapatilhas e começou a dança livre, rompendo com as formas do balé; também de Mary Wigman (1886-1973) , que pertenceu à dança de vanguarda alemã dos anos 30 e uma das criadoras do expressionismo na Alemanha. A dança de Wigman era completamente diferente do balé e da dança de Duncan. Era uma dança que nasce no interior, na intimidade do ser humano.




International Press - Como foi o processo de transformação que o senhor sofreu até chegar ao butoh?
Ohno - Eu penso que há algo em comum entre a energia de nascimento de uma vida e a do nascimento do Universo. Existe uma força centrípeta entre mãe e filho, como entre o Sol e os planetas do sistema Solar. Tudo o que existe nesse mundo é ligado profundamente com o Universo. Mas a dança moderna não incluía esses fenômenos básicos da natureza, as relações entre o ser humano, morte, vida, amor, universo, natureza e outros temas essenciais, nem o expressionismo alemão. O envolvimento com estas questões foram nossos mestres e crescemos com elas. É isto que expresso no meu butoh.

International Press - Está havendo uma renovação na dança moderna japonesa?
Ohno-Não tenho conhecimento de que alguém esteja fazendo algo realmente novo. Há muita gente que procura chamar a atenção só por ser esquisito, excêntrico. Mas não conheço ninguém que trate das questões filosóficas essenciais como as que eu trato. Talvez eu seja o único que as tento expressar. Não adianta pensar com a mente como é que se deve viver. A vida tem que ser descoberta no dia-dia O que apresento no meu butoh é tudo que eu vivo na minha vida. Premeditar as coisas nem sempre dá certo. Por exemplo, guerras, devastação do meio ambiente são feitas pelas pessoas que planejam demais. Acho que nós devemos dar mais importância aos sentimentos e respeitá-los.

International Press - Quantas vezes o senhor foi ao Brasil? E o que achou?
Ohno - Já fui duas ou três vezes. Pode ser que volte de novo no ano que vem. Brasileiros são assim (ele uniu os braços num forte aperto de mãos). Eles me trataram muito bem. Em qualquer lugar que eu ia, sempre ficava cercado por muita gente. Fiquei impressionado pela minha popularidade no Brasil. Vi matérias sobre mim na capa dos jornais. Quando fui assistir à apresentação de "Macunaíma" (peça de Antunes Filho baseada no texto homônimo de Mário de Andrade), eles souberam que eu estava lá e me convidaram para subir ao palco, e dancei com improvisação. Muitas pessoas organizaram festas para mim, inclusive o embaixador francês no Brasil.


Fonte: Jornal International Press
Entrevista de Mário Kodama -Intérprete, Kunihiro Otsuka
Seção: Lazer e Cultura - Página 5-B
Japão, 24 de setembro de 1995.


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Memória/Jazz

Betty Carter indo à fonte da melodia

Considerada uma lenda viva do jazz, a cantora norte americana Betty Carter apresentou-se no Centro de Convivência de Campinas, na primeira semana de novembro de 1992, deixando em estado de graça uma platéia, não apenas amante, mas expert em jazz. Com sua voz de contralto que soa às vezes como barítono, profunda única, abusando dos scat vocals em que era imbatível no mundo, Betty Carter levou o público literalmente ao paraíso.

Mas é preciso não esquecer sua banda formada por Eric Revis, 27 na época, hoje com 39 anos, no baixo, Will Terrill, 20, hoje 32, na bateria e Xavier Davis 23, hoje 35, no piano que comprovaram que Betty Carter é de fato a melhor caça talentos do mundo do jazz. Eles são de um talento e virtuosismo maravilhosos, apesar da extrema juventude.

Nesta matéria, você conhecerá um pouco da carreira de Betty Carter que foi uma das maiores jazz-women da atualidade era super simpática e me deu um autógrafo onde escreveu Anna Love, Betty Carter. Foram meus cinco segundos de glória!

Total domínio do sentido emocional da lírica

Explicando sua maneira de interpretar, o crítico Stephen Holden em artigo para a revista New York Times escreveu: ¿Não importa quão longe esteja de uma melodia familiar, ela mantém um total domínio do sentido emocional da lírica. Quando mergulha dramaticamente abaixo na escala, num contralto tão profundo que tem ressonância de um barítono, ela projeta uma aceitação lamentosa das mudanças da vida-tristeza que é compensada por uma ainda mais forte afirmação de flexibilidade¿.

Em artigo na revista Jazz Time, Ken Frankling vai além na ilustração do singular estilo de Betty Carter: ¿como um pintor abstrato ela toma um tom familiar e muda-o até ele ser alguma coisa particularmente sua. Ela reinventa no ato, transformando a melodia, acariciando cada palavra com um dramático uso do tempo, enquanto deixa a lírica intacta¿.

Sobre seu estilo Betty Carter dizia: ¿Isso é envolvimento com a musica. Não há um caminho do qual me aproxime e que não mude depois. É parte de mim. Penso que é porque é espontâneo, não é forçado. As pessoas entendem que aquilo está realmente acontecendo naquele momento¿.

¿Os garotos que não tenham sido demasiadamente expostos à melodia aceitam isso pelo que é. É somente quando se está interessado na verdadeira fonte da melodia, pode-se refletir e entender o que pretendí com aquela peça musical. Pode-se gostar daquilo ou não gostar. Depende apenas de adaptar -se para diferentes maneiras de fazer coisas¿.

Caça talentos

Educar jovens para o jazz sempre foi o que mais importava para Carter, cujos trios raramente incluíam jovens com mais de 20 anos. Conhecida como uma das melhores caça talentos, suas bandas sempre foram uma base de treinamento para artistas que iam e vinham desde a morte de Art Blakey-os trios de Carter foram durante anos, de músicos reconhecidamente bons.

Neste It¿s Not About the Melody, que estava lançando na época, daí as turnês internacionais, Betty Carter apresentou alguns desses talentos, inclusive Cyrus Chestnut, Mulgre Miller, Johns Kisks no piano; Ariel J. Roland, Christian Mc Bride, Walter Brooker no baixo; Clarence Hendy, Lweis Nash, Jeff ¿Train¿ Watts na bateria e especial convidado Craig Handy no saxofone.

Mas se aquela época ela caçava talentos, no começo da sua carreira na verdade ela foi caçada. Durante a adolescência ela cantou com Dizzy Gillespie, Charlie Parker, Miles Davis, Max Roach e Duke Jordan e ao 18, juntou -se à banda de Lionel Hampton.

O tempo que passou com Hampton foi como uma escola para ela: aprendeu como dirigir uma banda, como organizar e colocar suas idéias musicais no papel. Por volta de 1951, preparada para lutar por si mesma, mudou-se para Nova York e como cantora experiente cantou em pequenos clubes, criando reputação como uma vocalista impressionante.

Durante uma temporada com Miles Davis no Howard Theater em Washington D.C. Davis apresentou-se aos seus agentes e isso levou a uma turnê com Ray Charles o que deu como resultado o disco Ray Charles e Betty Carter que marcou a grande virada na sua carreira.

Betty Carter gravou depois com Epic Peacock, ABC Paramount, ATCO e United Artists durante os anos 50 e 60 e em 69 lançou seu próprio selo: o Bet -Car. Durante os anos 70 e 80 Carter bancou-se e a suas jovens bandas no selo Bet-Car, fazendo circuito colegial. Então em 1988, a Verve ofereceu a ela um grande contrato onde deveria gravar Look What I Got e regravar quatro antigos albuns Bet-Car.

Look What I Got ganhou o Grammy e ela foi chamada no mesmo ano para um dueto com Carmem Mc Rae. Em 1990 Carter regravou um álbum fundamental Dropping¿s Things, apresentando Freddie Hubbart, Geri Allen e Graig Handy como convidados especiais.

Tenazmente Betty Carter realizou uma longa e ilustre carreira e os últimos anos foram de muitas honras. Em fins de 80 foi considerada a Mulher Cantora do Jazz do Ano pela Down Beat¿s. Em março de 94 o Lincoln Center dedicou uma noite inteira à veterana cantora num programa intitulado: Carter Big Band With Stings: The Music Never Stops.

Em 1997 Betty Carter foi convidado para uma performance na Casa Branca o que significou o reconhecimento oficial do governo dos Estados Unidos a sua obra estupenda. Lamentavelmente Betty Carter morreu em 1998 de câncer no pâncreas terminando abruptamente uma carreira das mais memoráveis dos últimos cinqüenta anos, segundo os críticos.

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Um estrato de puro Jazz


Betty Carter


(Airton Martini)

Detroit, Michigan, l947, uma adolescente é convidada a se apresentar ao lado de um super astro do jazz que passava na cidade. Por não ter idade suficiente, ela teve que alterar documentos. Era seu primeiro trabalho profissional. Mais tarde, depois de observá-la bem nos ensaios e no palco, ele foi direto ao assunto: ¿você vai demorar a alcançar o topo... por ser inflexível...¿.

O astro era, nada menos que o saxofonista Charlie Parker e a jovem cantora era Betty Carter. Embora a afirmação de Bird, não tenha sido exatamente uma ameaça ou crítica, soa hoje, quase cinqüenta anos depois, como uma profecia.

Betty Carter permaneceu intransigente com relação ao seu trabalho. Há muito pouco tempo foi reconhecida em escala maior e continua sendo o mais puro estilista vocal do jazz de todos o tempo. Na definição, sem meias palavras de outra grande cantora, Carmem Mc Rae, falecida no dia 10 de novembro de 1994, ¿Betty Carter é a única de nós que não se prostituiu¿.

O sucesso pode não ter vindo rápido ou bombástico, mas veio. E bem recentemente, após receber o Prêmio Grammy pelo álbum Look What I Got de 1988, do mesmo selo Verve Polygram que ao que parece, dedicou-se a tirar artistas como Betty Carter do mundo ¿cult¿, e passá-los para outro temido planeta chamado mercado fonográfico e musical (vide John Henderson e Shirley Horn).

Dizer que Miss Carter é a maior cantora de jazz como decretam aberturas de artigos e matérias sobre ela, principalmente após as mortes de grandes divas consagradas, é mais que óbvio.Notável mesmo é a capacidade que ela tem tido de construir uma carreira sem concessões comerciais e talvez por isso, recheada de atritos com outros músicos.

O seu primeiro patrão, o ¿band leader ¿ Lionel Hampton chegou a despedí-lo seis ou sete vezes entre 1948 e 1951. Mas ela sempre voltava. Foi Hampton, na época um sinônimo do estilo ¿swing, que lhe deu o apelido de Betty Bebop (talvez por ciúme da declarada preferência que ela revelava pela ¿big band¿de Dizzy Gillespie, um dos criadores do revolucionário estilo ¿bebop¿ nos anos 40.

Aqueles que tem o privilégio de assistir uma performance de Betty Carter ao vivo vão logo perceber que participam de um evento único. Sempre acompanhada de jovens e talentosos músicos, que ela mesma descobre e ¿educa¿ como gosta de dizer, ela se equipara ao baterista Art Blakey na formação de novos mestres.

No palco ela tem o poder de surpreender e envolver a audiência com a força de um estilo único. Um caldeirão de recursos expressivos está aí, em harmonia, pronto para arrebatar as atenções de corpos e almas.

Cantando com os braços, ombros, todo o corpo e até a voz ou em longas pausas de tirar o fôlego, Miss Carter fala ao inconsciente como um pajé ancestral e sua poção, um estrato do mais puro jazz.

Airton Martini é engenheiro e produtor artístico. Desde 1989 produz e apresenta o programa What¿s New - Um Toque de Jazz que vai ao ar pelas emissoras USP FM em São Paulo e Cultura Fm de Campinas (SP).

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Saúde Integral
Os florais de Bach e outras essencias

Apesar de ter sido criado em 1917, portanto há mais de oitenta anos, os florais, remédios desenvolvidos a partir de essencias de flores, ainda são pouco conhecidos da maioria das pessoas. No entanto, depoimentos de curas e surgimento de novos especialistas e pesquisadores que fazem progredir esta terapia chamada alternativa ou paralela em relação à tradicional medicina alopática, comprovam sua eficácia. Hoje há florais de várias localidades do planeta, mas este tipo de terapia foi criado pelo inglês Edward Bach, de uma maneira insólita e poética.Vamos a ela.


A água da fonte da inspiração

Bach nasceu em Moseley, pequena vila de Birmingham, Inglaterra em 1886. Formou-se em medicina pela Universidade de Birmingham e trabalhou em várias especialidades. Em 1917 com 31 anos, quando trabalhava no laboratório de um grande hospital londrino teve uma forte hemorragia estomacal. Seus colegas diagnosticaram câncer e deram o veredicto fatal: ele tinha tres meses de vida.

Inconformado com tal diagnóstico Bach, que sentia que tinha ainda muito que fazer pela medicina e que já tinha conhecimentos de homeopatia voltou-se, como narra a terapeuta floral Carmem Monari no seu livro Participando da Vida com Florais de Bach-Uma Visão Mitológica e Prática (Editora Rocco 1996, SP) ¿para o seu jardim interno, sentiu a essência de suas flores e bebeu a água da fonte da inspiração¿.

Que bela poesia, você deve estar pensando. Felizmente não é só poesia, mas a pura realidade, e para entender o que aconteceu com o Dr. Bach vamos seguir o raciocínio de Carmem Monari, que vai à origem do seu nome para explicar sua transformação. Ela começa por dizer que Bach vem de Bagh que em alemão significa fonte de água, de onde vem Bagha que é riacho e de onde vem Bach que é fonte.

Em persa Bach é jardim de rosas que é muito semelhante a Jardim do Éden. Assim temos que Bach tem dois sentidos: jardim e fonte. Edward por sua vez é uma palavra de origem teutônica que significa aquele que precisa ser o guardião alerta dos seus sentidos. Ou seja, para Carmem, Edward Bach ¿teve que aprender a abrir seus sentidos superiores para sentir a essência das flores e beber a água da fonte da inspiração¿.

Traduzindo: quando ele se voltou para dentro de si e começou a se conhecer-auto conhecimento-ele venceu a morte pela transformação em vida do seu próprio corpo. Só então começou o seu trabalho pelo coletivo, ou seja, depois de ter vencido suas barreiras individuais, assumiu sua individualidade, e isso, aliás, ele enfatizou sempre para seus pacientes e discípulos: que cada pessoa descubra e cumpra seu destino individual, que nunca imite ninguém e que o outro nos sirva de luz. Ou seja, cada ser humano deve ser luz para o outro, para o semelhante, evitando-se, portanto todo o sentimento de inveja, ciúme e possessão pelas coisas alheias, sejam materiais ou espirituais.

As primeiras essencias

Bach iniciou seu trabalho pesquisando flores e descobriu as primeiras essencias: Mimulus para vencer o medo de descobrir coisas desconhecidas; Impatiens, para vencer a impaciência de querer coisas muito rapidamente; Clematis para os sonhadores colocarem os pés no chão e outras mais, terminando por desenvolver 38 essencias que dividiu em sete grupos.

O primeiro para os que sentem medo, o segundo para os que sofrem de indecisão, o terceiro para os que sentem desinteresse pelas circunstâncias atuais, o quarto para os que sofrem de solidão, o quinto para os que são excessivamente sensíveis a influencias e opiniões alheias, o sexto para o desalento e desespero e o sétimo para os que se preocupam excessivamente com o bem estar dos outros.

Assim, quando ele usou o título Heal Thyself-Cura-te a Ti Mesmo, ou A Cura pelo Si Mesmo. É interessante notar que thyself refere-se ao nosso Eu Superior e é diferente de yourself. Segundo explica a Carmem: é semelhante ao Conhece-te a ti Mesmo de Sócrates. Daí que o caminho proposto pelos florais de Bach é um dos caminhos do auto conhecimento, uma maneira de ganhar a luz da consciência pelo nosso consciente.

Em busca do jardim interno

Bach morreu aos 50 anos, dezenove anos depois do diagnóstico de câncer dado pelos seus colegas médicos e após ter descoberto as tres essencias básicas dos seus florais. Sua cunhada Judy, que sempre o acompanhava em suas pesquisas, continuou desenvolvendo o trabalho, e quando ela morreu, outros discípulos prosseguiram na pesquisa e divulgação dos florais descobertos por Edward Bach.

O Instituto Bach Center, de onde saem as essencias dos florais de Bach para o mundo todo, fica em Mount Vernon, Sotwell (Inglaterra), funciona ainda na mesma casa onde ele morou.

Carmem Monari que é uma das mais importantes pesquisadoras dos florais de Bach e que mora em Campinas, conta que quando ele terminou o trabalho, construiu os móveis de sua casa, e quando tudo estava pronto, morreu, dormindo.

"Ele deu o exemplo de mestre de luz pelo seu trabalho interno e depois pelo coletivo, até sua volta à luz¿, diz Carmem. ¿Que cada ser descubra e acenda uma luz interna para dar vida e criação ao seu jardim, para que sejamos luzes para as pessoas que nos procuram, despertando e mantendo nossa chama interna acesa em nome do amor e acreditando sempre na Providencia Divina. Ele plantou seu Jardim Terrestre e cada um que busque dentro de si seu jardim interno¿.

Na esteira de Bach e seus discípulos surgiram pelo mundo afora novos pesquisadores que descobriram novas essencias florais na Califórnia, Austrália, Holanda, França, Himalaia, e Brasil. Aqui temos os florais da Mata Atlântica, da Amazônia, florais de Minas que foram os descobertos mais recentemente, com grande número de essencias pesquisados pelos químicos brasileiros Breno Marques e Ednamara Batista Vasconcelos que vivem em Itaúna, (Minas Gerais).

Breno e sua equipe desenvolveram os fito-florais que une ervas e flores e que são os nossos florais, os florais brasileiros, na opinião da terapeuta floral Sabrina Maria da Silva, radicada em Mogi Mirim, e editam o jornal Organum que dá importante contribuição para o conhecimento desses remédios feitos com as essencias das flores.

Afinal Edward Bach foi um poeta. Prova isso este belo poema: ¿A você, paz profunda da onda sutil/ das estrelas brilhantes do brilho da paz/ do ar envolvente da terra silenciosa¿.


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Espiritualidade

Vós sois o Sal da Terra a Luz do Mundo

Em três livros da Bíblia encontramos referencia a esta fala de Jesus: vós sois o Sal da Terra a luz do mundo: no Evangelho de Marcos 9, 50; em Mateus 5, 13-14 e no Evangelho de Lucas 14,34 e seguintes. No Evangelho de Mateus ele faz parte do famoso Sermão da Montanha ou As Bem-Aventuranças, uma das mais belas passagens da Sagrada Escritura.Vejamos o texto: ¿Vendo aquelas multidões, Jesus subiu à montanha. Sentou-se e seus discípulos aproximaram-se dele. Então abriu a boca e lhes ensinava dizendo:¿ Bem Aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o reino dos céus! Bem Aventurados os que choram, porque serão consolados! Bem Aventurados os mansos, porque possuirão a terra! Bem aventurados os que fome e sede de justiça, porque serão saciados! Bem aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia! Bem aventurados os pacíficos porque serão chamados filhos de Deus! Bem aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus! Bem aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós.¿Vós sois o sal da terra. Se o sal perde o sabor, com que lhes será restituído o sabor? Para nada mais serve serão para ser lançado fora e calcado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha, nem acender uma luz sobre o candeeiro, a fim de que brilhe a todos os que estão em casa. Assim brilhe vossa luz diante dos homens para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus!¿.

Humildade inveja, escândalo.

No Evangelho de Marcos capitulo 9, 50, Jesus usa novamente essa expressão: sal da terra para referir-se aos seus discípulos e por extensão a todos os cristãos. Para entender o contexto das palavras de Cristo vejamos o versículo 33. ¿Em seguida, voltaram para Cafarnaum (Jesus andava pela Galiléia ensinando, curando). Quando já estavam em casa, Jesus perguntou-lhes:¿ de que faláveis pelo caminho? Mas eles calaram-se porque pelo caminho haviam discutido entre si qual deles seria o maior. Sentando-se, chamou os doze e disse-lhes: ¿Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos¿.

E tomando um menino, colocou-o no meio deles abraçou-o e disse-lhes: ¿Todo aquele que recebe a um destes meninos em meu nome, a mim me recebe; e todo o que recebe a mim, não me recebe a mim, mas aquele que me enviou¿.João disse-lhe: Mestre, vimos alguém que não nos segue, expulsar demônios em teu nome e lho proibimos. ¿Jesus, porém disse-lhe: ¿ não lho proibais, porque não há ninguém que faça um prodígio em meu nome e em seguida possa falar mal de mim. Pois quem não é contra nós é a nosso favor. E quem vos der de beber um copo de água porque sois de Cristo, digo-vos em verdade, não perderá a sua recompensa. Mas todo que fizer cair no pecado a um destes pequeninos que crem em mim , melhor lhes fora que uma pedra de moinho lhe fosse posta ao pescoço e o lançassem ao mar! ¿Se a tua mão for para ti ocasião de queda, corta-a; melhor te é entrares na vida aleijado, do que tendo duas mãos , ires para a geena, para o fogo inextinguível onde o verme não morre e o fogo não se apaga. Se o teu pé for para ti ocasião de queda, corta-o; melhor te é entrares coxo na vida eterna do que, tendo dois pés, seres lançado à geena do fogo inextinguível , onde o verme não morre e o fogo não se apaga . Se o teu olho for para ti ocasião de queda, arranca-o; melhor te é entrares com um olho de menos no reino de Deus, do que, tendo dois olhos, seres lançado à geena do fogo, onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga . Porque todo o homem será salgado pelo fogo. O sal é uma boa coisa; mas se ele se tornar insípido, com que lhe restituireis o sabor? Tende sal em vós e vivei em paz uns com os outros.¿

Qualidades dos verdadeiros discípulos

Finalmente em Lucas, podemos ler a terceira referencia a esta imagem: sal da terra, quando no capítulo 14, 25, Jesus fala das qualidades dos seus verdadeiros discípulos. Vejamos o trecho: ¿Muito povo acompanhava Jesus. Voltando-se, disse-lhes: ¿Se alguém vem a mim e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs, sim, até sua própria vida , não pode ser meu discípulo. E quem não carrega a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo.Quem de vós, querendo fazer uma construção, antes não se senta para calcular os gastos que são necessários, a fim de ver se tem com que acabá-la? Para que, depois que tiver lançado os alicerces, e não puder acabá-la, todos os que o virem não comecem a zombar dele, dizendo: Este homem principiou a edificar, mas não pôde terminar. Ou qual é o rei que, estando para guerrear com outro rei, não se senta primeiro para considerar se com dez mil homens poderá enfrentar o que vem contra ele com vinte mil? De outra maneira, quando o outro ainda está longe, envia-lhe embaixadores para tratar da paz. Assim, pois, qualquer um de vós que não renuncia tudo o que possui não pode ser meu discípulo.¿O sal é uma coisa boa, mas se ele perder o seu sabor, com que o recuperará? Não servirá nem para a terra nem para adubo, mas lançar-se-á fora. O que tem ouvidos para ouvir que ouça¿.

Interpretando a palavra


Comentando estes trechos da Sagrada Escritura, o padre Oswair Chiozine, 60, claretiano, que foi pároco da Igreja do Rosário em Campinas em 2001, acredita que também nós devamos ser sal, dentro da sociedade. ¿Devemos fazer¿, ele diz, ¿com que nossa presença e nossas atividades tenham o efeito que o sal tem para a comida, ou seja, como ele preserva o sabor do alimento, devemos, com nossas atitudes, preservar os valores. Devemos ser luz para iluminar o ambiente para que possamos nos encontrar e também impedir que alguém tropece¿.

¿ Enfim que essa palavra de Jesus , ele diz, deve ter aplicação na nossa vida prática, que a nossa presença não passe desapercebida na nossa caminhada no mundo, mas contribua com sua fôrça.¿ Assim como o sal, preserva a vida dos alimentos devemos preservar a vida no mundo.¿E terminou dizendo que ele imagina que este site pretenda iluminar o caminho de muitos, e como o sal, preservar os bons costumes e valores nos quais acreditamos¿.

Pois é exatamente o objetivo deste site: iluminar o caminho das pessoas, preservar valores de humanidade, de cultura, de amor à arte, de fraternidade, de harmonia, de paz, de alegria neste mundo tão precisado deles. Lembrar às pessoas que existem outras possibilidades de vida além dessa rotina que se pode ver nos jornais, revistas e programas de tv: não só de escândalos vive a sociedade, mas de beleza, de felicidade, de solidariedade. E que é possível realizar isso, se quisermos que estas, não sejam belas palavras, impressas no papel ou nas telas dos micros dos internautas que estão lendo esta matéria.

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Perfil

Entre o teatro e o jornalismo Uma espécie de balanço da minha carreira

Quando terminei o curso de Ciências Políticas e Sociais na PUCC de Campinas em 66, já fazia teatro no Teatro do Estudante de Campinas há alguns anos, para falar a verdade, desde 63. A primeira peça foi O Tempo e os Conways de J. B. Priestley, depois fiz uma peça infantil da Lea Ziggiatti: Rapunzel, uma peça de Adamov: Somos como Éramos, e uma de Bertold Brecht: O Delator, que é afinal um quadro do grande painel que é a peça Terrores e Misérias do Terceiro Reich.

Em 68 fundei juntamente com Tereza Aguiar, José de Oliveira, Sérgio Paulo Teixeira Pombo, Vicente Conti, (mais tarde entrou minha irmã Maria Luiza Teixeira Vasconcelos) o Grupo Rotunda que estreou com a peça Electra, de Sófocles, um dos maiores tragediógrafos gregos, onde fiz o papel título. Como já gostava de escrever, comecei a publicar no Diário do Povo de Campinas uma série de artigos sobre Tragédia Grega, além de releases sobre as peças que o grupo montava. Ou seja, desde o começo eu fiquei entre o teatro e o jornalismo.

Até é interessante lembrar, como uma coisa mágica mesmo, que a sede do TEC era no sótão (olha que coisa gostosa, naquele tempo havia prédios em Campinas com sótão) da Associação Campineira de Imprensa, já que a Tereza Aguiar, diretora do grupo era também jornalista, tinha uma coluna no Diário do Povo onde naturalmente falava de teatro.

Continuando com meu destino, onde teatro e jornalismo sempre estiveram ligados, vale recordar que antes de estrearmos Electra em São Paulo, em 68, a Editora Abril promoveu um concurso para o lançamento da revista Veja. Hoje em dia o Estado de São Paulo faz este tipo de curso, aliás, que eu saiba faz todos os anos, mas a Abril foi a pioneira do gênero no Brasil, coisa, aliás, muito praticada nos Estados Unidos, na época. Pois então, eu participei e fui um dos cem escolhidos entre os dois mil participantes do Brasil inteiro.

O concurso constou de um longo questionário com questões de conhecimento geral e ainda perguntas que davam aos questionadores, um perfil do candidato do ponto de vista de idéias, ideologia, moral, etc. E quem passou por este primeiro teste, fazia um segundo exame lá na Editora Abril com um longo questionário novamente contendo perguntas sobre temas gerais: desde política internacional, nacional, artes, cultura , comportamento, etc.

Quem passasse por este, fazia uma prova oral onde discorria sobre um dos temas referidos no exame escrito e que era o seguinte: a matéria que você escreveria. E qual foi o meu tema? O Teatro Como Arte Coletiva. Pena que não tenha cópias destes questionários, mas com certeza isso está nos arquivos da Abril.

Mas a carta que a Abril me mandou eu tenho. Aliás, há alguns dias, revendo meus papéis, fazendo uma viagem de volta ao passado, encontrei, e até vou transcrever, me comunicando e dando parabéns pela minha entrada no curso que se diga, foi uma maravilha, com os cobras do jornalismo brasileiro dando palestras.

E onde foi o curso? No Teatro Itália onde mais tarde, eu faria Antígona com o Grupo União, com Eva Vilma e Leonardo Villar, Edgar Gurgel Aranha, Odavlas Petti e Claudio Luchesi. Novamente o teatro e o jornalismo misturados. As palestras eram no Teatro Itália na parte da manhã e à tarde, depois do almoço, que já era na Abril, naquele prédio da Marginal Tietê que na época estava sendo inaugurado, tínhamos a parte prática, na redação da futura Veja, sétimo andar.

A nata do talento jovem brasileiro

Mas vamos à cartinha, datada de 9 de fevereiro de 1968: ¿ Prezada Ana Lúcia: Tenho o prazer de lhe comunicar que você foi uma dos selecionados para o Curso Abril de Jornalismo. Quero ao mesmo me congratular com você, pois foi dos poucos escolhidos entre quase dois mil candidatos e ao mesmo tempo agradecer sua persistência e entusiasmo durante as provas de seleção. Agora a esperamos para o curso. Durante alguns meses você e seus colegas escolhidos, trabalharão em conjunto com algumas dezenas de jornalistas experimentados da Abril. Farão pesquisas, ouvirão especialistas e personalidades, serão informados a respeito de técnicas e experiências ligadas aos problemas atuais da profissão e aos compromissos com o país e do povo para com o futuro. Pois o objetivo do Curso é: melhor jornalismo para o Brasil de amanhã. Por isso, a Abril que faz dessas preocupações a sua constante, recrutou, em todo o Brasil, algumas dezenas de jovens talentosos como você. Para iniciarmos, juntos, uma tarefa nova, no jornalismo nacional . Seja bem-vinda. Atenciosamanente.
Victor Civita-Diretor Geral.

Em seguida vinha uma comunicação que já falava da sessão de instalação do Curso Abril de Jornalismo que seria, dia 4 de março de 1968, às 9 hs no auditório do Edifício Itália, esquina das avenidas São Luis e Ipiranga, onde teríamos as primeiras palestras de uma série que durou 8 semanas e constou de uma programação maravilhosa : palestras dadas por especialistas e jornalistas experimentados em diversas áreas do conhecimento humano: política, economia, literatura, jornalismo,etc. e onde éramos chamados de : ¿a nata do talento jovem brasileiro.

Grandes Personagens da Nossa História e estréia de Electra em São Paulo

Portanto com 24 anos eu estava em São Paulo, vivendo os primeiros tempos da Veja. Para quem não sabe, o começo da Veja foi cheio de terror-eram os famosos cortes, ou seja, era preciso ser muito bom para ficar lá. Assim foi que daqueles cem primeiros ficaram sessenta, e dos sessenta nem todos ficaram na revista-alguns foram para sucursais nas capitais, outros, eu incluída, para outras revistas e fascículos da Editora Abril e da Abril Cultural.

Eu fui designada para o fascículo Grandes Personagens da Nossa História, o primeiro fascículo feito integralmente no Brasil, lógico com muita dor no coração, porque todos queríamos ficar na Veja. O detalhe é importante, para dizer que participei, como todo aquele pessoal, de algumas coisas importantes da Abril, já que lá estavam os cobras do jornalismo brasileiro. Foi uma época maravilhosa, aprendi muito, convivi com pessoas intígentissimas, talentosos jornalistas, maravilhosos fotógrafos, artistas gráficos de alto nível, enfim a Abril era um butantã, só tinha cobras.

Mas como eu continuei no teatro e justamente naquele ano de 68 estreamos-quero dizer o Grupo de Teatro Rotunda, estreou Electra, e eu fazia o papel principal, em São Paulo no Teatro Anchieta e eu ganhei o Prêmio Revelação de Atriz da Associação de Críticos do Estado de São Paulo tendo sido ainda indicada para o Prêmio Molière de Teatro.

Na seqüência saí da Editora Abril e fui fazer Cemitério de Automóveis, de Fernando Arrabal, que havia arrebatado todos os prêmios daquele ano como melhor espetáculo, melhor direção , melhor cenário, figurino, etc. Fui convidada para substituir a Assunta Perez que havia ido para a Rússia, sendo que a produção era da Ruth Escobar e direção de um grande encenador espanhol de fama internacional Victor Garcia .

Em seguida fui convidada para fazer Ato Sem Perdão, adaptação de duas Antígonas-de Sófocles e de Anouilh, por Millôr Fernandes e direção de José Renato, com o Grupo União. A temporada foi no Teatro Itália como já disse acima.

Nos intervalos das montagens, eu fazia free lancer para revistas e fascículos da Editora Abril e para outros veículos, como a Revista Senhor, segunda fase, Revista Fatos e Fotos. Fiz ainda no teatro outra tragédia grega, Medéa, de Eurípedes com Cleide Yáconis no papel principal também no Teatro Anchieta e temporadas em Curitiba, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Brasília onde me lembro, pedi substituição e parei a minha carreira de atriz. Fiquei só no jornalismo.

O pessoal de teatro me perguntou durante dez anos, quando eu voltava. Eu não voltei, aliás, fiz bem mais tarde, em 90, uma participação numa peça que fez parte do Primeiro Festival Internacional de Teatro de Campinas, como vou falar na seqüência.

Matérias de capa como free lancer

Voltei para a Editora Abril, agora na Revista Escola que ajudei a formatar (ou seja mais uma vez estava participando da criação de um novo veículo. Aliás diga-se fiz isso outras vezes e adoro criar coisas novas). Na seqüência trabalhei como free lancer em Mestres da Musica Universal, Suplemento Cultura de O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Leia Livros, DO Leitura, Revista Senhor, Fatos e Fotos, Revista Círculo do Livro, Gazeta Mercantil , Jornal da Tarde, Ultima Hora, Isto é, Ele e Ela, Manchete, Etiqueta Moda Profissional, Revista Artes, Revista Visão , inclusive uma matéria de capa- A Família Está na Moda que foi reproduzida pela Seleções do Reader¿s Digest e publicada em l9 países da Europa e Estados Unidos. Foi a minha primeira matéria publicada no exterior, espero que tenha sido a primeira de uma série. Eu fazia, portanto matérias de capa como free lancer o que não é muito comum. Editores só fazem isso quando tem muita confiança na pessoa em questão.

Atuei ainda na TV em São Paulo como jornalista e atriz. Como atriz fiz dois programas na nascente TV Cultura: Ator na Arena, dirigido pelo grande Ziembinski e um teleteatro: Natal na Praça, de Henry Ghèon. Como jornalista fui assistente de produção e apresentadora do programa Semanário das Artes, que depois se chamou Em Cartaz e é o atual Metrópolis da mesma emissora. Na Rede Globo fui pesquisadora de arte da novela Os Gigantes de Lauro César Muniz.

Voltei para Campinas em 78 e continuei trabalhando em São Paulo, até que em 80/81 fui trabalhar em Campinas-fui Editora de Lazer de um jornal recém lançado, chamado Jornal de Hoje, atualmente extinto, cujo diretor era um daqueles ¿cobras¿ citados acima, José Hamilton Ribeiro, com quem, aliás, eu encontrava às vezes nos elevadores da Abril : eu começando a carreira, e ele já o grande Zé Hamilton, um dos fundadores da maravilhosa Realidade, que fez aquela famosa matéria no Vietnã onde perdeu uma perna numa mina.

E para não dizer que abandonei totalmente o teatro, em 90 participei da peça Courage, baseada na Mãe Coragem de Brecht, um work in progress, dirigido pelo Mauricio Paroni, do Piccollo Teatro de Millano no 1o. Festival Internacional de Teatro realizado em Campinas, e produzido pelo ator e produtor cultural Marcos Caloi e Rafael Vasconcelos, meu irmão, que à época era Diretor dos Teatros de Campinas, e mais uma equipe maravilhosa de atores da Unicamp. Pena que tudo que é bom dura pouco, especialmente em Campinas, e o Festival parou por aí por falta de verba.

O inicio de uma nova fase agora espiritual

A esta altura eu estava me voltando para a igreja católica e estava traduzindo o livro Je Vois la Vierge, sobre as aparições da Virgem em Medjugorje, projeto que marcou uma nova fase na minha vida.Sobre isso vou falar em detalhes no capítulo que fala da minha conversão, no livro sobre aparições da Virgem.

O livro, sob o título Eu Vejo a Virgem, foi publicado pelas Edições Loyola em 90 e atualmente está esgotado. (Pretendo fazer uma segunda edição, mas enquanto isso não acontece, já que contatos para tal não foram poucos eu vou igualmente veiculá-lo em capítulos neste site).

A esta altura eu havia mudado para Mogi Mirim onde trabalhei num jornal da cidade (O Impacto). Lá escrevi um livro sobre as aparições da Virgem em Jacareí que está inédito, e iniciei outro, sobre todas as aparições da Virgem ao longo da história da cristandade, que está em andamento. E mais, retomei um projeto antigo: uma História do Teatro Brasileiro para ser publicado em livro e CD ROM.

De 90 a 93 fiz mestrado na Unicamp e minha tese intitulada Diálogos com a Educação é constituída de sete entrevistas com especialistas de diferentes áreas do conhecimento humano: filosofia da educação, filosofia e psicanálise, arte educação, literatura, teatro, musica erudita contemporânea, filosofia política com uma introdução sobre técnicas de entrevista, que pode ser muito útil para cientistas sociais em geral e jornalistas em particular.

Perfis e entrevistas

Ao longo da minha carreira fiz, nos diferentes veículos em que escrevi-entrevistas e perfis que foram considerados ¿os melhores de suas vidas¿ pelos entrevistados. A maravilhosa poeta, dramaturga e ficcionista Hilda Hilst de quem fui muito amiga e falecida recentemente, e o dramaturgo e novelista de televisão Lauro César Muniz, com quem trabalhei na Rede Globo, me deram a idéia de publicá-los em livros, como fazem regularmente a Paris Review e o Le Monde que, publicam, todos os anos, as melhores entrevistas dos seus repórteres.

Assim tenho para republicar, devidamente calibrados e atualizados 35 perfis, e 8 entrevistas e perfis inéditos entre elas: o do Alceu Amoroso Lima, o famoso Tristão de Attayde, do cineasta Leon Hirzmann, do escritor Ignácio de Loyola Brandão e com a poeta, dramaturga e ficcionista Hilda Hilst, além de 27 matérias de várias áreas incluindo alguns ensaio-reportagens.

Fora isso estou escrevendo vários livros: um sobre todas as aparições da Virgem desde a primeira, e outro, uma compilação das revelações de Jesus às francesas Madalena Aumont, Je Ne Sui Rien e a egípcia Vassula Ryden, que considero as tres mais importantes da atualidade, que vou publicar neste blog, em doses homeopáticas .

Peças de teatro em andamento

E mais: estou escrevendo três peças de teatro: A Incrível Vida de Mariana Monteiro (uma história brasileira); Exercícios para Teatro em Tres Movimentos; Fernando Pessoa, Ele Mesmo. Tenho pronta a adaptação da novela Kadosh, de Hilda Hilst que considero uma obra prima. Pretendo adaptar outras obras dela, de quem gosto imensamente e que considero uma das maiores poetas e ficcionistas brasileiras e das mais importantes do planeta.

Na área de teatro para crianças tenho prontos um texto intitulado: A Cor Descontente ou O dia que O Amarelo Sumiu das Caixas de Lápis de Cor, As Aventuras de Alma no Mundão Afora (adaptação do texto Os Porquês da Inveja e da Geenerosidade, do psicanalista Conceil Corrêa da Silva, e O Jardim das Flores Vivas -adaptação do texto da poeta portuguesa Sophia de Mello Andresen: O Rapaz de Bronze.

Revista ou jornal ou site de arte e cultura

Como sempre fui meio especializada em várias coisas: teatro, literatura, artes plásticas, comportamento, naturismo (macrobiotica, acupuntura, enfim medicinas alternativas até por usá-las) sempre fiz matérias nessa linha até quando os editores riam dessas coisas, la em São Paulo há 20 anos atrás. Assim há anos venho tentando criar uma revista de Arte e Cultura em Campinas. E ao longo desses quinze anos, entre outras coisas, eu fazia, de repente algumas coberturas em dados momentos. E assim tenho algumas matérias que fazem parte da memória da arte e cultura da cidade que não gostaria de jogar fora, que são essas citadas acima.

De forma que criei, entre as sessões de teatro, cinema, artes plásticas, saúde integral, musica erudita, jazz, psicanálise, livros, uma chamada memória, onde entrariam matérias não apenas minhas, mas de escritores e jornalistas que tivessem coisas importantes nas gavetas ou na memória.

Atualmente estou participando de um coral que canta os Cantos de Taizé: é maravilhoso-, vale a pena e todos estão convidados a participarem porque primeiro: estamos precisando de vozes, segundo porque é bom cantar, terceiro porque as pessoas precisam ouvir, aqueles que não cantam. É isso, abraços gerais para a nação e mandem espero os e mails, comentários, noticias, colaborações e tudo mais..

Ana Lúcia Vasconcelos

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O que é o Blog

Sal da terra Luz do Mundo


A proposta do meu blog é a seguinte: veicular matérias de arte e cultura, em principio para cobrir os setores artístico e cultural e de saúde integral, de Campinas. O objetivo primeiro seria divulgar a arte que se faz em Campinas, tornando conhecidos os artistas e intelectuais das mais diversas áreas do conhecimento humano. Isso porque estou baseada nesta cidade, o que não significa que sejam apenas artistas locais.Na medida em que artistas de todo país e do exterior se apresentam aqui, vou falar naturalmente de eventos de nível nacional e internacional. E o mesmo vale para eventos e profissionais de todas as áreas.

Enfim, só para esclarecer que esta proposta não é ficar limitada à Campinas, ao contrário, e como vocês vão perceber logo de inicio, as matérias que tenho-que considero atemporais-nas áreas de arte e cultura são de figuras conhecidas nacional ou internacionalmente, já que trabalhei muito tempo em São Paulo e tenho muito material inédito.

Além disso, pretendo republicar, devidamente calibradas e atualizadas entrevistas e perfis que fiz ainda em São Paulo e Rio, com escritores, diretores de teatro, atores, economistas, artistas plásticos, músicos, etc., de pessoas igualmente conhecidas aqui e além fronteiras.



Arte e Cultura -Memória, Saúde Integral-Espiritualidade



De inicio, pretendo fazer links com sites da Secretaria de Cultura de Campinas e região, e de outros espaços culturais e universidades como Unicamp, Pucamp, Facamp, Unip, etc. para a programação dos eventos artísticos e culturais da cidade: espetáculos que ocorrem nos teatros municipais, e particulares, palestras, exposições de artes plásticas, cinema, concertos, shows, etc. e nos Centros de Cultura, Galerias de Arte, Escolas de Teatro e Academias de Dança, Livrarias com espaços culturais, Espaços Culturais da Unicamp, Auditórios dos vários Institutos Centro de Convenções, galerias e bibliotecas.

É bom ressaltar aqui, que no que se refere à Unicamp há coisas maravilhosas sempre acontecendo lá que os jornais não cobrem, enfim pretendo dar especial atenção às duas universidades. Imagino reportagens específicas, entrevistas com artistas, conferencistas, artistas plásticos, diretores de teatro, cenógrafos e bailarinos, compositores e interpretes de musica erudita e popular da cidade ou de fora, nas seguintes áreas: Musica Erudita, Jazz, MPB em geral, Teatro, Literatura, Artes Plásticas, Fotografia, Dança, Saúde Integral, Filosofia, Psicanálise, Ecologia, Voluntariado, Energias Alternativas, Espiritualidade.

Aliás, gostaria de ressaltar que estou escrevendo dois livros sobre espiritualidade católica: um sobre as Aparições da Virgem, e outro sobre As Últimas Revelações de Jesus e Maria para a humanidade e que vou veicular neste site, antes de publicá-los no papel, além de outras matérias da área de espiritualidade.

Vejamos então as seções que planejo abordar: Literatura: entrevistas com autores novos e consagrados, além da crítica/ resenha de livros clássico; Música Erudita, matérias com novos conjuntos, novos talentos e nomes conhecidos não apenas da cidade, mas que venham para cá apresentar seus trabalhos.

A seção Artes Plásticas terá reportagens sobre exposições das várias galerias e museus da cidade de maneira que o leitor possa aprender a visitar uma mostra e conhecer o artista ou artistas, sua concepção de arte, seu processo criativo.

Da mesma forma a seção Teatro vai cobrir os espetáculos que ocorrem nos vários teatros da cidade, com noticia sobre as peças e seus autores, diretores e atores, com entrevistas e matérias de pesquisa sobre o teatro. A seção Dança igualmente vai cobrir os eventos de dança com matérias sobre escolas de dança, entrevistas com coreógrafos e bailarinos de vários estilos e diversos métodos de trabalho.

Haverá ainda uma seção dedicada à fotografia que vai se chamar Ensaio Fotográfico onde teremos um conjunto de cinco a dez fotos de um fotógrafo conhecido da cidade ou de nível nacional ou internacional. A seção que será englobada no nome Cultura que vai conter matérias de reflexão sobre assuntos do momento ou históricos que abranjam as diversas áreas do conhecimento humano: filosofia, psicanálise, ciência, tecnologia com entrevistas com filósofos, teólogos, psicanalistas, economistas, etc., e ainda: Saúde Integral com sobre medicinas alternativas, como acupuntura, homeopatia, biodança, métodos inéditos de massagem ou manipulação corporal, florais em geral.

E mais: Ensaios - Reportagens com matérias que analisem não apenas problemas brasileiros, mas de todas as culturas do planeta. Haverá ainda uma seção que chamarei Memória, reservada para matérias inéditas que estariam nos arquivos ou nas gavetas ou simplesmente na memória de jornalistas, escritores, artistas ou cientistas sobre sua vida, professores famosos com quem conviveu ou artigos inéditos.

Como exemplo cito algumas matérias de arquivo pessoal: entrevista com o famoso humanista brasileiro, falecido há alguns anos, Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Attayde, realizada em 84, talvez a última dada por ele, antes da sua morte; entrevista com o cineasta Leon Hirzmann; uma matéria sobre a montagem da ópera O Navio Fantasma, de Wagner dirigida por Gerald Thomaz, estreada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em abril de 87; matérias inéditas com grupos de teatro de diversas partes do mundo participantes da Primeira Mostra Internacional de Teatro que aconteceu em 89 em Campinas, e outras que vocês lerão na seqüência.





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